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“HELP (2)”  reúne timaço de artistas e tem ótimos momentos

 

 

 

Vários – HELP (2)
86′, 23 faixas
(War Child)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

Tenho certeza que os idealizadores do primeiro HELP, lançado há 31 anos, não queriam lançar um segundo volume. Porque este ato significaria que ainda seria necessário unir artistas e nomes importantes da música em torno de uma causa que deveria ser encampada pelos governos do mundo e pelas pessoas em geral. Mas não. Se o primeiro volume de canções saiu em meio à guerra na Bósnia, HELP (2) surge entre a crise da Venezuela e os ataques ao Irã. “Coincidentemente”, estas ocasiões têm o envolvimento dos Estados Unidos em diferentes níveis e escalas. De qualquer forma, se o primeiro álbum era muito voltado para o estilo vigente de rock naquela época – o britpop – este novo HELP retrata fielmente a fragmentação da música pop de hoje. Já não há mais um estilo tão vigente assim e isso é bom. Saem de cena Paul McCartney, Paul Weller, Radiohead e bandas emergentes daquela época e entram em campo Fontaines DC, Arctic Monkeys, Arlo Parks, Wet Leg, Last Dinner Party, beebadoobee, Olivia Rodrigo, entre outros. Além deles, veteranos de diferentes tempos estão presentes. De Depeche Mode a Pulp, passando por Damon Albarn, Graham Coxon, Beck e Beth Gibbons, inclusive o próprio Oasis (Noel Gallagher participou do primeiro HELP), que surge com uma versão ao vivo de “Acquiesce”, gravada no ano passado em Wembley como faixa-bônus. E por mais que a causa seja nobre, iniciativas desse tipo sempre são … irregulares. Vejamos.

 

As canções – e os vídeos – foram gravados no prazo de uma semana em Abbey Road, sob a supervisão do produtor James Ford. Aqui temos uma grande desvantagem, visto que o primeiro HELP foi produzido por Brian Eno, mas isso não tira o brilho e o bom timing de “HELP (2)”. Aliás, quando o propósito é nobre, não há muita opção a não ser a boa vontade. Até porque, esta compilação realmente traz uma ótima escalação e muitas canções bacanas. Além disso, a War Child é uma fundação que atua há muito tempo na divulgação de iniciativas voltadas para a saúde infantil, seja ela mental, seja de qualquer outra natureza. Programas de assistência em várias regiões do planeta (são 14 países em quatro continentes) confirmam esta atuação. Num mundo com elon musk, trump, bezos e demais “overlords”, a War Child é dessas coisas que nos impedem de subir uma montanha e ficar lá.

 

“HELP (2)” tem 23 faixas distribuídas num LP/CD duplo. Comprando uma versão especial no site da War Child, é possível adquirir os dois formatos e mais um LP de sete polegadas com a versão ao vivo do Oasis para “Acquiesce”, gravada no ano passado. O saldo geral das canções é bem favorável e chega a surpreender em alguns momentos. Largam na frente o Pulp com a enraivecida “Begging For Change”, as ótimas Wet Leg, com “Obvious”, que mais parece uma balada folk do Fleetwood Mac pré-Califórnia e o triunvirato formado por Damon Albarn (Gorillaz, Blur), Craig Chatten (Fontaines DC) e Kae Tempest, com a bela “Flags”, que começa esparsa e vai adquirindo textura e profundidade à medida que vai avançando. “Let’s Do It Again” é uma belezura pianística do The Last Dinner Party, que também faz bonito e vai pegando corpo ao longo do caminho. Até que chega Beth Gibbons e toda sua força e majestade, oferecendo um cover delicadíssimo de “Sunday Morning”, a canção barra pesada que abre o primeiro disco do Velvet Underground. O tom solene e sofrido não chega a rivalizar com a interpretação original, mas é uma das mais belas versões que já ouvi.

 

Beck e a anglo-paquistanesa Arooj Aftab juntam forças para uma leitura dramática de “Lilac Wine”, uma canção sofridíssima de amor dos anos 1950, imortalizada por Nina Simone, que também teve uma versão belíssima feita por Jeff Buckley, em seu álbum “Grace”. A ótima Greentea Peng e o grupão Ezra Collective, ambos britânicos e imersos no universo da black music contemporânea, fazem maravilhas com “Helicopters”, enquanto Graham Coxon (Blur, The Waeve) se junta ao ótimo trio English Teacher numa das melhores canções do álbum, a ótima e intensa “Parasite”. A levíssima e extra-talentosa beebadoobee esbanja lindeza em “Say Yes”, uma cover luminosa de Elliott Smith, cujo original fecha o álbum “Either/Or”, de 1997. Os ingleses do Big Thief também mandam muito bem em “Relive, Redie”. O Fontaines DC relê “Black Boys On Mopeds”, de Sinéad O’Connor com respeito e o Foals se bem com a climática “When The War Is Finally Done”. Fechando o disco, Olivia Rodrigo faz uma bela interpretação de “The Book Of Love”, do Magnetic Fields, famosa na versão de Peter Gabriel.

 

 

“HELP (2)” é desses eventos que precisamos prestigiar. É bem feito, bem intencionado e traz canções e interpretações que realmente mostram o talento dos envolvidos. Ouça, conheça, vá atrás.

 

Ouça primeiro: “Relive, Redie”, “Obvious”, “Helicopters”, “Parasite”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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