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Bruno Mars exagera na cópia sem qualquer pudor

 

 

 

 

Bruno Mars – The Romantic
31′, 9 faixas
(Atlantic)

2.5 out of 5 stars (2,5 / 5)

 

 

 

 

Você já viu aquele filme “Yesterday”? Se não, eu te conto do que se trata, sem spoilers. É a história de um músico ranzinza e totalmente obscuro, fã de Beatles, que se torna a única pessoa ciente de que o Fab Four existiu um dia. Após um evento cósmico, ninguém mais sabe qualquer coisa sobre o legado do grupo, suas canções, sua influência, nada. E o cara se vê automaticamente liberado para “apresentar” aqueles novíssimos e inéditos “clássicos” da música pop. Pois bem, essa é a sensação que tenho ao ouvir o novo álbum de Bruno Mars, “The Romantic”. O jogo que ele propõe é tão arriscado quanto beber um copo d’água na cozinha: uma fornada de nove faixas totalmente devedoras do pop soul funk americano dos anos 1970, com cacoetes decalcados, inflexões vocais, arranjos, tudo, sem tirar nem por. Quer dizer, sem, evidentemente, repetir a belezura e o ineditismo que canções criadas na época tinham e, via de regra, ainda ostentam hoje. Num mundo em que a transmissão de informação é tão truncada e tumultuada, ainda que tenha o acesso relativamente fácil para quem compreende os meandros, é espantoso um movimento tão pouco ousado por parte de um artista tão conhecido globalmente. Mas é isso. “The Romantic” não tem uma única surpresa. Quer dizer, exceto para quem não tem a menor ideia das fontes de inspiração que Mars visita aqui.

 

Mas não é apenas isso. As nova faixas do álbum não têm uma única surpresa melódica. Um arranjo que insira algo de novo, uma virada autoral, um indício de ousadia mínima. É uma obra totalmente desinteressada nesse movimento. Ela não tem qualquer desejo de soar como algo feito em 2026, ou mesmo como uma apropriação feita hoje de algo do passado. A ideia é o decalque total, através de faixas que soam compostas por uma IA bem sofisticada, programada com o único intuito de emular, simular, refazer sem modificar, atingindo positivamente tanto o ouvinte que percebe a jogada, quanto o que se encanta com a descomplicação absoluta das canções. Se você sabe o que Mars está fazendo, qualquer uma das faixas vai te lembrar esses clássicos do pop soul funk setentista. Se você nunca ouviu nada disso, a técnica vocal e a dedicação de Mars, aliado ao sólido aparato de composição/decalque erguido aqui irão te agradar e satisfazer, porque, afinal de contas, há boas viradas de bateria, bons andamentos e solos de guitarra e as interpretações dedicadas do homem, que é bom de voz e palco, mas é um tarimbado artista no ofício da imitação desde sempre.

 

Só que, até aqui, Bruno não havia pegado tão pesado assim. Em seu leque de simulações, ele vai de James Brown a Rick James, sem muito esforço aparente. E tem a noção do que já foi feito na música, pegando aqui e ali suas informações. Tudo bem, essa é uma prática recorrente, especialmente nos últimos vinte, trinta anos na música pop, porém, até para a recriação pura e simples há desejos mínimos de imprimir personalidade e marcas pessoais. Aqui, neste “Romance”, não. Ele é um trabalho totalmente desvinculado disso. É feito para pessoas que não têm muita relação com a música, pelo menos, náo de um jeito mais dedicado, gente que se interessa em saber quem canta, o que canta, de onde veio, em que álbum aquela canção está ou de que trilha sonora de filme ela fez parte. Não. Em “The Romantic” estão prontas nove faixas para consumo imediatíssimo, sem qualquer data de validade, visto que abdicam de fazer parte do tempo. É estranho, mas é essa sensação que experimento ao ouvi-las.

 

E já aviso – não há qualquer faixa “ruim” entre as canções de “The Romantic”, pelo contrário. São ótimos show-roooms de música black americana dos anos 1970, indo desde as inflexões de latinidade nas obras que bandas como War tinham ou mesmo Barry White e similares. De cara, “Risk It All” vai com dedilhados de violão, metais e percussão em todos os cantos e ainda quase plageia “A Groovy Kind Of Love”, hit dos Mindbenders, coverizado por Phil Collins em 1989. Com voz emulando seriamente o registro inicial de Terence Trent D’Arby, Bruno segue adiante na latinidade de “Cha Cha Cha”, com cordas que vão totalmente na caixinha do Philly Soul de O’Jays (“Backstabbers” é a fonte de “inspiração” aqui). Em “I Just Might”, Bruno dá um pulinho no pop funk de playground ensolarado, lembrando um pouco os Jacksons, com melodia feliz e fofa. Em “God Was Showing Off” ele segue pelo caminho solar, lembrando faixas felizes e otimistas dos Intruders e dos Rascals, totalmente inserido no contexto. O título do álbum começa a fazer sentido na balada à la Isley Brothers que é “Why You Wanna Fight”, bem pensada e com boas guitarras, enquanto “On My Soul” é novo mergulho no funk mais grooveado do início dos anos 1970 e “Something Serious” mais uma vez cisca no terreiro da latinidade pelos olhos de artistas negros americanos daqueles tempos. “Nothing Left” é mais uma balada, totalmente feita com apelo pop FM oitentista, abrindo caminho para “Dance With Me” fechar a conta, dessa vez se arriscando um pouquinho no fim dos anos 1960.

 

Você dirá: “ora, as influências são ótimas, as canções são boas, do que está reclamando?”. Eu respondo: pela absoluta parceria com a falta de risco, com a conivência do algoritmo, pela opção pela mesmice e por tratar seu público como pessoas que não têm qualquer compromisso com a música. Você ainda poderá insistir: “ora, quem se importa? É só um produto”. E aí eu vou concordar. E, já que é um produto, escolha algo melhor, sem qualquer culpa.

 

 

Ouça primeiro: “Dance With Me”, “I Just Might”, “Cha Cha Cha”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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