Quando Paul Weller chutou o balde – e acertou em cheio

Caso você ainda não saiba ou tenha se dado conta, Paul Weller é um gênio. Sem exageros. Ele é mesmo. Um dos mais talentosos artesãos sonoros surgidos na Inglaterra, o homem é um mito que anda e lança discos com certa frequência. Sua música tem influências que partem do mod (não por acaso, ele é conhecido como The Modfather), abraçam o jazz, o r&b, o soul, o funk, a música eletrônica e vão para o rock de diferentes formas e intensidades. Weller, porém, mantém uma constante: a genialidade. E parte disso está na capacidade de perceber o timing certo para as coisas, não tendo qualquer medo de mudar. Veja, por exemplo, o ano de 1983. Ele era líder da banda mais famosa da Inglaterra na época, o The Jam. Oriundo da cena punk, o trio era tão importante e musical quanto o The Clash, mas tinha um apelo pop que ultrapassava a mensagem e o desejo de mudar o mundo, tão caro às bandas punk do fim dos anos 1970. Menciono o Clash por ser, junto ao Jam, o meu grupo definitivo e sensacional desse momento da música. E ambos se desfragmentaram quase ao mesmo tempo, com consequências similares: projetos paralelos incompreendidos e carreiras solo que demoraram a engrenar. Se o Clash viu Mick Jones partir para criar o sensacional Big Audio Dynamite, enquanto Joe Strummer e os remanescentes tentaram ainda fazer o grupo sobreviver com o estranho “Cut The Crap”, de 1985, o The Jam acabou abruptamente, após estar no topo das paradas inglesas com o hit “A Town Called Malice”.
Weller explicou várias vezes ao longo dos tempos que estava cansado do formato de trio, apenas com baixo e bateria para dar suporte às ideias e à sua guitarra. Mas ninguém imaginava que ele iria criar algo tão sensacional e totalmente diferente como o Style Council. E ainda hoje, quarenta anos depois disso, este movimento gera discussão e dúvida. Há um contingente imenso de pessoas que condenam Weller por ter deixado o Jam de lado em nome de uma nova proposta sonora. O fato é que, além do som, o Style Council tinha um conceito. Weller queria abraçar duas coisas naquele momento – a liberdade criativa total e um conceito de modernidade que misturava, ao mesmo tempo, as origens mod e o que ele via naquela Inglaterra do início dos anos 1980, sob o governo de margaret thatcher. O Jam era uma das várias bandas e artistas que criavam canções com forte tintura política, mas tal fato meio que se dispersava no ideário oriundo do punk e das próprias raízes mod, diluído em revolta juvenil, afirmação de identidade e uma luta caótica contra o sistema. Weller queria unir um esclarecimento social e político quase literato com uma elegância estética que ia das lambretas aos ternos com corte finíssimo, calças de grife e paisagens parisienses, com sonoridade que misturava jazz, r&b setentista, bossa nova, mostrando que era possível um sujeito de origem humilde, filho de um ex-boxeador e uma faxineira, ser aquele novo ícone. E, sim, isso era bem moderno na época.
Era moderno no sentido de ser absolutamente diferente do que todos faziam. A carga visual do Style Council não se sustentava sozinha, visto que a banda era extremamente competente no que se dispunha a fazer. Aliás,”banda” não é o termo exato, o Style era uma dupla, composta por Weller e o tecladista Mick Talbot, que participara de um grupo chamado de The Mert Parkas. Junto com eles orbitava uma coletividade de músicos freelas que eram incluídos como “honoráveis conselheiros” nas gravações e álbuns. Até a dupla estreante Everything But The Girl foi recrutada, colocando vocais e guitarras numa canção chamada “The Paris Match”. Mas vamos com calma. O Style Council teve um início de carreira caótico devido a uma borbulhância criativa intensa. Weller e Talbot não paravam de compor e dar asas a várias ideias mirabolantes em forma de híbridos jazzísticos, bossanovísticos, soul, funk e até rap. Com a gravadora Polydor dando sinal verde, eles se sentiram confiantes para ousar e aparar as arestas de seu conceito. O primeiro single foi “Speak Like A Child”, que foi lançado em março de 1983 em meio a grande expectativa por conta do que Weller estaria tramando por trás do fim do The Jam. A sonoridade soul da canção a levou para o quarto lugar nas paradas e apresentou as armas do novo projeto. “Money Go-Round”, o segundo single, mostrava um groove funk que era surpreendente mesmo para fãs do The Jam que odiavam a ideia de Weller ter desmanchado a banda. E o terceiro single confirmou a novidade: “Long Hot Summer”, uma balada funky de plástico – na melhor acepção que o termo pode ter – trazia melodia linda e um riff de baixo sintetizado que até hoje são fonte inesgotável de beleza e de utilização em samplings aqui e ali.

O ano de 1983 foi marcado por esta profusão de singles e uma produção constante. A gravadora compilou essas faixas e lançou um EP chamado “Introducing The Style Council”, fora da Inglaterra, onde os compactos iam bem, obrigado. O fato é que a versão importada do lançamento acabou sendo um item altamente comercializado naquele ano mesmo na Velha Ilha, solidificando a presença do Style Council como uma das grandes surpresas sonoras daquele tempo borbulhante. Weller e Talbot não pareciam ser capazes de parar de compor e gravar. Em fevereiro de 1984 eles já estavam com um single dourado em alta rotação – “My Ever Changing Moods” – uma canção com várias versões, todas lindas, mostrando a capacidade de Weller, não só de compor, mas de cantar bem. E de Talbot conseguir criar uma moldura sonora à altura do que a dupla estava propondo. O fato é que esta faixa antecipava, finalmente, o primeiro álbum do Style Council, que seria lançado em 16 de março de 1984: “Cafe Bleu”. E ele, mais de quarenta anos depois, ganhou uma edição sêxtupla, contendo todos os singles anteriores, versões alternativas, gravações ao vivo, sobras de estúdio, num movimento muito justo, uma vez que é impossível separar os singles do ano anterior da produção do álbum. Não por acaso, “Cafe Bleu” trazia várias versões alternativas das canções que foram lançadas anteriormente, num movimento de autorreferência que hoje soa sensacional, mas que, na época, foi confundido com pretensão e pouca criatividade.
O bacana na música do Style Council é que ela não era, em hipótese alguma, revisionista. Ainda que tivesse influências de gêneros musicais de décadas anteriores, Weller e sua turma conseguiam atualizar essas referências e soar totalmente adequados no início da década de 1980. “Cafe Bleu” tem uma quantidade impressionante de canções excelentes. São instrumentais, pop songs douradas, baladas perfeitas, construções soulpop, funkpop e derivados. Exemplos de genialidade estão por todos os cantos como em “My Ship Come In!”, uma bossa jazz com metais e pianos em brasa e um groove que seria sampleado pelo Pizzicato 5 em “Twiggy Twiggy” em 1994. Weller não canta em todas as canções do álbum, pelo contrário. Essas faixas instrumentais não foram compreendidas pela crítica musical da época. Compreensível, especialmente se pegarmos uma faixa como “Blue Cafe”, que mais parece uma gravação da Percy Faith Orchestra dos anos 1950, cheia de cordas e uma progressão de acordes que Weller tira de sua guitarra, num movimento extremo oposto a tudo que ele fizera até então. Na versão de “The Paris Match” presente no álbum, quem aparece é Tracey Thorn, cuja voz de veludo e timbre grave mostram que o Everything But The Girl era uma força criativa importantíssima naquele momento. O arranjo mostra uma faixa totalmente jazzy e enfumaçada, perfeita para Tracey planar. E outro tema jazzy, mais tradicional, cheio de metais, com arranjo de big band, também chamava a atenção: “Dropping Bombs On The Whithouse”. O título já confirmava que Weller, mesmo embalado para presente, seguia como um grande representante da esquerda socialista inglesa daquele tempo.
Aliás, é bom que se diga: foi no Style Council que Paul produziu suas canções mais inflamáveis em termos líricos. Verdadeiros hinos de consciência de classe surgiram de sua mente nesta época, pegando realmente fogo no trabalho seguinte da dupla, “Our Favorite Shop”, lançado em 1985. Voltando a “Cafe Bleu”, dá pra dizer que ele se sustenta em quatro canções perfeitas. Os dois singles, “My Ever Changing Moods” e “You’re The Best Thing”, perfeitas, cada uma a seu jeito, estão, até hoje, entre as melhores canções escritas pelo Modfather. Só elas já seriam capazes de referendar qualquer mudança de direção, mas ainda há dois tesouros presentes: “Headstart For Happiness”, um libelo de conscientização de classe e auto-esclarecimento como chave de evolução pessoal, embalado por um arranjo que lembra Van Morrison em sua versão mais “soulshine”, com ótima participação da futura Mrs Weller, a vocalista Dee C.Lee, ex-Wham, que viera para o Style Council e ficaria até o fim. E a outra canção perfeita atende pelo nome de “The Whole Point Of No Return”, que tem melancolia de praia cinzenta, nítida influência de bossa nova via jazz americano e uma lindeza minimalista que preenche o arranjo mais que vários instrumentos juntos. O futuro ambicionado por Weller teve desvios que, mesmo em meio a tanta genialidade, envelheceram mal. Exemplo maior é “A Gospel”, um rap cheio de sotaque do sul de Londres, tem programações de baixoe bateria que soam completamente datadas. Mesmo assim, dá pra perdoar (eu acho). Fechando os trabalhos, outra canção soul instrumental luminosa, “Council Meeting”.
A versão sêxtupla de “Cafe Bleu” é um deleite. Além da integridade do álbum e de “Introducing The Style Council”, com todos os singles e lados-B possíveis, há todo tipo de versão alternativa presente. “My Ever Changing Moods”, por exemplo, tem sua versão lenta, do álbum e uma leitura rápida alternativa que é maravilhosa. “You’re The Best Thing” surge em edições para rádio e numa forma absolutamente inesperada, chamada “You’re The Dub Thing”, com tinturas reggae-eletrônicas. Também temos o “dance mix” de “Money Go-Round”, o segundo single da carreira da banda, que ganha uma versão mais “orgânica”, cheia de slops no baixo e groove que envelheceu como vinho. Uma leitura longa de “The Paris Match” surge com levada mais lenta e pianos, dando mais profundidade à canção. Ou seja, as versões gravadas pelo Style Council eram realmente diferentes, alternativas e acrescentavam elementos interessantes às canções. E está tudo presente aqui.
“Cafe Bleu” é um marco de liberdade artística e descompromisso com convenções estabelecidas. E da capacidade de soar relevante mesmo fora dos padrões propostos. Junto com “Our Favorite Shop”, segundo disco do Style Council, e do primeiro feixe de singles, aqui está o melhor período da carreira de Paul Weller. O tempo está fazendo as pessoas perceberem isso. Ainda bem.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
