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O jazz instrumental vive em Azymuth e The Circling Sun

 

 

 

 

The Circling Sun – Orbits
36′, 7 faixas
(Soundway)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

 

 

Azymuth – Marca Passo
67′, 11 faixas
(Far Out Recordings)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

Faz sentido juntar o novíssimo trabalho do coletivo neozelandês The Circling Sun, o estelar “Orbits”, e o mais recente álbum do queridíssimo trio brasileiro Azymuth, “Marca Passo”, sob uma única lente. A gente está falando aqui de dois grandes momentos do jazz contemporâneo em seus respectivos hemisférios, ambos com o olhar no cosmos e os pés bem fincados na pista de dança – ou, no caso do Azymuth, onde tudo começou. A ideia adjacente aqui é mostrar como o jazz instrumental é uma força muito mais perene do que se supõe. O próprio conceito do estilo pressupõe adaptabilidade e fluência, algo que, felizmente, não sai de moda. Os dois álbuns presentes nessa resenha dupla respondem em alto e bom som questões sobre modernidade, referências, influências e, acima de tudo, contém ótimas canções. A gente demorou um pouco a fazer esse texto – assim como de vários outros álbuns que virão em breve aqui no site – mas não poderíamos nos omitir sobre a estatura desses trabalhos. Você precisa ouvir os dois. Pra ontem.

 

O The Circling Sun vem de Auckland (ou Tāmaki Makaurau, no nome Māori) e “Orbits” é seu segundo álbum. A banda, que na prática é um baita coletivo, consolida a sonoridade que havia ensaiado com o trabalho anterior. O negócio deles é o spiritual jazz setentista, aquele filão que junta a reverência do jazz de John Coltrane com a cadência afro-cubana, a fluidez do acid jazz e pitadas de soul e funk. Não por acaso, as referências mais fortes que ecoam por aqui são gente do quilate de Rahsaan Roland Kirk, Pharoah Sanders, Sun Ra e, sim, o próprio Azymuth.

 

Em “Orbits”, a banda se esparrama sem cerimônia pelas sete faixas, embarcando em uma viagem sonora que é, ao mesmo tempo, introspectiva e cheia de ginga. A presença do Love Affinity Choir, um coro que adiciona texturas etéreas e vocais no formato de mantra, dá uma dimensão de ritual a faixas como “Amina” e a que abre o disco, “Constellation”, que é, desde já, uma das grandes e sensacionais gravações do ano. É música que flutua, mas que não perde o pique. A seção rítmica, ancorada no baixo funk de Ben Turua e na bateria de Julien Dyne (que também produz e arranja), é o motor que não deixa a nave parar. O vibrafone de Finn Scholes e os sopros de J.Y. Lee injetam a alma cósmica, especialmente nos momentos de improvisação poderosa. Faixas como “Mizu”, com sua bossa lânguida, e “Teeth”, com o órgão vintage e a pulsação modal, mostram a versatilidade do grupo em transitar entre o relaxamento meditativo e o groove mais pulsante. É um trabalho que preserva a instrumentação orgânica, mas com a cabeça no futuro, no melhor estilo do jazz moderno que se interessa pelo hip-hop e pela eletrônica. Um discão que faz de Auckland um ponto quente no mapa do groove global.

 

 

Do outro lado do planeta, temos o monumental Azymuth, que chega aos cinquenta anos de história com “Marca Passo”, seu primeiro álbum de estúdio completo após a morte do baterista fundador Ivan “Mamão” Conti, em 2023, que se juntou ao tecladista José Roberto Bertrami, falecido em 2012. Mas o papo aqui não é sobre luto, mas sim sobre legado e vitalidade. O baixista Alex Malheiros, membro original remanescente, assume o papel de guardião do tesouro, ladeado pelo tecladista Kiko Continentino (que já está na banda desde 2016) e pelo novo recrutamento na bateria, Renato Massa. O que se ouve em “Marca Passo” é o Azymuth em estado puro: um caldeirão alquímico de jazz-funk brasileiro, samba soul e psicodelia eletrônica que eles criaram e batizaram de “Samba Doido” lá nos anos 1970. O álbum é um mergulho na essência do trio, com a produção de Daniel Maunick, que soube capturar o espírito da sonoridade clássica da banda. Logo de cara, “Fantasy ’82” e “Belenzinho” entregam aquela levada hipnótica de teclado, o baixo elástico e a percussão milimetricamente descompassada que é a marca registrada do grupo. O disco, gravado no Rio de Janeiro, é uma celebração e um tributo. A faixa “Samba Pro Mamão” é uma homenagem emotiva ao baterista que deu o tom do grupo por décadas, mostrando que a complexidade rítmica de Ivan Conti segue viva na nova formação. Já “Last Summer In Rio” ganha uma nova versão com a participação de Jean Paul “Bluey” Maunick, do Incognito, um aceno respeitoso ao compositor original, José Roberto Bertrami.

 

“Marca Passo” mostra que, apesar das perdas, a “orquestra de três homens” segue imbatível na arte de fundir as tradições rítmicas brasileiras com o groove universal. O baixo slap de Alex Malheiros, o burburinho de synths e keyboards de Kiko Continentino e a bateria polirrítmica de Renato Massa mantêm o motor do Azymuth ligado em alta rotação. Para os fãs de carteirinha, é um porto seguro; para os novatos, é uma porta de entrada super bem-vinda a um universo que segue se expandindo, provando que o legado deles é, no mínimo, interestelar.

 

Enquanto o The Circling Sun bebe na fonte do jazz cósmico de gigantes como o Azymuth para criar sua própria versão de groove neozelandês, o próprio Azymuth prova que a sua máquina, mesmo com manutenção e novos pilotos, continua a todo vapor, girando no eixo de um som atemporal que é pura energia e samba doido de primeira linha. Dois discos pra sair orbitando sem pressa.

 

Ouça primeiro: os dois discos inteiros.

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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