ColunasDestacãoO CEL é o limite

Não gostar de João Gomes é ser conservador?

 

 

O tempo presente é paradoxal. Exige de nós a noção de que estamos aqui e agora, mas não nos deixa descansar em cima dessa condição. “É preciso olhar para frente”, nos dizem. “Não há que perder tempo com o passado”, também ouvimos. Mas, o que fazer quando o que nos é oferecido agora, aqui, parece tão frágil, incipiente, fugidio? Nos resignamos, ponderando que este é um traço indissociável do nosso tempo ou tentamos resistir a essa sensação de que as coisas estão muito mais superficiais do que pareciam há alguns anos? Ou será que tudo isso é impressão – as coisas estão como sempre foram e nós é que mudamos? Seja o que for, pode ser melhor confiar no nosso próprio instinto do que comprar prontas as opiniões alheias, especialmente quando estas parecem totalmente norteadas por fluxos comerciais, superficialidade das redes digitais e sociais e a necessidade autofágica de consumir novidades, mesmo que estas nos soem velhas, recicladas, forçadas. Tudo parece um plano de marketing, minuciosamente pensado e executado com frieza mercadológica, sem chance de erro. E isso às vezes surge como se fosse algo muito espontâneo, natural, exuberante. Veja, por exemplo, o sucesso do pernambucano João Gomes. No Prêmio Multishow de ontem, ele foi vencedor de várias categorias. E daí?

 

Vejamos. Você – como eu – tem todo o direito de não se interessar pela premiação do Multishow, mas não dá pra negar que ela é um eficiente termômetro para medir a quantas anda a produção musical brasileira. Se você é um fã de outros tempos da música nacional, prestar atenção no que está nas listas de prêmios de ontem é passaporte certo para se achar fora do mundo. Ou mais – para se achar irremediavelmente perdido num tempo estranho, desabitado. Ou ainda ter a certeza definitiva de que ninguém mais conhece o que você conhece. Pois bem, todas as sensações são válidas, mas, além delas, há a confirmação de que, sim, os últimos vinte, trinta anos da vida cultural do país geraram múltiplas situações. A ascensão do agropop, do funk estilizado, a consolidação dos ritmos nordestinos, baianos, a decadência do pop rock de matriz anglo-americana, a setorização de artistas independentes, o envelhecimento de ex-astros do passado, hoje septuagenários/octogenários, nos dizendo que estão prestes a sair de cena. E como você fica nisso tudo? Afinal de contas, gosto é identidade, é manifestação de suas impressões perante os outros e o mundo. Você pode se entrincheirar nas fileiras do mote “no meu tempo é que era bom” ou lotear suas impressões em nome de uma sintonia indissociável com a modernidade cotidiana. Ou, claro, pode não se interessar por isso.

 

Mas, digamos que você se interesse. O que fazer? Eu, por exemplo, prestes a completar trinta anos de escrita sobre música popular, acho que gente como Luisa Sonza, João Gomes, Gabi Melim, Jotapê, entre outros, são artistas com muito menos capital do que a maioria esmagadora de público e crítica atuais lhes confere. Acho que suas obras são superficiais, com tempo curtíssimo de validade, engendradas com mais visão comercial do que artística. Seria eu um conservador por pensar desse jeito? Acho que não. Até porque há muita, muita gente jovem e talentosa. Vários, muitos, capazes de fazer obras complexas, instigantes, interessantes. A questão parece ser de escolha. Certa vez um grande jornalista cultural, o qual me inspirou bastante, me disse que “crítica musical não é sociologia”. Pedi para que ele explicasse e ele disse: “Eu não preciso gostar de um artista por conta de, por exemplo, inclusão social”. Ele se referia à obra de Pabblo Vittar. Bingo. Concordo com sua opinião e tal noção, ainda que não seja uma regra absoluta, me serve para analisar a produção da música brasileira. Eu não preciso gostar de artistas novos porque apenas são novos sob pena de me sentir demodê ou conservador. Eu posso – e devo – gostar dos artistas que se comunicam minimamente comigo, cujas obras me dizem algo, me acrescentam. Claro, imagino que os fãs dessa produção recente ouça, sinta e veja conexões fortíssimas com discos e canções destes artistas, mas, assim como isso é válido, minha opção contrária também tem que ser. E funciona assim.

 

Dessa forma, dei play em “Dominguinho”, o disco que João Gomes gravou com Jotapê e o sanfoneiro Mestrinho, em abril deste ano e que tornou-se um dos álbuns mais ouvidos deste ano. Além disso, a relevância do pernambucano foi defendida e alardeada por formadores de opinião e críticos em vários veículos de comunicação. E mais – um grande, enorme amigo meu o postou como seu álbum mais ouvido em 2025 na retrospectiva do Spotify. Motivo mais do que suficiente para dar uma chance. O que sai dos fones de ouvido está na área de ofício de Gomes, o forró. Mas é a variante moderna e eletrônica deste, o piseiro, derivado da “pisadinha”. É sucesso entre gente mais jovem das redes sociais por conta dessa sensação poderosa de abarcar manifestações culturais de lá e daqui ao mesmo tempo, com a noção “sociológica” da inclusão. É bacana a sensação, vai. E válida, se você, de fato, for jovem o bastante para achar que isso é o suficiente. O disco é bem feito, bem produzido, acústico e soa bem intencionado. Mas não é preciso ser um conhecedor profundo de forró – meu caso – para saber que ele é, como praticamente tudo o que é feito hoje, superficial, rápido, fugidio e feito sob medida para compartilhamento digital e apreciação comercial pura e simples. A mim, pelo menos, não comunicou nada. Zero. Rosca. Tudo bem.

 

Para a minha surpresa – ironia contida nesta afirmação – vi que o tal “Dominguinho” já gerou um segundo álbum, chamado “Baile do Dominguinho”, com banda e instrumentos elétricos. Se o primeiro registro teve até uma versão forró de “Pontes Indestrutíveis”, do terrível Charlie Brown Jr, esta segunda obra releu Belchior, Anastácia, tudo muito, muito mal feito. Mas, claro, minha opinião. Algum tempo depois, lá estava o trio presente no Fantástico, recebendo a validação global necessária e, a partir daí, o conhecimento nacional em grande escala. Daí para a reprodução incessante e o Prêmio Multishow, foi um pulo.

 

Eu sigo não gostando de artistas como João Gomes. Se Luisa Sonza faz babytalking tatibitati para cantar seus “hinos de empoderamento feminino” para a Geração Z, Gomes parece ser um problema sério de vocalização. Sua voz é grave, a dicção não é clara, mas, óbvio, esses são os meus ouvidos. Você tem os seus, pode – e deve – utilizá-los como bem quiser.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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