Os Dez Anos de Random Access Memories

 

 

Em 2013, a dupla francesa Daft Punk estava, como diziam nossos pais, “na crista da onda” do pop mundial. Haviam lançado um single luminoso, grudento, infeccioso chamado “Get Lucky”, que, ao mesmo tempo, ampliava seu espectro musical em léguas e prestava uma homenagem justa e bacana a um dos arquitetos da sonoridade disco-funk da virada dos anos 1970/80, Nile Rodgers. Algum tempo depois, veio o álbum que seria como uma declaração de amor a uma sonoridade especial, o pop californiano da virada daquela década, mas, além disso: uma homenagem a um estado de espírito, a um futuro do pretérito, uma revisita vigorosa que trazia essas sonoridades de volta para o futuro, com o perdão do trocadilho. “Random Access Memories”, o tal álbum, se tornou um clássico da música pop recente e dividiu as águas na sonoridade do duo, que seis anos depois, encerraria as atividades. Fico me perguntando o que o Daft Punk teria feito no sucessor do álbum, mas é um exercício de adivinhação para muitos.

 

 

O fato é que, em 2013, eu colaborava com a revista Rolling Stone Brasil e recebei do meu querido editor Paulo Cavalcanti (RIP), a missão de resenhar o vindouro álbum. Para tal, foi montada uma verdadeira operação de espionagem, que envolvia minha ida até a Torre do Rio Sul, onde ficava a sede da Sony Music. Lá, recebido pela assessora de imprensa, fui levado a uma sala isolada, na qual um dispositivo parecido com um gravador, me apresentou as treze faixas do álbum. Com um caderno que havia comprado especialmente para a ocasião, eu anotei as informações sobre o que ouvi, no peito e na raça, pois não havia material de informação disponível, tudo muito secreto. Voltei para casa, em Niterói, e batuquei a resenha, que foi publicada posteriormente pela revista. Abaixo a reproduzo:

 

 

A ideia dos androides Thomas Bengalter e Guy-Manuel de Homem-Christo é proporcionar aos ouvintes (e a eles mesmos) uma passagem no túnel do tempo. O destino? Algum lugar musical da Costa Oeste norte- -americana entre 1980 e 1983. Revisionismo não é novidade para quem acompanha o trabalho do Daft Punk. Mas isto pode ser a chegada do Santo Graal para o pessoal mais jovem. O hit “Get Lucky” e seu chacundum guitarreiro a cargo do ex-Chic Nile Rodgers é ponta do iceberg que é Random Access Memories. Há homenagem a Giorgio Moroder, que ganha faixa com seu nome com mais de nove minutos de viagens em loopings eletro disco; há acenos ao Chic em “Give Life Back to Music”; boas-vindas ao rock-semiprogressivo do Alan Parsons Project em “Instant Crash”; abraços ao adult oriented rock em “Fragments of Time”; e mixes de vocais de rock de arena com beats de Kraftwerk em “Doin’ It Right”. Detalhes interessantes como bateria “humana”, uso de sintetizadores vintage e a apropriação enciclopédica de um período bem fértil da música pop credenciam o disco para curtição total.

 

 

Hoje leio este pequeno texto e vejo que ele deixa muita informação de lado, especialmente por conta do espaço reduzido disponível para a resenha. Se analisarmos sua discografia, veremos que o Daft Punk não buscava, pelo menos, não intencionalmente, com “Random Acess Memories”, algo tão americano em termos de sonoridade. Sua abordagem sonora era mais universal, pertencente a uma espécie de “pista de dança universal”, é claro, cheia de influência dos ritmos dançantes forjados nas engrenagens do Funk e do Disco setentistas, mas, de alguma forma, miscigenados com as realidades de cidades como Londres, Bristol e Paris, cheias de divisões raciais e preconceito. Daft Punk já flertara com essa variante “universal” da pista de dança também em “Discovery”, seu segundo disco, lançado em 2001, ainda que iniciasse uma jornada discreta rumo à América musical do início dos anos 1980.

 

 

O arsenal de samples utilizados por Tomas Bengalter e Guy Manuel de Homem Christo, os próprios Daft Punks, já dava conta que a dupla olhava com carinho para a década dourada dos anos 1970, cheia de gravações magistrais e experiências de todos os tipos em busca da sonoridade perfeita para a dança sem-que-houvesse-amanhã. A descida rumo ao som americano documental daquela época iniciou-se de forma mais ostensiva a partir do quarto disco da dupla, a trilha sonora da refilmagem de “Tron”. O terceiro disco, “Human After All”, de 2005, repetia a abordagem do anterior e indicava, apesar de ser bastante interessante, uma certa estagnação estética. Com a trilha sonora do filme, o Daft Punk se viu com carta branca para mergulhar na sonoridade eletrônica (hoje de ares vintage) daquele início de anos 1980 (o filme original foi lançado em 1982), que radiografava exatamente a interseção musical em questão. Além disso, era o primeiro momento dos jogos eletrônicos, migrando dos arcades (no Brasil, conhecidos como fliperamas) para os Ataris 2600 do mundo. Acreditem, era uma época legal.

 

 

“Random Acess Memories” é uma minuciosa e dedicada recriação de todos os idiomas pop surgidos numa Califórnia futurista que fica no passado. Mesmo que haja toques de Nova York no pacote rítmico proposto pela presença de Nile Rodgers, o criador do Chic, responsável por colossos como “Le Freak”, “Everybody Dance” ou canções de outrem como “We Are Family”, de Sisters Sledge e “I’m Coming Out”, de Diana Ross, todas de importância determinante na evolução da Disco Music em algo maior. Também estão presentes o compositor Paul Williams e o produtor e visionário Giorgio Moroder, ambos, cada um a seu jeito, responsáveis por esta marca sonora tão peculiar. Pharrell Williams, mais um dos aspirantes a emulador mediano das sonoridades oitentistas negras também está presente e cantou o maior sucesso planetário de 2013: “Get Lucky”, uma engenhosa liga sonora que desperta os sentidos de quem era nascido e já entendia a música na época de Chic e outros transeuntes da mudança da década de 1970/80. Outra canção, “Loose Yourself To Dance”, é igualmente pródiga em reproduzir essa sonoridade tão bacana. Além deles, temos a participação vocal de Julian Casablancas (“Instant Crush”), do co-fundador do grupo americano Animal Collective, Panda Bear (“Doin’ It Right”).

 

Com o aniversário de dez anos, uma edição de luxo ganha os fones de ouvido do mundo, trazendo o álbum original remasterizado, mais nove faixas, que são sobras e versões dos originais. “Horizon” (incluída nas edições japonesas do álbum original), a versão de “Touch” ouvida no vídeo de despedida do grupo, de 2019, primeiras tomadas de músicas e algumas ideias inacabadas como “The Writing Of Fragments Of Time”, com participação do produtor inglês Todd Edwards, que ficou de fora do lançamento de 2013. O álbum não parece ter envelhecido, tampouco acompanhado o nosso tempo. De uma forma curiosa e bem peculiar, ele ficou preservado naquele 2013, como um âmbar musical. Foi um exercício vigoroso e muito bem sucedido de recriação, apropriação e, além disso tudo, um momento extremamente feliz e fértil do Daft Punk em termos artísticos. Um feito.

 

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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