“Que Marravilha: Chato Pra Comer” é um Erro

 

Sabemos que o chef francês Claude Troisgros é uma figura quase inatacável. Bonachão, simpático, midiático e com cara de ser ótima praça, Claude é um inegável talento na TV e na gastronomia. É um pioneiro do termo no Brasil, onde chegou em 1979, pra trazer a tal Nouvelle Cuisine francesa, algo criado por sua família nos anos 1970. Sua cidade, Roanne, está no mapa da comida mundial por conta da ação de sua família desde os anos 1930, numa tradição que começou com seu avô, Jean Baptiste. Claude cresceu nesse ambiente, começou a trabalhar cedo e veio para o Brasil, tentar fama e fortuna. Deu certo. Estabelecido no Rio, foi figura importante na cidade desde os anos 1980. Tem vários restaurantes na capital fluminense e fora do estado do Rio, além de, claro, comandar vários programas na TV por assinatura, especialmente no canal global GNT.

 

Lembro de ver Claude na TV em meados da década de 2000, participando de um programa chamado Menu Confiança. A ideia era cozinhar e harmonizar as receitas com vinhos. Pra isso, ao seu lado, estava o jornalista Renato Machado, repórter da Globo com vários anos no exterior e conhecedor da bebida mais tradicional do mundo. Apesar de interessante, o programa não foi muito longe e Claude, carismático e cheio de jeito pra lidar com a câmera, ganhou um show só seu, o Que Marravilha, no qual fazia receitas próprias e interessantes, sempre com a mistura de produtos brasileiros junto às técnicas francesas mais clássicas. Com a presença de Batista, seu assistente desde os primeiros anos no Rio, Claude emplacou como a figura mais conhecida da gastronomia televisiva brasileira. Daí vieram variações do tema do Que Marravilha. Claude ia na casa de um espectador para aprender uma receita de família pra tentar reproduzir. Claude recebia crianças cozinheiras para executarem receitas suas. Claude recebia adultos para executarem receitas suas. Há, no entanto, uma variana lamentável dentro do universo “Que Marravilha”, o “Chato Pra Comer”.

 

A premissa é interessante. O chef recebe uma “denúncia” na qual um espectador é acusado de não comer algum alimento. Geralmente verduras, legumes, peixes, coisas assim. Daí o sujeito é levado para o programa, a fim de comer uma receita na qual Claude tentará camuflar ingredientes que o sujeito despreza, para fazer com que ele coma o que não gosta. Junto com ele, vão os denunciantes, que também comem o prato. No final, o Chef ganha a parada se o comensal reconhecer seu talento no preparo da receita e no uso “disfarçado” do alimento outrora odiado. Parece legal, né? Mas não é. E por um motivo bem simples: via de regra, os casos apresentados são lamentáveis. Gente que vai num restaurante self service e enche o prato de carnes, batatas e massas, mas não come algo que seja verde. Ou pessoas que só comem proteínas, mas não aceitam vegetais de qualquer espécie. Ou ainda alguns enlouquecidos que não comem peixe ou qualquer fruto do mar.

 

Essas pessoas são fruto de uma sociedade distorcida, que destrói diariamente várias toneladas de alimentos e mantém multidões em estado de desnutrição. Seria fácil atacar um programa que aponta como solução para uma dessas distorções, o emprego do talento de um chefe de cozinha renomado, usando ingredientes de primeiro grau. O que irrita no programa é que o “problema” do participante não é visto como algo a ser solucionado, mas uma característica a ser driblada, contornada através de um expediente impossível: consumir alimentos preparados por Claude, que mantém restaurantes que cobram caro pelos pratos que servem. Mais uma vez, como é regra nestes programas de culinária atuais, a estrela do programa é o cozinheiro e não o alimento, a receita. E o problema de alimentação errada – que é sério – passa como mero pretexto para a demonstração de talento privilegiado. Não compro essa fórmula.

 

Sem falar que, em pleno 2019, com o mundo passando por um colapso contínuo do nosso modo de vida, é extremamente irritante ver um bando de marmanjos e marmanjas da classe média brasileira confessando que não comem fígado, alface, quiabo, agrião, peixe, camarão. É um traço lamentável da nossa sociedade atrasada, que cede diante das manhas e choros das crianças que crescem cheias de tiques e taques, provenientes da pós-modernização do mundo e da incidência excessiva de toda sorte de porcaria alimentar. Cabe aos pais e aos parentes mais próximos a orientação minima. O problema nem é essa geração que cresce agora, que parece muito mais próxima de uma nova forma de se alimentar, mas sim a lamentável geração dos 30/40 anos, que viveu a aurora do neoliberalismo, teve sua infância nos anos 1990 e segue como agente de um monte de despautérios. Claro, a minha geração, na casa dos 40/50 também é lamentável em vários aspectos.

 

Criticar o programa não é criticar Claude. Ele precisa vender sua figura e consolidar seu mercado. Não sei se ele seria tão bem sucedido se estrelasse atrações em que ensinasse a fazer pratos mais saudáveis ou se ele convenceria como apresentador de culinária barata e acessível, algo que me parece extremamente necessário. Não queremos Claude como uma nova Bela Gil ou um Rodrigo Hilbert, cuja razão de existência de seu programa, “Tempero de Família, permanece um mistério. Claude é francês, gosta de manteiga, de gordura e isso é autêntico. Mas, que tal fazer algo mais adequado à nossa realidade?

 

Toda vez que o “Chato Pra Comer” passa na grade do GNT, lembro das pessoas que passam fome, que dariam tudo pra comer os vegetais e os peixes que a classe média brasileira, sem noção e sem vergonha, desperdiça ou faz carinha de nojo. Em tempos como os nossos, isso é praticamente inaceitável, mas, pensando bem, Claude talvez nem tenha tanto a ver com isso. Só pode ser mais, digamos, contundente nas soluções. Por enquanto, “Chato Pra Comer” é impossível de assistir.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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