Dandy Warhols lança ótimo disco de covers

The Dandy Warhols – Pin-Ups
63′, 17 faixas
(The World Records)
(4 / 5)
Eu adoro álbuns de covers, mesmo quando eles não são bons. Gosto de ver as escolhas, as ideias, as influências e acho especialmente bacana porque, ate prova em contrário, é tocando e cantando obras alheias que os melhores artistas da música se formam. Acho que essa regra ainda não foi revogada pela pós-modernidade, por isso, repito, gosto bastante desse tipo de disco. Nada a ver com banda cover, é bom dizer. Essa é uma praga do comodismo e da burrice auditiva. Mas o Dandy Warhols está bem longe de ser uma formação acomodada. Com o início da carreira em meados da década de 1990, o grupo de Portland estourou em 2000, com “Bohemian Like Me”, faixa de seu terceiro álbum, “Thirteen Tales Of Urban Bohemia”, que superou as expectativas mais otimistas da própria banda e fez sucesso global e bem duradouro. Só para ter uma ideia, a canção sonorizou um dos comerciais da Rolex veiculados nos intervalos da cerimônia do Oscar, estrelado por Leonardo Di Caprio. Tudo bem que os Warhols nunca repetiram esse feito, mas eles têm um cartel de ótimos discos ao longo da carreira. Seu pop eletrônico oitentista pesadinho desce bonito e, seja lá o motivo, eles permanecem na ativa até hoje. Sendo assim, é bem bacana dar de cara com esse “Pin-Ups”, que, de imediato, repete o título do álbum de covers que David Bowie lançou lá em 1973. Coincidência?
Os Dandys sempre tiveram um componente eletrônico decisivo em sua sonoridade, mas nem sempre ele fica evidente. A coisa acontece mais na produção, nos arranjos e timbres, que sempre preservaram o espírito rocker. O último disco deles, “Rockmaker”, de 2024, tinha essa noção bem evidente e contava com a participação de figurões como Slash, Frank Black e Debby Harry. O vocalista e guitarrista Courtney Taylor-Taylor é uma figura bem esclarecida dentro das propostas sonoras que são realizadas pelo Dandy Warhols e só esse tipo de postura e esclarecimento poderia credenciar “Pin-Ups” para algo além do amontoado de versões sem alma. Nesse caso, o repertório diz tudo sobre a proposta. A seleção de artistas vai de The Clash a Bob Dylan, passando por Gang Of Four, The Damned, The Cure, Violent Femmes, mostrando que o grupo privilegiou as sonoridades das décadas de 1960 e 1970. Há quatro exceções: o já citado Bob Dylan (com “Lay Lady Lay”, de 1969), Byrds (cantando Dylan, com “You Ain’t Going Nowhere”, de 1968), Beatles (“Blackbird”, de 1968) e Marilyn Manson (“Beautiful People”, de 1996) respondem pelos anos 1960 e 1990.
Há faixas setentistas de várias vertentes, que vão de The Runaways (“Cherry Bomb”, de 1976 ), New York Dolls (“Jetboy”, de 1975), Grateful Dead (“Ripple”, de 1970) a uma inesperadíssima e ótima leitura eletrorock de “Sister Golden Hair”, canção folk rock de FM do grupo America, lançada em 1975. Mas é nos 1980 que a banda soa mais à vontade. E, apesar de ter selecionado “She Sells Sanctuary”, sucesso de 1985 do The Cult, as escolhas driblam o óbvio. O próprio Cult volta com “Rain” e tem a companhia de uma encrespada “Straight To Hell” (The Clash), com mais de seis minutos de duração e de “The Love Song”, que é de 1979, mas já está inserida no contexto da década seguinte, assinada pelo The Damned. Aliás, o Gang Of Four, que surge representado por “What We All Want” (1981), é outra dessas bandas seminais daquele tempo, que ajudaram a definir a própria sonoridade que os Dandys assumiriam quase duas décadas depois. Os três melhores momentos de “Pin-Ups”, sem qualquer sombra de dúvida, são as leituras para “Primary”, do The Cure, “Kiss Off”, dos americanos do Violent Femmes e “Goo Goo Muck”, dos Cramps.
A primeira, direto de 1981, é um dos maiores colossos da primeira fase da carreira de Robert Smith e sua turma, presente no álbum “Faith”, um dos mais sombrios já lançado pelo grupo inglês. A versão dos Dandys transforma o esqueleto pós-punk do original em turbulência eletrônica, encorpando o arranjo e chegando bem perto da soberba versão que o próprio Cure registrou ao vivo no álbum “Curaetion 25 – From There To Here”, de 2019. “Kiss Off”, uma das lindezas enlouquecidas do primeiro álbum do Violent Femmes, de 1981, uma banda de Milwaukee, que transitava pelo folk anárquico e a new wave, pilotada por um doidão chamado Gordon Gano. Os Warhols dão uma roupagem ainda mais debochada ao original, dando os vocais para a tecladista e baixista Zia McCabe conferir, como dizem hoje, uma camada extra à canção. E “Goo Goo Muck”, canção inacreditável dos Cramps safra 1981, é atualizada sem perder sua essência punk-rockabilly enlouquecida.
“Pin-Ups” é muito mais divertido que a maioria dos discos de versões. Certamente porque tem a assinatura de uma banda excelente, competente, que tem ótimos álbuns.
Ouça primeiro: “Primary”, “Kiss Off”, “Goo Goo Muck”, “Sister Golden Hair”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
