“O Agente Secreto” fala sobre a importância da memória

Ano passado, por conta do lançamento de “Ainda Estou Aqui”, disse que ele se tratava do filme definitivo sobre a ditadura civil-militar brasileira. Fico me perguntando se ele ainda se sustenta, mesmo transcorrido tão pouco tempo desta afirmação. Porque agora temos “O Agente Secreto”, que é uma obra totalmente diferente de “Ainda…”, mas também fala daquele período obscuro do nosso país, no qual as garantias individuais eram, digamos, tênues demais. Enquanto o longa de Walter Salles mapeia um evento conhecido do público – o sequestro e morte do ex-Deputado Federal Rubens Paiva e a luta de sua família por justiça – o filme de Kleber Machado Filho fala sobre uma história fictícia de um homem misterioso, que chega à cidade do Recife no início de 1977, em busca do filho e fugindo de pessoas que ele nem sabe quem são. Um fato ocorreu, o outro não. Não mesmo? Quantas e quantas pessoas foram perseguidas entre 1964 e 1985? Perseguidas e mortas? De ex-presidentes a gente comum, estes vinte anos foram pródigos em apagar trajetórias sob o manto generoso da impunidade e da conivência da nossa sociedade para com isso. Mais do que um filme de ação e mistério, “O Agente Secreto” quer falar sobre isso. Sobre revelar o que está apagado. E trazer isso de volta.
Claro que Kleber Machado Filho oferece muito mais ao espectador. Seu filme é um thriller de suspense e espionagem em pleno Recife de 1977. Para revestir essa ação de espantosa veracidade, ele recorre aa lembranças pessoais, referências variadas e um número impressionante de imagens de arquivo, que ele levantou para seu longa anterior, o belíssimo “Retratos Fantasmas” (2023), no qual mapeia os cinemas de Recife com precisão historiográfica, misturando ciência e amor em doses iguais. Pois em “Agente”, KMF se vale dessa experiência prévia e a usa como ponto de partida para escrever sua história fictícia, na qual Wagner Moura é o destinatário. O diretor disse em várias entrevistas que escreveu o roteiro tendo em vista o ator baiano, que ganhou um personagem sob medida: o misterioso Marcelo. Com esta relação tão estreita, ator e diretor compuseram a trama, que mostra Marcelo em fuga de algo e desesperado para buscar seu filho e partir para fora do país. Enquanto Kleber não nos conta os motivos para este estado de coisas, vai trazendo à tela todo o seu repertório de lembranças daquele tempo. Carros, músicas, sons, roupas, jeitos, tudo é milimetricamente pensado e, ainda assim, extremamente espontâneo. A sensação, especialmente para quem já estava por aqui naquele 1977, é de um estranhíssimo deja vú de algo que não aconteceu completamente. Ou terá acontecido?
Mesmo sendo eu um carioca de 1970, é possível reconhecer muitas das minhas próprias lembranças pessoais na construção da paisagem urbana do Recife e de seus habitantes. Não fosse bastante, Kleber ainda aproveita para falar sobre lendas urbanas, especialmente da da Perna Cabeluda, que tem sua origem explicada e que acaba por fazer parte do filme, puxando a trama para um sombreado de terror e gore. Não dá pra dizer o que é mais sensacional em “O Agente Secreto”: a trama ou a ambientação. A história de Marcelo vai sendo cuidadosamente revelada ao público, com minúcias de detalhes, que vão se casando e fazendo sentido, como se fossem peças de um grande quebra-cabeças. E quando pensamos que sabemos exatamente o que estamos vendo, o diretor vai mostrando – também aos poucos – sua verdadeira intenção ao apresentar “O Agente Secreto” ao público – a impressionante sensação de dar vida a pessoas e fatos que pareciam destinados ao esquecimento e ao apagamento. Para quem é historiador e sabe da força da memória como mola propulsora da própria História, ver essa camada num filme tão prestigiado no exterior nos dá uma ponta de esperança.
Desnecessário dizer o quão bem está o elenco. Wagner Moura tem uma atuação absurdamente verdadeira e afetuosa, gerando no público uma empatia imediata e irreversível. Seu Marcelo é um pouco de todos nós, para o bem e para o mal. Além dele, seu sogro, Seu Alexandre, vivido pelo impressionante Carlos Francisco, foi inspirado no projecionista real do Cine São Luiz, mostrado em “Retratos Fantasmas”, tem papel relevante na trama, assim como Eva, vivida por Maria Fernanda Cândido, que tem apenas uma cena, mas brilha intensamente. Hermila Guedes, como Claudia, também aparece pouco, mas com muita presença. Os vilões também são sensacionais – o asqueroso pistoleiro ex-militar, Augusto (Roney Villela) e seu enteado, Bobbi (Gabriel Leone), compõem a dupla perfeita de bandidos sem escrúpulos, só sendo superados pelo Delegado Euclides (Robério Diógenes) e seu bando de policiais-jagunços. E, mais que todos estes, a fabulosa Tânia Maria, que interpreta a inacreditável Dona Sebastiana, anfitriã de Marcelo quando ele chega ao Recife. Trata-se de uma personagem que, por si só, merecia um longa completo contando sua história.
“O Agente Secreto” é isso – um filme de histórias que se entrelaçam e, a partir disso, se modificam, para, no futuro, serem recontadas, reveladas e reconstruídas. Se “Ainda Estou Aqui” é um filme definitivo sobre a ditadura civil-militar, dá pra dizer que “O Agente Secreto” é um filme definitivo sobre o próprio Brasil e sua sina de teimar em esquecer de seu povo. Arrebatador.
Em tempo: “O Agente Secreto” já venceu vários prêmios internacionais, entre eles, o de Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Diretor (Kleber Mendonça Filho) no Festival de Cannes deste ano. E hoje, 08 de dezembro de 2025, foi indicado a três Globos de Ouro – Melhor Ator (Wagner Moura), Melhor Filme Internacional e Melhor Filme de Drama.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
