O Homem que Sobreviveu ao Mito – Paul McCartney: Man on the Run

Há algo irônico na trajetória de Paul McCartney nos anos 70. O homem que, segundo Peter Doggett em A batalha pela alma dos Beatles, mais lutou para preservar a continuidade do grupo acabou sendo transformado na narrativa pública no responsável por sua dissolução. Man on the Run parte dessa fratura histórica e emocional. Não para absolver Paul, mas para reorganizar os fatos e, sobretudo, o contexto.
Em setembro de 1969, John Lennon já havia comunicado aos outros que queria sair. A ruptura artística precedeu o anúncio oficial. A dissolução jurídica só se concretiza quando Paul, em dezembro de 1970, entra com ação na High Court de Londres para encerrar formalmente a sociedade Beatles & Co. Aos olhos do público, ele se torna o traidor. Na prática, dizem que tentava se proteger da gestão de Allen Klein, apoiado por John, George e Ringo, em quem ele não confiava (anos depois, essa desconfiança se revelaria fundamentada).
O documentário não suaviza o impacto emocional desse período. Mostra a reclusão na Escócia, o álcool, a insegurança. A imagem do compositor confiante escondia um luto profundo. Paul não queria apenas encerrar um contrato. Ele ainda acreditava que os Beatles eram uma entidade artística, cultural e quase familiar. Quando essa visão se mostrou inviável, restou reconstruir.
A resposta veio em estúdio.
Em abril de 1970, Paul lança McCartney, gravado praticamente sozinho em casa e no Abbey Road Studios. Ele toca baixo, guitarras, bateria, piano. O disco tem textura doméstica, quase experimental. Em 1971, com Ram, gravado em Nova York com músicos como David Spinozza e Denny Seiwell, a ideia de banda volta a ganhar forma. Starkey afirmou que, ao ouvir Ram, sentiu-se decepcionado com Paul, como se aquele disco representasse um afastamento pessoal e artístico maior do que ele esperava.
O Wings nasce oficialmente em agosto de 1971 com Paul McCartney, Linda McCartney nos teclados, Denny Laine na guitarra e vocais, Denny Seiwell na bateria e Henry McCullough na guitarra solo. Wild Life é gravado em pouco mais de uma semana no Abbey Road Studios. A intenção era capturar espontaneidade. A crítica enxergou desleixo. Começava ali o segundo julgamento público de Paul.
As primeiras turnês por universidades britânicas em 1972 são quase um gesto simbólico. O maior hitmaker da década anterior recomeçando em palcos modestos. Era sobrevivência artística, mas era também uma tentativa deliberada de desinflar o mito.
O momento decisivo chega em 1973 com Band on the Run. Antes das gravações, Seiwell e McCullough deixam a banda. Restam Paul, Linda e Denny Laine. O álbum é gravado no EMI Studios de Lagos, Nigéria, em meio a instabilidade política e até relatos de assalto com perda de demos. Paul grava múltiplos instrumentos, inclusive baterias em várias faixas. A faixa-título apresenta mudanças estruturais internas quase em forma de suíte. “Jet” exibe energia rock com arranjos de metais precisos. O resultado é um sucesso comercial e crítico que reorganiza sua posição na indústria.
E isso não foi apenas um retorno, foi uma redefinição.
A formação do Wings se estabiliza com Jimmy McCulloch na guitarra e Joe English na bateria. Venus and Mars, gravado em Nova Orleans em 1975, amplia a sofisticação de produção. Em Wings at the Speed of Sound, cada integrante canta ao menos uma faixa, tentativa clara de diluir a percepção de banda de apoio. A turnê Wings Over the World em 1975 e 1976 leva o grupo a estádios lotados. Paul alterna baixo Hofner e Rickenbacker, piano e violão, com resistência vocal impressionante. O repertório mistura novas composições e clássicos dos Beatles, não como nostalgia, mas como integração histórica.
O documentário também enfrenta a questão do controle criativo. Paul sempre foi meticuloso, centralizador, arquiteto sonoro obsessivo. Nos Beatles isso gerava tensão. No Wings, a hierarquia era clara: ele compunha, organizava arranjos, supervisionava overdubs. O método não mudou. Mudou o contexto.
Enquanto John Lennon mergulhava em registros confessionais e discurso político direto em álbuns como Plastic Ono Band, Paul investia em arquitetura melódica elaborada e construção formal sofisticada. Nos anos 70, a crítica valorizava o radicalismo explícito. Com o tempo, passou a reconhecer a complexidade estrutural e a resistência estética de McCartney.
Há também a dimensão simbólica. Lennon raramente demonstrava respeito por Linda, e parte da imprensa absorveu essa postura como parâmetro crítico. No entanto, a parceria constante entre Paul e Linda ajudou a humanizar sua imagem. Ele deixou de ser apenas o competidor de John e passou a ser visto como marido, pai, líder de banda e trabalhador obstinado.
O que Man on the Run sugere não é uma redenção melodramática. É algo mais técnico e talvez mais honesto. Paul não venceu uma guerra narrativa sobre quem terminou os Beatles. Essa disputa permanece no imaginário coletivo. O que ele fez foi mais simples e mais difícil… ele continuou.
Enquanto o mundo discutia culpa e legado, ele gravava overdubs em Lagos, reorganizava formações, estruturava turnês globais e escrevia melodias que atravessariam décadas. Não buscou destruir o passado nem substituí-lo. Trabalhou ao lado dele.
No fim, o documentário revela que a verdadeira batalha não era pela alma dos Beatles, mas pela própria capacidade de seguir criando depois do mito. Há algo de inevitavelmente trágico na relação entre mito e indivíduo. O mito simplifica para sobreviver. Ele precisa de heróis e de culpados, de narrativas claras, de gestos definitivos. Já o ser humano é ambíguo, contraditório, técnico, emocional, às vezes banal. Quando um grupo como os Beatles se transforma em mito, seus integrantes deixam de ser apenas músicos e passam a ocupar arquétipos. O rebelde, o espiritual, o silencioso, o trabalhador meticuloso. O problema é que o mito não tolera complexidade. Ele exige coerência absoluta. Talvez por isso Paul tenha sido reduzido por tanto tempo à figura do controlador ou do vilão do fim. O mito precisava de uma forma simples para explicar algo que, na verdade, foi profundamente humano: quatro artistas crescendo em direções diferentes. No fundo, o documentário mostra que sobreviver ao mito é mais difícil do que criá-lo. Porque continuar vivendo exige nuances, e o mito sempre prefere linhas retas.
Paul McCartney não precisava provar que era o mais profundo, nem o mais revolucionário, precisava apenas demonstrar que ainda tinha futuro. E fez isso da maneira que sempre soube fazer melhor. Em estúdio, com método, obsessão melódica e uma convicção quase teimosa de que a música continua mesmo quando as lendas acabam.

Maísa Mendes de Carvalho é piauiense com toques paulistas, advogada, criadora e apresentadora do Distorção Podcast, amante das artes humanas e apaixonada por música.
