DestacãoMúsicaO CEL é o limite

Criticar show da Shakira é ser fascista?

 

 

A Prefeitura do Rio, na figura de Eduardo Paes, esteve brincando com a expectativa dos fãs para o anúncio da atração do show “Todo Mundo no Rio” de 2026. Nos anos anteriores, Lady Gaga e Madonna estiveram presentes na Praia de Copacabana para o grande evento gratuito, que, somados, reuniram quase três milhões de pessoas. As redes sociais da Prefeitura criaram um clima de suspense, com participação do próprio prefeito em postagens enigmáticas, sugerindo nomes. Várias atrações foram cogitadas, entre elas, os irlandeses do U2, os popstars americanos do presente – Bruno Mars, Justin Timberlake – e do passado – Britney Spears – foram alardeados também. Falou-se do retorno da cantora Rihanna ao disco (já são dez anos de hiato em sua carreira musical) e de Beyoncé. No fim das contas, Shakira, cantora colombiana, foi anunciada para o evento com uma sensação de anti-climax. Todas as atrações, exceto por Bruno Mars, que fez extensa turnê pelo país no ano passado, são “figuras difíceis” de vir até o Brasil. Shakira, pelo contrário, esteve várias vezes no país, inclusive há poucos meses. Além do mais, sua obra e sua relevância artísticas são, digamos, discutíveis. Mesmo a das atrações ventiladas e as presentes nos anos anteriores têm obras e carreiras discutíveis.

 

A função do crítico musical é … criticar. Este ofício já foi confundido com egolatria, inépcia, revanchismo e um monte de outras situações ao longo do tempo, porém, criticar com base e conhecimento de causa é um ato necessário à própria cultura e à formação do senso estético e crítico das pessoas. Certo? Em parte. Nos tempos digitais e por várias circunstâncias concomitantes, emitir opinião sobre algum assunto tornou-se arriscado e passível de juízos precipitados. Tal situação poderia espelhar um comportamento, digamos, conservador por parte das pessoas, mas, em vários momentos, combater opiniões contrárias sem qualquer reflexão prévia se tornou qualidade intrínseca aos seres humanos atuais, independente de ideologia ou visão de mundo. Em que pese as alarmantes taxas de analfabetismo funcional e incapacidade de formular um raciocínio coerente por parte de grande parte das pessoas, tal fato tornou-se regra. Voltemos à vinda de Shakira ao Rio. Seu anúncio parece ter reverberado apenas pelo lado positivo. Saudou-se a sua presença na Cidade Maravilhosa. Lembrou-se do fato dela ser colombiana, fato que ganhou nova camada de significado em tempos de leis anti-imigração estadunidenses e do governo atual do presidente trump. E, mais ainda, após a apresentação de Bad Bunny no SuperBowl, quando o superstar portorriquenho não hesitou em falar sobre panamericanismo, contrariando trump e sua política.

 

Sendo assim, criticar algo minimamente latino, por associação e filtragem vigente nas redes sociais brasileiras, tornou-se comportamento automaticamente conservador, pró-Estados Unidos, fascista, direitista e tudo mais. Não há qualquer outra referência presente nesta reaçã e, diante disso, qualquer um que se disponha a contestar a relevância musical de uma artista latina como Shakira, se torna, automaticamente, um partidário pró-trump. Cai portanto o mito de que apenas pessoas de espectro ideológico conservador seriam capazes de tal juízo precipitado e raso. Há pessoas no campo progressista que são igualmente rasas e incapazes de refletir minimamente. Ou de conviver com opiniões contrárias. E, sabemos bem, a incapacidade de aceitar opiniões contrárias é um dos traços mais marcantes do fascismo. Historicamente comprovado.

 

Há pouco tempo escrevi um texto sobre a perplexidade que experimentei quando critiquei o cantor João Gomes e seu sucesso. Vi muitas pessoas me acusando de elitismo e desconsideração sobre Gomes ser um cara legal, humilde e que “merecia o sucesso”. Minhas observações sobre ele eram meramente estéticas, artísticas, sobre a relevância de seu trabalho/sucesso para a música brasileira, devido, especialmente, à sua presença massiva nas mídias hegemônicas (e algumas alternativas) durante o ano de 2025. Creio que o mesmo mecanismo de associação extra-música opera com a situação de Shakira, acenando para uma necessidade “ética” presente em toda pessoa progressista, de “levar em conta” situações específicas para temperar um juízo. Ou seja, por sua origem humilde e alardeado bom caráter, deveria eu levar isso em conta na hora de analisar a música de Gomes. E com Shakira? Uma multimilionária artista estabelecida há décadas? Se já não levei tais freios em relação ao cantor, por que eu haveria de aplicá-las a uma popstar global? Não.

 

É fato que não podemos deixar de levar em conta que a carreira de Shakira, iniciada no fim dos anos 1990, é afetada pela mudança de paradigma na crítica musical. Com a gradativa saída de cena das publicações impressas e a ascensão dos sites e veículos digitais e com a progressiva digitalização do ato de ouvir música, as salvaguardas críticas foram se diluindo e sendo substituídas pela mecânica do clique, do streaming e da mera visibilidade. Vários artistas ascenderam ao estrelato nesse período pós-ano 2000 e muitos se beneficiaram dessa mudança de visão na qual a crítica negativa praticamente sumiu das vistas. Fazer isso virou sinônimo de maldade, sacanagem, falta de consideração, quando, na verdade, não é. Veja, é impossível ouvir que uma artista como Shakira vai tocar num megaevento no Rio e não pensar no atraso de uns quinze anos que nossa mídia e sociedade enfrentam em relação à música pop. Shakira, caso viesse tocar na Praia de Copacabana há quinze anos, após a Copa da África do Sul, cujo hino foi assinado por ela, seria um evento de relevância. Sua carreira não apresenta nada de novo há tempos e veja que eu nem estou discutindo se acho válida a sua mistura de pop eletrônico “para americano latino ver” com alguns elementos de música caribenha e latina. Em tempo – acho ruim.

 

O que estou discutindo é o apreço que temos pelo que já passou. Ou a nossa absoluta incapacidade de acompanhar o que está acontecendo agora. Até o U2, se viesse, seria motivo de questionamento, visto que o grupo irlandês não lança nada de importante há mais de vinte anos. Quando Gaga, Madonna ou os Rolling Stones vieram em tempos anteriores, suas carreiras estavam aquecidas por novos trabalhos, que lhes deram sobrevida e relevância. No caso dos Stones, com mais de sessenta anos de trajetória, esta régua nem se aplica. Mas Shakira? Não. Circulou um meme em que uma pessoa pede para o perfil da Prefeitura carioca a presença da cantora canadense Tate McRae e recebe como resposta um “quem é essa’? Por que não cogitar gente como Charlie XCX ou Sabrina Carpenter? Ou insistir em Beyoncé? Por que trazer um “nome de consenso”? No fim das contas, o crítico soa ainda mais fora de órbita quando recebe como resposta: “ah, o povão gosta disso mesmo” ou “o que esperar dessa gente?”.

 

Quem perde? Todo mundo, menos a Prefeitura e a iniciativa privada, que consolidaram um evento no calendário do Rio e lucram excessivamente com isso. E segue o baile.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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