O Van Morrison negacionista

 

Tenho 35 discos de Van Morrison. Alguns deles são muito queridos, como “Moondance”, de 1970, ou “Astral Weeks”, de 1968. Ou ainda “Poetic Champions Compose”, de 1987. Adoro suas fases, sua apropriação celta do blues, jazz e r&b americanos e sua sinceridade para com a importância que a música negra tem e teve em sua formação, não só como cantor e músico, mas como pessoa. Tudo ia muito bem até que Van surgiu na imprensa se manifestando contra o isolamento social como medida para conter o avanço da pandemia de covid-19. Mais ainda: ele argumentava que tal conduta, além de prejudicar as pessoas, eram arbitrariedades do estado, que estava “restringindo a liberdade” dos cidadãos. Van, por que, Van?

 

Pois o Spotify me brindou esta manhã com “No More Lockdown”, a primeira das três faixas que Van registrou contra o isolamento social. Em meio à sua habitual argamassa sonora de blues e r&b, ele vam com uma letra que acusa cientistas de criarem fatos distorcidos com o objetivo de escravizar a população. E não para por aí. Mais adiante ele crava que o “o novo normal não é normal” e que “nós nascemos para sermos livres”. E ele finaliza:

 

“Chega de fascistas perturbando nossa paz. Chega de perder nossa liberdade e nossos direitos divinos. Fingindo que é para o nosso bem, quando, na verdade é para nos escravizar”.

 

“No More Lockdown” é a mais “invocada” das canções, mas também temos “As I Walked Out” e “Born To Be Free”. Robin Swann, ministro da saúde da Irlanda do Norte, descreveu as canções como perigosas. “Não sei de onde ele tira esses argumentos, sei que é algo emocional, mas a mensagem é perigosa”.

 

Triste, Van. Triste Van.

 

Aqui está a letra de “No More Lockdown”.

 

No more lockdown
No more government overreach
No more fascist police
Disturbing our peace
No more taking of our freedom
And our God-given rights
Pretending it’s for our safety
When it’s really to enslave
Who’s running our country?
Who’s running our world?
Examine it closely
And watch it unfurl
No more lockdown
No more threats
No more Imperial College
Santas making up crooked facts
No more lockdown
No more pulling the wool over our eyes
No more celebrities telling us
Telling us what we’re supposed to feel
No more status quo
Put your shoulder to the wind

No more lockdown
No more lockdown
No more lockdown
No more lockdown

No more lockdown
No more government overreach
No more fascist police
Disturbing our peace
No more taking of our freedom
And our God-given rights
Pretending it’s for our safety
When it’s really to enslave
Who’s running our country?
Who’s running our world?
Examine it closely
And watch it unfurl
No more lockdown
No more threats
No more Imperial College Santas
Making up crooked facts
No more lockdown
No more pulling the wool over our eyes
No more celebrities telling us
How we’re supposed to feel
No more status quo
Gotta put your shoulder to the wind

No more lockdown
No more lockdown
No more lockdown
No more lockdown
No more lockdown
No more lockdown

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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