O mundo caótico retratado pelo Dry Cleaning

Dry Cleaning – Secret Love
41′, 11 faixas
(4AD)
(4,5 / 5)
Uma audição de “Secret Love”, terceiro álbum do Dry Cleaning, vai apontar duas coisas: trata-se de um discaço e trata-se de uma banda se tornando uma das forças do rock atual. Daí muita gente vai ponderar sobre o poder que o estilo tem em meio a este mundo digital e cínico que vivemos hoje, que mói realidades e sonhos com a mesma força e que desdenha de valores e crenças que têm prazo de vigência cada vez menor. Eu digo – o poder do rock ainda é total. Basta entender que o que chamávamos de “rock” há alguns anos, algumas décadas, não é, não pode ser a mesma coisa hoje. O que temos no mundo exige um retrato mais duro, cru, desencantado. Foi-se a matriz do blues negro, foi-se a matriz do r&b mestiço, foi-se a psicodelia como a conhecíamos. Estão na mesa novas formas de abordagem, de urbanidade, de desencanto mesmo com algum privilégio material. Foi-se o estúdio como ferramenta, foi-se o solo de guitarra para um estádio lotado. Essas coisas só existem como exercícios de estilo, como citações caducas de outro momento no tempo. O caos diário, o desencanto, a incerteza sobre o amanhã, o descontentamento absoluto com os governantes, o humor fora de lugar, tudo isso precisa estar num disco de rock em 2026 e o Dry Cleaning compreende isso perfeitamente. Este novíssimo trabalho atualiza sua narrativa e coloca o quarteto no topo do que é o rock hoje.
A dinâmica do Dry Cleaning centra atenção na postura, na poesia e no canto declamado de Florence Shaw, mas vai muito além. O entrosamento absoluto dela com o trio de músicos – Nick Buxton (bateria), Tom Dowse (guitarrista) e Lewis Maynard (baixo) – é decisivo para a impressão que o ouvinte está diante de uma versão britânica e cínica do Velvet Underground mas sem o experimentalismo e a fixação por Nova York. O que temos aqui é uma espécie de crônica desencantada da vida tendo como pano de fundo uma grande cidade – Londres? – e a tendência das pessoas em se tornarem estatística num mundo cada vez mais informal, volátil e opressor. O Dry Cleaning não tem nenhuma vontade de mascarar as sensações que nos infringem medo, ansiedade e revolta. A banda entende que não precisa fazer música convencionalmente furiosa para expressar tudo isso, pelo contrário. Seu som é quase convencional, quase harmonioso e quase repetitivo. Buxton, Dowse e Maynard, no entanto, fornecem a moldura sônica precisa para que Florence encontre base forte para desfilar suas letras e sua declamação. Dry Cleaning é uma daquelas bandas que funcionam muito melhor se o ouvinte entender o que está sendo dito.
A produção deste novo álbum é assinada por Cate Le Bon, que está se mostrando excelente nessa função, muito mais interessante do que em seus trabalhos como cantora e compositora. Ela entende perfeitamente a dinâmica do Dry Cleaning e percebe que, além da voz de Florence, os músicos têm função tão importante quanto. O resultado está, por exemplo, na grande performance das guitarras ao longo das onze faixas. Tom Dowse explora com muita ousadia e senso melódico os espaços que lhe são concedidos e oferece timbres e não-solos que fazem muita diferença. Além dele, o entrosamente entre Maynard e Buxton dá origem a uma cozinha diversificada, por mais que pareça repetitiva. Buxton é um ótimo baterista, tanto na confecção de levadas como no tempo e na variação discreta entre elas, fornecendo piso seguro para as linhas de baixo, muito mais bacanas e gorduchas do que se poderia supor. Aliás, dá pra dizer que Tom evoluiu como guitarrista, sendo capaz de fornecer algumas intervenções cortantes, que vão muito além daquele “fazer a cama” para que a cantora possa aparecer com destaque. Suas seis cordas têm cada vez mais protagonismo.
O disco, além de mostrar essas nuances e detalhes, ainda confirma que o grupo é ótimo na confecção de ótimas canções. Em todas elas há a confirmação dessa evolução de Tom nas guitarras e do ótimo diálogo da cozinha, mas, sem dúvida, Florence é a estrela que chama a atenção. O hit “Hit My Head All Day” consegue misturar The Fall, Velvet Underground e uma linha de baixo funky no parâmetro de estrutura habitual da banda, com Florence balbuciando a letra, que, assim como as demais, é uma crônica de um cotidiano estranho, sombrio e, paradoxalmente, bem humorado. As guitarras de Tom brincam de oferecer nuances ao longo dos seis minutos de duração. “Cruise Ship Designer” é “dançante” e tem tributos devidos às bandas do início dos anos 1980, enquanto Florence vai sem dó nos privilégios e distorções da sociedade. Tem muito de Pixies no baixo de “My Soul/Half Pint”, enquanto “Let Me Grow And You’ll See The Fruit” e “The Cute Things” mostram os dois lados da moeda que o Dry Cleaning pode usar para apresentar suas criações – há espaço para suavidade e ironia cáustica, tudo numa questão de segundos. E “Joy”, a faixa que encerra o disco, é uma adorável concessão a um espírito mais, digamos, dançante, algo que surge de um jeito todo próprio.
“Secret Love” é um discão e mostra uma banda que já é realidade. Com personalidade, distinção e disposição para ser original, o quarteto inglês já colocou o sarrafo de 2026 lá no alto.
Ouça primeiro: “Hit My Head All Day”, “Cruise Ship Designer”,”Joy”.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
