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O sensacional easy listening tropical de Pupillo

 

 

 

 

Pupillo – Pupillo
37′, 12 faixas
(Amor & Sound)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

Eu espero que Pupillo não precise mais de um epíteto do tipo “o percussionista da Nação Zumbi” ou “o baterista da Marisa Monte” após lançar esse disco. Não que essas atribuições não lhe façam jus, pelo contrário, porém, é pouco. Muito pouco. O cara é um dos maiores músicos brasileiros em atividade, não só em seus instrumentos, mas é um desses pensadores musicais, com conceitos claros, domínio do estúdio, totalmente sintonizado com o que há de mais moderno e ciente de como fazer um trabalho sendo fiel às suas origens e plural. Não por acaso, este primeiro álbum assinado totalmente por ele leva o seu nome no título. Há alguns anos, Pupillo lançou um trabalho sob o nome de Sonorado, um disco em que ele revisitava temas de novelas dos anos 1970. Depois participou de alguns tributos e seguiu uma bem sucedida carreira de produtor/colaborador com muita gente. Além dos dois mencionados na abertura do texto, ele também é trocador de figurinhas com a patroa, Céu, e assinou trabalhos maravilhosos com Erasmo Carlos, Nando Reis, Gal Costa, entre tantos outros. Mas, repito, nada do que ele fez até agora é tão bacana quanto este “Pupillo”, o disco.

 

E por que? Bem, primeiro porque “Pupillo”, o disco, é um artefato meio único do Brasil de 2026. É totalmente instrumental, ampliando de cara os parâmetros que a música pode oferecer. Em segundo lugar, é algo totalmente brasileiro sem precisar fazer uma declaração de intenções, lembrando que não há como preservar uma identidade, digamos, própria sem estar aberto a influências de vários lugares. Desta forma, é bacana e desejável pensar na “forma brasileira” de ver essa sonoridade instrumental pós-Bossa Nova, pós-Samba Jazz, pós-Hip Hop, pós-Manguebeat, que Pupillo inaugura por aqui. E também é legal ver que ele não tem pudores de mergulhar em águas do Easy Listening dos anos 1960/70, levando em conta o que aquela música, aparentemente banal, tinha de genial. Tudo isso, mais as tais influências das trilhas noveleiras instrumentais, da pegada jazz de Naná Vasconcellos e as próprias vivências de Pupillo como pessoa e músico, está impresso nas faixas do álbum. E a proeza maior vem no fato de que elas são totalmente diferentes entre si. Talvez por contar com vários convidados ao longo do álbum, por dividir com Mario Caldato Jr a produção ou por pura generosidade colaborativa, tudo que ouvimos por aqui é muito bacana e pode soar novo para a galera mais jovem que está se encantando pelo que a música brasileira tem de melhor através dos tempos.

 

Esses convidados dão várias nuances interessantes ao álbum. Alberto Continentino, por exemplo, baixista e colaborador na soberba faixa de abertura, “Tropical Exotica”, ajuda Pupillo a singrar por mares do sul, com algo próximo daquelas composições que testavam sistemas de som nas chamadas “bachelor pads” da virada dos anos 1950/60, quando influências latinas, percussivas, brasileiras, inundaram o mercado fonográfico americano. Só que tudo aqui é muito brasileiro, cheio de ecos, efeitos e ambiência perfeitos. A coisa muda muito em “Forró no Asfalto”, que, como o nome diz, vai por outro caminho ritmico, sem abrir mão da universalidade. Agnes Nunes faz vocalises delicadas e atemporais em meio à melodia, ajudando a dar essa visão universal a algo tão pernambucano. Falando nisso, na ótima “Pifando”, Pupillo homenageia os pífanos (ou pifes), aqueles instrumentos de sopro tão característicos do folclore de Pernambuco. Mas, como dissemos, a coisa aqui é universal e os scratches e samples que inundam “Bem Bom”, a cargo de Cut Chemist e dos franceses do General Elektriks acabam desaguando numa melodia que poderia ser de Marcos Valle no início dos anos 1980.

 

Boa na mistura de timbres é “Fealhá”, que traz participações de Céu e do americano Loren Olden, abrindo caminho para o grande Amaro Freitas e “Fervendo o Chão Com Amaro”, com seu piano ímpar a favor da total percussão e dos ritmos, como é bem de seu feitio. O resultado é ótimo. Novamente a conexão com os Estados Unidos aparece na psicodélica e sensacional “O Sopro de Naná”, cheia de samples e com a participação de The Gaslamp Killer. E outro americano, o ótimo produtor Adrian Younge, um dos maiores fãs de música negra brasileira em atuação na música, aparece em “Navegando os Novos Tempos”, com performance vocal marcante e inesquecível da portuguesa Carminho, que mistura vocais fantasmagóricos de ascendência moura a um instrumental esparso. O multi-instrumentista Pedro Martins participa de “Mica Sonic Groove” e “De Chegada”, com boa dose de virtuosismo não-pentelho e conferindo brilho à argamassa percussiva. Pupillo assina sozinho a bela “Entrée”, que tem um dos melhores grooves de todo o álbum, enquanto Davi Moraes dá profundidade guitarrística marcante e “Que É Isso, Bicho”, outro momento dourado suspenso no ar.

 

Tudo bem, estamos em março, mas já podemos cravar que “Pupillo” já está na nossa lista de melhores discos nacionais de 2026. E que várias de suas faixas já têm lugar garantido na nossa playlist do ano. Ouça ontem e passe adiante.

 

Ouça primeiro: o disco todo.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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