Discos sensacionais de mulheres: waterbaby, Mitski, Momoko, Malena, Bic e Sabine
Um bom jeito de lembrar a Semana Internacional da Mulher, tendo a música atual como assunto, é, acima de tudo, reconhecer a diversidade imensa que as artistas são capazes de proporcionar no pop vigente. E ter certeza que elas vão muito além do mainstream. O que une nomes como a sueca waterbaby, a onipresente Mitski, a nipo-britânica Momoko Gill, a veterana neozelandesa Bic Runga, a argentina Malena Zavala e haitiana-americana Sabine McCalla é a capacidade de transformar o íntimo em algo universal, sem pedir licença. Seus lançamentos mais recentes — todos feitos no período entre 2025 e o início de 2026 — formam um mosaico que vai do folk espiritual ao pop barroco, provando que o protagonismo feminino na música de hoje não ocupa apenas um lugar à mesa, mas redesenha o próprio mapa sonoro da nossa época.

waterbaby – Memory Be a Blade
A sueca chega com seu aguardado debut pela Sub Pop fazendo exatamente o que o título promete: um corte limpo na nostalgia. waterbaby faz lo-fi pop como poucos, mesclando luxo e requinte ao que deveria parecer simples e fácil. Em “Memory Be a Blade”, ela equilibra a fragilidade de sua voz com uma crueza lírica sobre solidão e desejo, transformando o minimalismo eletrônico em um campo de força emocional. É música para quem gosta de dançar enquanto o mundo (ou o coração) desaba lá fora. São oito faixas, menos de meia hora, sem qualquer desperdício.

Mitski – Nothing’s About to Happen to Me
Mitski continua a desafiar qualquer tentativa de categorização com o seu oitavo álbum. Em “Nothing’s About to Happen to Me”, a escala da produção entra num território orquestral e cinematográfico, servindo de palco perfeito para canções que falam sobre dualidade entre o recluso e o expansivo. Ao explorar a vida doméstica através de lentes góticas e paranoicas, Mitski prova, mais uma vez, que é boa em transformar o desconforto cotidiano em arte relevante, contando com arranjos que são, ao mesmo tempo, grandiosos e intimamente claustrofóbicos.

Momoko Gill – Momoko
A baterista e produtora nipo-britânica, após uma colaboração brilhante com Matthew Herbert, estreia em um álbum solo que é, digamos, atmosférico. O disco homônimo navega por um R&B jazzístico que não tem pressa de chegar a lugar nenhum, rico em texturas ricas e batidas hipnóticas. Faixas como “When Palestine Is Free” mostram uma consciência política que se funde perfeitamente à estética etérea do álbum. É um trabalho de estreia que soa como obra de veterana, sofisticado e profundamente consciente do seu espaço no mundo.

Bic Runga – Red Sunset
A primeira vez que ouvi Bic Runga foi numa cover luminosa para “Tinseltown In The Rain”, do venerável Blue Nile. Quinze anos sem um disco de inéditas é tempo demais, e “Red Sunset” justifica cada segundo de espera. Gravado no inverno de Paris, o novo álbum da neozelandesa é co-produzido com Kody Nielson, e troca as guitarras de outrora por pianos e sintetizadores delicados como uma tarde chuvosa. A voz de Bic Runga continua sendo um instrumento de precisão emocional e transforma o cotidiano em poesia reflexiva. Um retorno triunfal.

Malena Zavala – If This Life Could Start Again
Neste terceiro álbum, a argentina radicada no Reino Unido usa a topografia dos Andes como metáfora para os picos e vales do coração humano. “If This Life Could Start Again” é um mergulho em um pop ensolarado, mas com raízes no folk e na psicodelia latina. A produção é impecável, limpa e polida, servindo de base para Malena explorar temas como gratidão e recomeços. É um disco que brilha no escuro, oferecendo conforto através de melodias que parecem abraçar o ouvinte em meio às incertezas do futuro.

Sabine McCalla – Don’t Call Me Baby
Lançado no apagar das luzes de 2025, o debut da artista de New Orleans é uma pequena joia que funde folk, soul e a espiritualidade do gospel. Don’t Call Me Baby carrega o peso de sete anos de gestação e a influência de suas raízes haitianas e americanas. Há uma honestidade quase dolorosa em faixas como “Song for Daniel”, dedicada ao irmão falecido. Sabine não apenas canta; ela evoca fantasmas e santos, com um registro que soa como um clássico instantâneo da música de raiz americana. Não por acaso, está no elenco de “Pecadores”, o filme com mais indicações ao Oscar de todos os tempos.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
