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Por que ainda ouvimos Morrissey?

 

 

Morrissey – Make Up Is A Lie

50′, 12 faixas
(Sire)

1 out of 5 stars (1 / 5)

Por que ainda ouvimos Morrissey? Ok,é uma pergunta retórica, visto que ele é um dos personagens mais controversos e – ainda – interessantes do rock. Decisivo nos Smiths, Morrissey tem uma carreira solo respeitável. Entre 1992 e 1995, ouso dizer, foi mais preciso e interessante do que em sua ex-banda. O tempo deu a seu ex-parceiro, Johnny Marr, antes restrito a colaborações, a cota exata de paternidade sobre o legado dos Smiths, com uma carreira solo crescente e interessante.

 

E Morrissey, o que fez? Tornou-se – ou assumiu-se – um reacionário conservador. Com broches de partidos de extrema direita, declarações lamentáveis e postura desrespeitosa com fãs e seu próprio legado, ele segue lançando álbuns e o novíssimo “Make Up Is A Lie” acaba de chegar.
Não é bom, longe disso. Morrissey perdeu os principais assessores de estúdio, responsáveis por sua sonoridade ter se mantido relevante nos anos 1990, especialmente o guitarrista Boz Boorer, que esteve a seu lado por mais de trinta anos.

 

Boorer ainda está em algumas faixas de “Make Up”, mas a unidade roqueira perdeu-se há tempos. Tudo bem, o álbum anterior, “I’m Not A Dog On A Chain”, de 2020, é interessante e usa texturas e molduras eletrônicas, até então inéditas na obra do sujeito. A safra de canções presente nele é boa, o mesmo não se diz da atual. Apenas duas canções passaram no crivo: “The Monsters Of Pig Alley” e a cover de “Amazona”, do Roxy Music.

 

É pouco para um universo de doze faixas, todas meio frouxas, algumas insuportáveis (“Headache”, “Zoom Zoom The Little Boy” e a imperdoável “Notre Dame”, islamofóbica até os ossos).
O pior é que, sabendo o que Morrissey diz e pensa, fica complicado e meio vergonhoso ouvi-lo com os ouvidos de tempos atrás. Com essa postura assumida, coisas como “The National Front Disco”, “Bengali In Platforms”, entre muitas outras, soam aviltantes. Acho que passou da hora de olharmos para Morrissey como aquela criatura anti-monarquia e anti-thatcher.

 

Hoje o cara provavelmente beijaria a mão dela e, se não fizesse, riria em secredo a cada crueldade. Se tudo é uma tiração de onda com os símbolos contraculturais, já perdeu a graça há tempos.

 

“Make Up Is A Lie” é uma bomba.

 

Ouça primeiro:  “The Monsters Of Pig Alley”, “Amazona”

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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