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Os 25 anos de “Bloco do Eu Sozinho”

 

 

Posso assegurar que “Bloco do Eu Sozinho”, lançado pelos Los Hermanos em 23 de julho de 2001, é uma obra prima da música brasileira. Você pode, claro, discordar, não gostar da banda, não gostar dos fãs devotados, pode tudo. Isso não mudará o fato de que as faixas do álbum, produzido por Chico Neves, significam um salto quântico estético e lírico em relação a tudo que era feito por aqui naquele início de milênio. Em relação ao que os próprios Hermanos haviam lançado dois anos antes, com seu primeiro disco. Afinal de contas, o que eles propunham era uma mistura de rock alternativo americano, no sentido Weezer do termo, com ritmos jamaicanos, especialmente o ska, pitadas de hardcore herdadas do primeiro trabalho, sambinha (veja, não é samba, no sentido estrito do termo) de branco, marchinhas e mais uma série de esquisitices – metais, cordas, percussões circenses – enfiadas ao longo dos quase cinquenta minutos de duração. Além disso, havia um conceito implícito – o uso de símbolos do Carnaval, também herdados do primeiro disco, muito mais próximos de uma postura reflexiva, existencial até, o contrário da celebração pura e simples da folia. Era algo como alguém triste, vestido de palhaço, no meio do salão que é a vida, enquanto insistem em jogar confete e serpentina até o quase sufocar. Nesse meio tempo, seu amor, vestido de colombina, odalisca, arlequim, passa desfilando com outro/a bem diante do seu nariz. É mais ou menos isso.

 

É muito bonito hoje, 25 anos depois, enalter a existência do álbum. Na época, porém, seu parto foi bem difícil. A banda perderia o baixista Patrick Laplan durante a composição e início das gravações por conta de divergências artísticas. Para seu lugar, Kassin (então no mitológico Acaboou La Tequila) foi chamado e provou ser uma adição importantíssima em termos de ideias e conceitos. O produtor Chico Neves, famoso por pilotar trabalhos de Lenine e Fernanda Abreu, também era uma indicação de Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Rodrigo Barba e Bruno Medina queriam algo diferente do primeiro trabalho, marcado então pelo estouro nacional de “Anna Julia”, hit incontestável em rádios e programas de TV na época. Os Hermanos negaram à época que o conceito do “Bloco” fosse para “jogar fora” o sucesso obtido com a balada, mas também confirmam que havia mais para mostrar além do romantismo puro e simples. A banda chegou a se isolar num sítio na região serrana do Rio, com a intenção de burilar arranjos e desenvolver ideias. O resultado foi um álbum totalmente estranho para seu tempo, mas com o germezinho da genialiadade. Como dizia o release, assinado por Alexandre Matias, “se o primeiro disco era início do baile, este é o seu fim, com as pessoas amarrotadas, suadas, usadas e sem par, como chegaram”. Faz todo o sentido.

 

E, como já dissemos, a gravadora Abril, detentora do passe dos Hermanos, esperando um novo trabalho que trouxesse uma procissão de annas julias prontas para o dial radiofônico, ficou de cabelos em pé quando ouviu o que a banda trouxera. Os executivos sugeriram regravação, repensar arranjos, remixagens, tudo veemente negado pelo grupo e pelo produtor Chico Neves. No fim, aceitaram a nova mixagem a ser feita por Marcelo Sussekind, mas nada em “Bloco do Eu Sozinho” saiu diferente do que o quarteto pensara e fizera. E há um detalhe interessante nisso tudo. Essa autenticidade de “Bloco” significou uma espécie de vitória do underground carioca de bandas da época. Muito mais que o sucesso de “Anna Julia”, justo porque os Hermanos eram pessoas muito queridas e admiradas nesse universo subterrâneo, batalhando há tempos por essa receita nada óbvia de rock alternativo e carnaval de Zona Sul, de pilotis da PUC. Funcionava, a gente sabia. Na Rock Press, onde eu escrevia e na qual Marcelo Camelo também assinava uma coluna, o grupo era conhecido e a gente se perguntava o que faltava para seu sucesso. Quando veio o primeiro álbum, nos olhamos e pensamos, após “Anna Julia”, que os próximos hits seriam “Azedume”, “Aline” ou outras faixas mais, digamos, representativas daquela batalha. Mas não, veio “Primavera”, uma outra balada, com ares de “anos dourados”. Com “Bloco”, a gente meio que se sentiu vingado.

 

O temor da Abril era por conta da aparente incapacidade das faixas do álbum serem palatáveis para o rádio. Bem, para um “disco difícil”, até que não dá pra reclamar. Se não houve alguma “Anna Julia” entre as quatorze canções, “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, “A Flor” e, sobretudo, “Sentimental”, se tornaram hits, de um jeito todo próprio. As duas primeiras e “Fingi na Hora Rir”, outra bela canção do disco, ganharam clipes, sendo que, o desta, um dos preferidos dos fãs, foi dirigido e editado por Caito Manier, diretor e criador de programas geniais como “Larica Total”, “Choque de Cultura” e “Falha de Cobertura”. Amigo de longa data da banda, Caito usou imagens da festa de 15 anos de sua irmã para ilustrar a música. Em 2003, ele dirigiria o documentário “Além do Que Se Vê”, sobre as gravações do álbum seguinte, “Ventura”. Talvez não por acaso, o tema de abertura do Larica Total seja assinado por Rodrigo Amarante. O fato é que, além deste sentimento de autenticidade, as canções de “Bloco” eram muito superiores ao que fora feito pela banda até então. Ainda que haja composições antigas entre as quatorze faixas gravadas para o segundo disco, esta tal maturidade artística dos arranjos e a disposição em peitar a gravadora em nome do que queriam fazer, realmente fez a diferença.

 

Há momentos realmente impressionantes. O trombone choroso que anuncia a melodia de “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, espécie de síntese do espírito que paira sobre o álbum é engolfado pelos outros instrumentos sem, no entanto, nunca sumir. Em “A Flor”, a cruza entre os metais e o andamento guitarreiro, suporta os versos chorosos e líricos. Em “Retrato Pra Iaia”, o ritmo de ska ensolarado acena para o passado e a letra passeia por algo meio Henri Salvador de lirismo triste á beira-mar de versos como “Se eu peco é na vontade // De ter um amor de verdade”. Minha preferida pessoal, “Casa Pré-Fabricada”, é uma pequena pérola num diadema. A letra é linda, “Abre os teus armários // Que eu estou a te esperar // Para ver o sol deitar sobre os teus braços // Castos”, e surge sobre uma base que é puro Weezer em seu modo lento, com uma passagem estranha, que lembra alguma faixa perdida de “Clube da Esquina” em algum momento. Tem a brincadeira de outros tempos com a letra de “Cadê Teu Suin?”, tem a impressionante barra pesada de “Sentimental” com a abertura em câmera lenta e os versos “O quanto eu te falei // Que isso vai mudar // Motivo eu nunca dei”. As guitarrinhas e o sintetizador que introduzem a melodia de “Fingi Na Hora Rir” e, principalmente, a coda de “Adeus Você”, fechando o disco, engolfando a tudo e todos, “Adeus você // Eu hoje vou pro lado de lá”.

 

Lembro de viver uma fase especialmente ruim da vida naquele ano de 2001. Morando longe, trabalhando infeliz, num relacionamento infrutífero. Em meio a essa paisagem desolada, as canções do “Bloco” vieram para fazer sentido naquele momento. Não por acaso, tristes e noturnas, elas justificavam muito do que havia por aqui. Este álbum e o sucessor, “Ventura”, foram os dois últimos trabalhos de uma banda brasileira que me soaram realmente inovadores e instigantes. Claro, houve muitos discos bons lançados após estes, mas nenhum com a sensação de “caramba, isso é novo. E bom”. Como dissemos lá em cima, a postura dos Hermanos, blasés para quem não os conhece, pode espantar, mas, enquanto estiveram na ativa, gravando ou fazendo shows, foram os maiores de seu tempo. Não tem pra ninguém.

 

 

Para dar um pouco mais de contexto ao que “Bloco” significou na época de seu lançamento, pego emprestado, com os devidos créditos, o faixa a faixa que Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante fizeram para o querido Scream & Yell, do grande Marcelo Costa, no texto publicado em 12 de setembro de 2001. Você pode conferi-lo integralmente aqui.

 

TODO CARNAVAL TEM SEU FIM

Camelo: A letra é muito bacana. É uma mensagem de todo o disco. Acho que o refrão desse disco é o cerne de tudo: “Deixa eu brincar de ser feliz / deixa eu pintar o meu nariz”. Resume todo o disco essa frase. Tem muito do nosso romantismo aqui.

 

A FLOR

Camelo: Foi a segunda música que eu fiz em parceria com o Rodrigo (Amarante). Foi feita em 1999, quando estávamos em Recife para o Abril Pro Rock. É uma das músicas que o público gosta bastante, já vínhamos tocando ela nos shows.

 

RETRATO PARA IAIÁ

Amarante: Essa música é sobre encontrar um amor de verdade. É triste, mas fala de um amor futuro.

 

ASSIM SERÁ

Camelo: É uma das músicas que tem uma harmonia muito boa, com um arranjo de metais maravilhoso. Tem um estilo que eu aprendi, que é tocar o samba em um andamento diferente, lento, com dois pandeiros em estéreo. Tem uma letra bem triste, mas esperançosa mesmo assim.

 

CASA PRÉ-FABRICADA

Camelo: Talvez seja a música do disco com mais influência de Weezer. Tem a guitarra pesada, ritmo rachado e um teclado moog.

 

CADÊ TEU SUIN-?

Camelo: É uma crítica à indústria musical em um todo. Pela primeira vez nós fizemos um dixieland de branco, meio quadrado, mas com um pouco de swingue. Tem uma letra muito boa, a que eu mais gosto.

 

SENTIMENTAL

Amarante: É uma música pesada, seja na letra como na melodia. Fala sobre se afastar, perder, sobre uma pessoa que você ama muito te deixar.

 

CHER ANTOINE

Amarante: É um tanto trágica. Traz uma letra em francês triste. Mas é um ska de churrasco, descompromissado.

 

DEIXA ESTAR

Camelo: Acho que é música que mais se parece com o Los Hermanos do primeiro disco, tem um ska reto, quadrado. A letra é toda formada de trava-língua.

 

MAIS UMA CANÇÃO

Camelo: Tai uma letra que eu não gosto muito, mas acho ela bem espontânea. Ela bonita na sua banalidade. A ideia era gravar ao vivo. Mas tem um clarinete dobrado que é lindo. Acabou ficando simples e bonita

 

FINGI NA HORA RIR

Camelo: É uma canção antiga, que fiz quando fomos mixar o primeiro disco em Los Angeles. Foi uma das mais difíceis que gravamos. Ela muda o andamento no refrão, depois muda de novo. Só conseguimos achar um meio-termo dela quando entramos em estúdio.

 

VEJA BEM MEU BEM

Camelo: É outra que tem uma letra boa. Fala de uma relação de duas pessoas, onde uma pessoa fala que trocou o parceiro por outra, porque estava difícil sobreviver nos dias ruins. Basicamente é um samba. É um lamento também.

 

TÃO SOZINHO

Camelo: É a música mais antiga do Los Hermanos. Essa é da época de uma outra banda que eu tinha. Como é um hardcore pesado, ela destoa um pouco do resto do disco. Mas é legal para balancear.

 

ADEUS VOCÊ

Camelo: Essa letra eu fiz quando os pais da minha ex-namorada foram morar fora do país. Fala sobre a despedida de uma mãe para uma filha. Só que depois que terminei o namoro com ela, começou a fazer muito sentido para mim. Mostra que uma relação entre homem e mulher também se aproxima de uma relação mãe e filho. Tem uma orquestra barroca no final que é maravilhosa.

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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