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Novo disco de BUHR é uma pororoca de poesia

 

 

 

 

BUHR – Feixe de Fogo
34′, 11 faixas
(Sound Department)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

É bom que se diga: “Feixe de Fogo”, novo álbum de BUHR, traz uma das melhores canções que ouço em muito, muito tempo: “Ânsia”. É a mistura perfeita de rock, poesia, empoderamento, crônica de relacionamento, capacidade de soar relevante, agridoçura de sotaque maravilhoso, enfim, um prazer intenso de pouco mais de dois minutos e meio. Mas, claro, esta resenha não pretende falar apenas dessa canção, por mais que ela seja praticamente perfeita. “Feixe de Fogo” é um discaço, que marca a importância de BUHR no cenário da música nacional e a coloca como uma das principais forças criativas em atividade no país. Sua poesia cáustica contrasta com uma habilidade ímpar de ser arremessada sem escalas sobre melodias pop infecciosas. Foi assim com “Eu Menti Pra Você”, seu primeiro single, primeira faixa de seu primeiro álbum, que começava com o terrível verso: “Eu sou uma pessoa má // Eu menti pra você”, devidamente embalada num arranjo que lembrava uma fusão ideal de funk e pop brasileiros obscuros dos anos 1970. Daí pra frente vieram outras crônicas de relacionamento, questionamentos existenciais, ironias atiradas ao vento da vida à dois, enfim, várias demonstrações inequívocas de genialidade intuitiva e emocional.

 

Sete anos separam as engrenagens de “Desmanche” do calor de “Feixe de Fogo”. Agora sob a assinatura BUHR — uma síntese que reflete tanto o despojamento de rótulos quanto a afirmação de uma identidade não binária —, o novo trabalho é um inventário sonoro de quem entende o Brasil como uma estrada esburacada, mas necessária. O disco não pede licença; ele se impõe através de uma arquitetura que ignora as fronteiras entre o rock, o reggae e o ruído eletrônico. Guitarras de Arto Lindsay, Edgard Scandurra e Fernando Catatau não estão ali para o adorno, mas para o embate com sintetizadores e uma percussão que, orgânica ou digital, mantém o tambor como o coração pulsante da composição. É um álbum gestado no trânsito, costurado ao longo de dois anos entre Fortaleza, Salvador, São Paulo e Recife, carregando o sotaque e a poeira de cada parada.

 

A métrica de BUHR continua sendo um desafio ao óbvio. Há uma estranheza inerente que, paradoxalmente, sabe habitar o universo pop com uma propriedade rara. É o domínio da oralidade transformado em canção, onde enredos de tensão e ferocidade são entregues em melodias que beiram a doçura, criando aquele curto-circuito sensorial que já é marca registrada de sua trajetória. Produzido em parceria com Rami Freitas, o repertório de onze faixas autorais mergulha no asfalto das cidades. As letras são pequenas crônicas de angústias coletivas e individuais — dramas de quem anda, sofre e sobrevive no cotidiano brasileiro. Destaque para “Desmotivacional”, parceria com Russo Passapusso que sintetiza esse espírito, além das presenças de Josyara, Negadeza e Moon Kenzo.

 

Algumas das canções presentes aqui são extremamente belas. E de diferentes formas. “Anzol”, uma não-balada rock, tem letra que mostra autonomia e dignidade diante do caos total do esfaçelamento do sentimento e da necessidade de seguir em frente. O andamento de guitarras é bem-vindo e dá uma urgência necessária. “70 Cigarros” é uma das mais tristes crônicas do fim de um relacionamento, do pasmo total diante do que não-aconteceu, da falta de aviso prévio do fim, de como fazer para entender o mundo a sós a partir dali, sem qualquer preparo. O verso “Os ímãs da geladeira estão sabendo // Mas nada me dizem” dá conta dessa triste sinfonia das pequenas coisas. “Chão Frio” é outra pequena e singela reflexão sobre como a vida vai nos obrigando a testemunhar novas emoções e situações, sem que, necessariamente, queiramos. “Ânsia”, a gente já falou, é um pequeno tratado da perfeição letra/música, enquanto “Seilasse” é outro momento suspenso no ar, um réquiem surdo e cego pelo fim do amor, “O amor feito morto no meio da sala // Velamos o que fomos um dia // O amor implorando calando tua fala”. Em comum, o parvo total diante do novo pós-amor. “Oxê” tem ritmos e levadas mais vinculadas à tradição de BUHR na percussão, algo que esbanja graça mas não deixa de lado o empoderamento pessoal. “Eu gostaria de um machado branco e vermelho // Pro seu dedo não me apontar”. E tem “Motor da Agonia”, um quase-afoxé guitarrístico, com frases como “Meu coração é um motor de agonia // Destila e ronca saudade”.

 

“Feixe de Fogo” é um disco fascinante. É BUHR ocupando e exigindo seu espaço como um campo de batalha político e estético. E, de quebra, lançando um dos álbuns mais legais do ano. Desde já.

 

Ouça primeiro: “Anzol”, “70 Cigarros”, “Ânsia”, “Seilasse”, “Oxê”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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