Redd Kross ou o prazer de não levar o rock a sério demais
Conheci o Redd Kross na adolescência, por causa de amigos mais velhos. Aqueles amigos que sempre parecem saber de uma banda antes de todo mundo, que aparecem com um CD ou uma fita dizendo algo como “escuta isso aqui”. Na época eu ainda estava organizando meu próprio mapa musical. Entre discos de punk, power pop e algumas obsessões britânicas, alguém colocou para tocar uma música do Redd Kross. A primeira reação foi maravilhosa. A música era “Annie’s Gone”, do álbum Third Eye. Havia ali uma energia elétrica e melódica ao mesmo tempo, guitarras executadas com precisão e energia e uma canção incrivelmente pop. Era um rock meio colorido e cheio de refrões, com algo de glam setentista misturado a um senso quase juvenil de diversão – sobretudo, absurdamente vigoroso. Em poucos minutos a banda já tinha me pegado de jeito.
Essa sensação, curiosamente, nunca desaparece completamente quando se escuta a banda.
Formado pelos irmãos Jeff e Steven McDonald em Hawthorne, Califórnia, o Redd Kross começou ainda no final dos anos 1970 orbitando a cena punk de Los Angeles. Eles eram praticamente adolescentes quando começaram a tocar nos mesmos circuitos onde circulavam Black Flag e Circle Jerks. Mas desde o início havia algo deslocado ali. Enquanto boa parte do punk cultivava uma estética de austeridade ou agressividade política, o Redd Kross parecia fascinado por cultura pop em estado bruto. Quadrinhos, filmes B, glam rock, melodias ensolaradas… era como se a banda estivesse menos interessada em destruir o pop e mais em brincar com ele.
Essa mistura aparece de forma clara nos discos do começo dos anos 80. Em Born Innocent (1982), há algo caótico na maneira como eles transitam entre ruído punk e referências completamente inesperadas, como se a banda ainda estivesse descobrindo até onde poderia ir sem perder o impulso juvenil que movia aquelas primeiras gravações. Já em Neurotica (1987), o Redd Kross começa a revelar uma vocação mais nítida para o power pop, com canções que carregam uma sofisticação melódica que muitos grupos do circuito alternativo simplesmente não tinham. As guitarras continuam sujas, mas os refrões já são imensos.
Esse caminho encontra talvez seu ponto mais alto em Phaseshifter (1993), que para mim é o auge da banda. Ali tudo parece perfeitamente calibrado. O peso do glam, a herança do power pop, a irreverência punk e um senso quase clássico de composição convivem sem esforço. É um disco em que cada faixa soa como um pequeno triunfo melódico, daqueles que dão a impressão de que a música sempre existiu e só estava esperando alguém escrevê-la. Mais do que um grande álbum, Phaseshifter mostra o Redd Kross funcionando exatamente no ponto onde inteligência pop e prazer rock se encontram.
Talvez o ponto mais fascinante do Redd Kross seja justamente esse equilíbrio improvável entre sarcasmo e amor genuíno pela música pop. Em muitas bandas, o humor funciona como distanciamento irônico; no caso deles, o humor parece mais uma característica inerente. Jeff e Steven McDonald sempre demonstraram uma devoção quase enciclopédica à história do rock. Glam, bubblegum, hard rock setentista, power pop: tudo aparece no repertório deles como referência viva, não como citação intelectual.
Isso também explica por que o Redd Kross nunca se encaixou perfeitamente em nenhuma narrativa histórica. Eles estavam próximos demais do punk para serem classificados apenas como power pop, e pop demais para serem aceitos completamente pela ortodoxia punk. Nos anos 90, quando o rock alternativo explodiu comercialmente, a banda parecia ao mesmo tempo influente e deslocada. Muitos músicos os admiravam, mas o grande público nunca os transformou em fenômeno.
Há algo quase filosófico nisso. Algumas bandas existem para definir uma época. Outras existem para lembrar que a música pop é, antes de tudo, um campo de experimentação afetiva. O Redd Kross pertence claramente à segunda categoria.
Décadas depois, ouvir a banda ainda cause aquela mesma sensação da adolescência. A impressão de descobrir algo ao mesmo tempo divertido e estranho, familiar e inesperado. Como se o rock estivesse lembrando que nem toda seriedade precisa ser solene.
E há ainda outro detalhe que qualquer pessoa percebe depois de algum tempo ouvindo a banda: praticamente qualquer música do Redd Kross poderia ser um hit. Existe ali uma facilidade quase desarmante para criar refrões pegajosos, melodias claras e estruturas pop perfeitas. Mesmo faixas menos conhecidas carregam aquele tipo de gancho melódico que parece ter sido feito para tocar no rádio às três da tarde ou para ficar dias rodando na cabeça. É como se Jeff e Steven McDonald escrevessem canções com a naturalidade de quem respira.
Essa vocação fica ainda mais evidente ao vivo. Os shows do Redd Kross têm algo de celebração despreocupada. São apresentações vigorosas, barulhentas, muito bem tocadas e, acima de tudo, divertidas. A banda parece sempre lembrar que o rock também é espetáculo, energia física, troca imediata com o público. As guitarras soam grandes, os refrões ganham ainda mais força, e a sensação geral é de assistir músicos que ainda se divertem genuinamente fazendo aquilo.
No fim das contas, o Redd Kross sempre pareceu entender algo simples que muitas bandas esquecem. O rock pode até carregar mitologias grandiosas, mas ele também nasce do prazer básico de ligar uma guitarra, fazer barulho e cantar um refrão absurdo com amigos. E às vezes, quando isso é feito com inteligência, humor e paixão suficientes, acaba virando algo muito próximo da arte
Nota do editor: Nossa colunista está feliz desse jeito por conta do anúncio do show do Redd Kross no Brasil. O evento vai acontecer no dia 26 de junho, às 19h, no Cine Joia (SP). O evento é uma realização da Maraty e integra as comemorações dos 26 anos do In-Edit Brasil e dos 40 anos da tradicional loja paulistana London Calling Discos, referência absoluta na cultura musical alternativa do país. Será uma grande festa, sem hora para acabar, com discotecagem de rock da excelente DJ Flávia Durante, personagem icônica da cena alternativa paulistana. Parabéns aos envolvidos.


Maísa Mendes de Carvalho é piauiense com toques paulistas, advogada, criadora e apresentadora do Distorção Podcast, amante das artes humanas e apaixonada por música.
