Nossa musa Hollie Cook volta com mais um disco perfeito

Hollie Cook – Shy Girl
39′, 12 faixas
(Mr.Bongo)
(5 / 5)
Você sabe o que é “lovers rock”? É um subgênero do reggae que surgiu no Reino Unido nos anos 1970, caracterizado por melodias suaves e letras focadas em temas românticos (amor, relacionamentos e emoções pessoais), incorporando forte influência do soul e R&B. É importante a gente saber do que se trata porque estamos diante de uma das mais doces e sensacionais vozes do estilo em atividade: Hollie Cook. “Shy Girl”, seu quinto trabalho de estúdio, chega para consolidar um caminho que ela vem traçando desde sua estreia: a busca por algo como um pop tropical com alma jamaicana, que flerta com a doçura do soul, mas se ancora na densidade rítmica do reggae roots. É um álbum que soa como um reencontro, uma destilação do que a artista tem de melhor, agora mais confiante e vulnerável em doses exatas. O título, segundo a própria Cook, é uma chave de leitura, um convite à sua versão mais sincera e desarmada. E é essa honestidade que permeia as doze faixas, tecidas em torno de histórias de amor em suas variadas formas – da euforia ao desencontro, da entrega ao acanhamento. A produção, mais uma vez com Ben McKone, resgata a sonoridade quente e orgânica que a acompanha, priorizando o groove e a riqueza dos arranjos de metais e backing vocals.
A faixa-título, que abre os trabalhos, é um exemplar de lovers rock elástico e levemente nostálgico. A linha de baixo vibrante e a guitarra criam uma base sólida para a voz de Cook, que irradia um calor despretensioso. É o tipo de canção que estabelece o tom, mostrando que, mesmo nos temas mais pessoais, a cadência é o elemento central. O disco se aprofunda em texturas mais densas em momentos como “Frontline”. Aqui, o reggae pisa em um território mais roots e com uma pegada dub, evidenciada pela guitarra mais presente e a seção de sopros, que participa da estrutura da melodia. A melancolia é equilibrada pela força do arranjo, um belo exemplo de como Cook sabe dosar a ternura vocal com o peso da instrumentação. É neste equilíbrio, aliás, que reside a maestria do álbum: a capacidade de soar leve sem ser superficial. Há espaço para o pop mais direto, como em “Holding On”, que evoca um certo disco-reggae, mantendo o clima solar sem cair no lugar-comum. Já em “Night Night”, a presença do veterano MC e toaster Horseman adiciona um elemento de diálogo rítmico, injetando uma energia noventista que remete aos soundsystems de Londres, uma referência crucial na formação da artista.
As letras são um ponto forte. Cook não recorre a grandes metáforas ou construções complexas, mas atinge uma profundidade emocional através da observação cotidiana dos afetos. Em “In the Pictures”, a canção fala de saudade e apego simplicidade que cativa, embalada por harmonias vocais que preenchem o espaço deixado pelas cordas mais proeminentes de seus primeiros trabalhos. E há espaço para um momento em que Hollie chega muito perto de um arranjo clássico de soul sessentista, algo que poderia ser das Supremes ou dos Temptations, tamanha a lindeza e a harmonia perfeitas de “Take Me In Your Arms”, que tem vocais de apoio clássicos, metais perfeitos e um clima de sol de domingo. Importante ver como Hollie consegue alternar essa doçura com momentos mais melancólicos, exemplo de “Crying Wolf”, que, além de ter um tom mais contemplativo, mostra a perfeição melodica que ela consegue escrever e a competência de sua banda, composta por feras. E, em seguida, volta essa belezura à beira-mar, com “River Runs Deep”, que tem o mesmo tom de “Waiting In Vain”, de Bob Marley, safra 1977.
O álbum encerra com a dupla “Hello Operator”, cheia de bons momentos vocais e da bateria, que é bem criativa e a ótima “We Share Love”, uma releitura soul de Skip Mahoney & The Casuals, gravada em 1974. Hollie mostra conhecimento de causa e faz uma escolha que sublinha suas raízes vintage e a intenção de honrar a tradição do próprio lovers rock, que sempre se nutriu da intersecção entre o soul americano e a batida jamaicana. É um fechamento ideal, diria eu. “Shy Girl” é um trabalho de refinamento. É um disco para quem valoriza a música que sabe ser ao mesmo tempo relaxante e atenta aos detalhes, com arranjos bem feitos e uma artista que, assumindo sua vulnerabilidade, alcança um patamar de confiança em sua própria arte. É, sem dúvidas, um dos grandes lançamentos do ano. Aqui levou nota máxima. De novo. Veja nossa resenha do trabalho anterior de Hollie aqui.
Ouça primeiro: tudo, mas capriche quando der de cara com “River Runs Deep”, “Shy Girl”, “Take Me In Your Arms” e “We Share Love”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
