O Ranking Tarantino

 

 

Eu não gostava de Quentin Tarantino como diretor. Acho que ele é superestimado e meio estranho, no mau sentido. Sempre pensei no ex-balconista de locadora como um ótimo roteirista, um contador de histórias, um cara cheio de boas referências de cinema obscuro, mas inserido na cultura pop. Era muito mais uma versão cinematográfica do Fatboy Slim, que sempre foi melhor DJ do que “performer”. Via Tarantino desse jeito.

 

Até que surgiu “Era Uma Vez em Hollywood”, seu mais recente filme, que está indicado para dez categorias no Oscar 2020 e vencedor dos prêmios de Melhor Direção (Critics Choice Awards) e Melhor Roteiro e Melhor Filme (Globo de Ouro), além de consagrar Brad Pitt como Melhor Ator Coadjuvante em ambos. Além disso, Tarantino repete as indicações de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original, bem como de Melhor Filme no Oscar, fato que me levou a pensar num ranking de suas produções até aqui. Há uma boa parte dos fãs do cara que torceu o nariz para “Era Uma Vez…”, por motivos diversos.

 

Alguns falaram que é “monótono”, outros disseram que era “chato” ou “enorme” e teve até quem dissesse que havia muita violência no final do longa, como se todos os anteriores fossem produções românticas e sentimentais. O DNA de Tarantino é de porrada e sorvete na testa, porém ele o faz com requinte de boas sacadas, além de ser um conhecedor profundo dos Estados Unidos e suas representações pelo Cinema. “Era Uma Vez…” é uma homenagem a uma época, mas também é uma intervenção histórica que o diretor comanda, algo que ele já havia feito em “Bastados Inglórios”, mas de uma forma embrionária. Aqui ele mete o pé na porta e muda um fato importante.

 

Sendo assim, vamos ao nosso ranking tarantinesco. E vamos ver se você concorda.

 

Detalhe: deixamos de lado os longas que ele apenas roteirizou. Caso do ótimo “Assassinos Por Natureza” e de “A Rocha”, por exemplo. Também deixamos as produções que ele co-dirigiu, caso de “Sin City” e “Four Rooms”. Ficamos, portanto, com dez filmes.

 

 

10 – Os Oito Odiados (2015) – Tarantino sempre teve dois pilares em seus filmes: violência e história. Quando ele conseguiu dosar estes elementos, fez seus melhores filmes. Nesta produção, ele exacerba a violência em detrimento de um roteiro minimamente decente. É uma exceção em sua carreira, nada se salva aqui.

 

9 – Cães de Aluguel (1992) – Sua estreia para o grande público é outro filme em que há muito mais violência do que outra coisa, porém, o roteiro é bom e inteligente, escondendo boas surpresas na trama que parece minimalista. Destaque para a atuação de Harvey Keitel.

 

8 – Kill Bill vol.2 (2004) – O segundo episódio da incursão tarantinesca no mundo dos filmes de artes marciais é inchada e beira o desnecessário. Se fosse melhor editado, “Kill Bill” seria um excelente longa em uma só parte. Mesmo assim, Tarantino consegue reeditar algum brilho da primeira parte, essa sim, muito boa.

 

7 – Prova de Morte (2006) – Este é um filme pouco badalado, inserido no projeto Grindhouse, no qual Tarantino e Robert Rodriguez colaboraram com um filme, cada. Enquanto Rodriguez ficou com o bom “Planeta Terror”, Tarantino executou este estranho road movie que tem Kurt Russell no papel de um assassino das estradas e Mary Elizabeth Winstead como uma cheerleader que discute teoria do cinema.

 

6 – Django Unchained (2012) – Boa produção sobre a escravidão americana no século 19, mas com viés enlouquecido e ultra-violento em primeiro lugar. As atuações de Leonardo Di Caprio e Samuel L Jackson são decisivas para o filme decolar, além da ótima produção, que recriou as lavouras de algodão do sul dos Estados Unidos.

 

5 – Pulp Fiction (1994) – O longa mais conhecido e cultuado de Tarantino é bom, mas não tanto. Tem um viés racista implícito, uma trama que foi favorecida pela originalidade no tempo em que foi produzida, uma ótima trilha sonora e atuações emblemáticas de John Travolta e Uma Thurman. A violência espirra sangue na tela, mas, enfim, faz parte do jogo.

 

4 – Kill Bill vol.I (2003) – Se fosse um filme só, “Kill Bill” seria um candidato sério a obra prima tarantinesca. Roteiro amalucado na medida certa, porradaria com acrobacia, personagens mitológicos, além de outra marca registrada do diretor/roteirista: trilha sonora matadora. Tudo isso sem falar no excelente papel de Uma Thurman, como A Noiva.

 

3 – Bastardos Inglórios (2009) – Este filme tem a melhor sequência de toda a carreira de Tarantino: a dos falsos dublês italianos sendo interrogados pelo personagem de Christopher Waltz, que foi revelado neste filme. Desempenho de Brad Pitt no limite exato entre a boçalidade e a coragem, sem falar em toda a liberdade histórica para mudar os fatos da Segunda Guerra Mundial. Quem pode superar o trio formado por Dominic deCocco, Antonio Margheritti e Enzo Gorlomi? Ninguém.

 

2 – Jackie Brown (1997) – Pequena obra prima em homenagem à blaxploitation, filmes com elencos e produtores/diretores negros muito populares no início dos anos 1970 nos Estados Unidos. Com Pam Grier, Robert De Niro, Bridget Fonda, Samuel L Jackson, Robert Forster, e um elenco platinado, numa história mirabolante e sensacional. A sequência de abertura é antológica, trazendo Pam Grier vestida de aeromoça, ao som de Bobby Womack e sua “Across The 110th Street”.

 

1 – Era Uma Vez em Hollywood (2019) – Filme diferente de tudo o que Tarantino fez até agora, explorando muito mais a construção dos personagens e do ambiente. É um trabalho primoroso de edição e produção, com uma reconstituição milimétrica da Hollywood de 1969, abrindo espaço para o diretor meter o nariz onde desejar e alterar alguns fatos. Desempenhos brilhantes de Leonardo di Caprio, Brad Pitt e Margot Robbie, que viva atriz Sharon Tate. Uma maravilha.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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