O canto de cisne de Gal Costa

Gal Costa – As Várias Pontas de uma Estrala/Ao Vivo No Coala Festival
75′, 20 faixas
(Biscoito Fino)
(5 / 5)
Ouvir esse registro ao vivo de Gal Costa, captado dois meses antes de sua morte, traz uma sensação estranha. A qualidade é ótima, Gal ainda mostra vigor de sobra para conduzir um show relevante e instigante, e a pergunta não sai da nossa mente – por que ela morreu? Por que tinha que morrer justo quando experimentava um momento criativo e vigoroso? Pois se este show nos faz duvidar do que aconteceu, é porque tem força e brilho próprios, intensos e importantes. Este não é um disco póstumo convencional, é o documento urgente e elétrico de que, mesmo aos 77 anos, Gal carregava em si todas as tensões, todas as contradições, e toda a beleza que teve a audácia de produzir em sua trajetória. É uma espécie de volta olímpica. O que a gente tem aqui é o registro de uma decisão artística precisa e corajosa, moldada por Marcus Preto, seu último grande produtor e cúmplice nessa reinvenção.
Gal, a cantora que nasceu com o violão de João Gilberto na mão, aqui trocou o instrumento acústico pelo piano/teclado de André Lima. É perceptível a diferença no primeiro acorde de “Fé Cega, Faca Amolada”. Aquele piano não está ali para fazer um acalanto de bossa; está para dar uma cara moderna, quase um jazz-rock que substitui o violão e eletriza o repertório. Essa formação, com o baixo elétrico e acústico de Fábio Sá e a bateria de Victor Cabral, é a espinha dorsal para Gal abordar as músicas de um jeito que só ela podia. Esta última fase da carreira mostrava uma versão elétrica e forte de Gal. Não era a artista que, sabiamente, fez a transição do pop rock brasileiro dos anos 1970 para a música de FM oitentista, quando a hora era certa. Trata-se da Gal mais crua, que ainda esgarça a nota final com a garra de uma roqueira de estilo e luz próprias. A voz está lá, vibrante, longe de imaginar que aquela era a última vez que se apresentava. Em “Divino Maravilhoso”, ela dá conta da juventude que um festival como o Coala exigia e, mais uma vez, manda tudo mais para o inferno.
O repertório é de uma coragem necessária. O título, emprestado da canção de Milton Nascimento (“Ponta de Areia”), era o pretexto para Gal se debruçar sobre a obra de Bituca — uma costura que liga a Bahia de Caymmi ao Clube da Esquina, unindo o Brasil que nos restou: lírico, mas cheio de cicatrizes. “Ponta de Areia” e “Fé Cega” se unem aos clássicos obrigatórios que, nas mãos dela, sempre ganham nova vida. Mas o que prova que Gal estava atenta e forte é a inclusão de “Quando Você Olha Pra Ela”, da Mallu Magalhães, e a leitura de “Palavras no Corpo” (Silva/Omar Salomão). Não é um flerte de diva cansada com o pop. É a prova de que ela ainda se conecta com a dor e o amor das novas gerações. Ela pega o “uh, uh, quando você olha pra ela eu viro areia” e transforma em um hino de fossa adulta e assumida, com a entrega emocional que poucos têm. A emoção do registro tem uma camada extra de significado, o coletivo. Este show, adiado pela pandemia, marcou a volta em grande estilo. Como relataram os produtores, Gal estava empolgadíssima com o público. É o reencontro da artista com o seu povo após o isolamento, uma reconexão com a memória e a energia que o Brasil parecia ter esquecido.
E as participações? Rubel (em uma emocionante “Como 2 e 2”) e Tim Bernardes (numa versão mais rock and roll e urgente de “Vapor Barato”) estão ali, nessa celebração final. É a Gal dizendo: “Eu sou o passado, o presente e o futuro; e vocês, garotos, são as minhas várias pontas”. O ponto alto, a hora de parar e prestar atenção, é a interpretação de “Nada Mais”, versão maravilhosa de Ronaldo Bastos para “Lately” (Stevie Wonder). Não é só uma balada. É o momento em que a artista, que já havia gravado duetos no álbum “Nenhuma Dor”, se entrega. É a confissão pura, sem medo, de quem sabe que a vida é feita de cacetadas, e que a arte é essencial para aguentar o tranco.
Gal Costa nunca foi só uma cantora. Foi uma ação dentro da música brasileira. E este disco final é a prova de que, mesmo quando a cortina se fecha, o seu brilho continua a nos cegar. É preciso estar atento e forte, e ouvir este disco. É o maior presente que ela nos deu antes de partir.
Ouça primeiro: todo o disco

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
