Nos dividir para nos mandar
Certamente você já ouviu falar na velha e ardilosa tática do “divide et impera” (o bom e velho “dividir para conquistar”). Ela não surgiu do nada. Também não foi uma ideia genial, dentre as muitas formuladas pelo filósofo florentino Maquiavel. Essa doutrina político-militar surgiu bem antes, nos tempos do Império Romano, quando vieram as questões espinhosas decorrentes de seu expansionismo militar no mundo antigo. A República e o Império perceberam logo que peitar inimigos unidos saía caro demais e exigia um esforço desproporcional, colocando em risco as campanhas militares. A solução? Uma diplomacia seletiva e, quase sempre, mal intencionada. Favorecer alguns, prejudicar outros, ajudar aqueles, onerar estes. Um exemplo clássico dessa engenharia foi o tratamento dado a Túsculo: ao ser uma das primeiras cidades-estado latinas a ser subjugada, ela recebeu de presente a cidadania romana, sendo abrangida pelo Império e desfrutando de todas as benesses disso. Ao contrário de Cápua, de origem grega-etrusca, ao sul da Península Italiana, que foi destruída na Segunda Guerra Púnica, cerca de 180 anos depois, por volta do ano 211 a.C. Na prática, essa postura romana rachou a solidariedade dos vizinhos, separou os aliados e cortou pela raiz qualquer tentativa de uma frente unificada contra o Império.
Com o passar dos séculos, essa cartilha foi herdada, polida e aplicada em escala industrial pelas potências modernas que redesenharam o mapa do globo. No século XX, coroando seu imperialismo do século anterior, o Império Britânico elevou essa manipulação social a novo patamar em suas colônias, tendo como marco mais doloroso a trágica cisão entre Índia e Paquistão em 1947, que turbinou fraturas religiosas para garantir o controle. O resultado, dois países fortes, mas que seriam muito mais poderosos se estivessem unidos. Até hoje, quando menos se espera, um conflito entre os dois lados irrompe, sempre com perdas humanas extensas. Esse conflito também pode ser inserido dentro da lógica da chegada da Guerra Fria, na qual União Soviética e Estados Unidos atualizaram o método: apostaram na fragmentação de blocos rivais, no crescimento de polarizações internas e numa diplomacia de bastidores para asfixiar competidores sem precisar sujar as mãos – e gastar dinheiro – com ocupações militares diretas.
O detalhe é que essa engrenagem segue a todo vapor nos dias de hoje, turbinada pela chamada “Doutrina Donroe” — a releitura contemporânea e agressiva que donald trump deu à tradicional Doutrina Monroe (nascida em 1823), que significava, na prática, o imperialismo americano. “A América para os americanos”, com um acréscimo que meu professor de História Geral do Colégio Santo Agostinho, Robertão, gostava de fazer: “do Norte”. Sob essa ótica de que o Hemisfério Ocidental é quintal de exploração exclusiva de Washington, a política externa americana passou a mesclar táticas de pressão corporativa e força militar para conter avanço de potências rivais como a China e implodir qualquer perspectiva de integração regional.
Na América Latina, essa tutela se traduz em um esforço contínuo para semear cizânias e rivalidades sistêmicas, seja apoiando candidaturas de extrema direita, seja colocando em dúvida processos eleitorais, seja aplicando tarifas comerciais. O tabuleiro regional é cheio de exemplos dessa política de incentivo a atritos: o histórico de crises diplomáticas entre Equador e Colômbia, o cordão sanitário e o isolamento imposto coletivamente a governos como o da Venezuela e de Cuba, e, de forma ainda mais escancarada, os abalos diplomáticos na relação entre Argentina e Brasil, encampados pela imprensa local, incapaz de distinguir essas iscas noticiosas da informação real. Essa cartilha de interferência ideológica encontrou um ambiente pra lá de confortável na participação do presidente argentino javier milei na convenção do PL, um movimento calculado para inflamar setores da ultradireita brasileira, gerar mal-estar diplomático na região e escancarar como forças externas continuam usando peões locais para desestabilizar o tabuleiro sul-americano por dentro.
Em discurso inflamado, milei ofendeu o presidente Lula e as instituições brasileiras, chamando ministros do STF de “lixo” e questionando a validade dos processos de apuração judiciária em curso, especialmente os do banco master, no qual o candidato apoiado por ele, flavio bolsonaro, aparece implicado em vários momentos. É possível tolerar democraticamente as divergências políticas, mesmo quando elas são da natureza que alimenta essa gente, mas a ofensa de milei gerou resposta diplomática imediata no Brasil. O embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Glinternick Bitelli, foi chamado a Brasília “para consulta”. Esse movimento acena para uma crise diplomática sem precedentes na relação entre os dois países, desde 1823, quando a Argentina foi a primeira a reconhecer nossa independência. Antes disso, na mídia, o ódio aos hermanos já fora disseminado por notícias dando conta de racismo e truculência de torcedores argentinos na Copa do Mundo, dando a entender que esta conduta é comum a todo o povo do país vizinho. Axel Kicilloff, governador da provincia de Buenos Aires, já telefonou para o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, dizendo que milei é presidente de seu país, mas não representa a opinião dos argentinos.
Enquanto se discute a ofensa de um avoado, mas que é o presidente da Argentina, o Brasil ruma para as eleições presidenciais mais importantes de sua história. Se a ultradireita vencer, completará o tabuleiro de apoio irrestrito a trump na América do Sul. Estão em jogo direitos trabalhistas, conquistas sociais, democracia e várias questões que serão praticamente irrecuperáveis sob um governo bolsonarista novamente eleito pelo povo, devidamente insuflado por este aparato midiático e pela desinformação reinante. Enquanto isso, na Casa Branca, trump brinca com o mapa, olhando em nossa direção. Dividir para conquistar. Ainda é isso.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
