Finalmente a tameimpalização do … Tame Impala

Tame Impala – Deadbeat
56′, 12 faixas
(Columbia)
(4 / 5)
“Deadbeat” é o quinto álbum do projeto australiano Tame Impala e consolida a metamorfose que começou há dez anos, com o lançamento do terceiro álbum, “Currents”: com ele a psicodelia guitarrística e lo-fi do cérebro e criador, Kevin Parker, foi, finalmente, engolida por seu alter ego de produtor pop, o cara que viria a assinar parcerias com Dua Lipa, Lady Gaga e The Weeknd. O título do disco é um achado: ‘pessoa preguiçosa’, ‘vagabundo’. É Parker assumindo a melancolia do dia a dia, a “deprê sem fim” de quem deveria ter a vida organizada, mas vive preso no loop de seus próprios – supostos – maus hábitos. Mas não se engane: o que faz “Deadbeat” ser grande (e ao mesmo tempo ser a crítica definitiva de que o Tame Impala se tameimpalizou) é a produção. Ela é limpa, detalhada, quase cirúrgica. Parker, o multi-instrumentista que faz tudo sozinho, trocou os ecos de John Lennon dos primórdios pelo falsete melancólico de Bee Gees em pleno 2025. E isso é um choque para quem achava que a música precisava ser suja para ser real.
A inspiração declarada? A Bush Doof, a cena rave australiana meio alternativa e de guerrilha que rola no interior do país. Parker buscou o espírito e a energia dessas festas para dar um toque mais visceral ao seu psicodelismo eletrônico. O resultado são faixas como “End of Summer” e a irresistível “Dracula”, que foram os carros-chefes do lançamento. A segunda, inclusive, (coescrita com Sarah Aarons) é o ponto em que a ambição pop de Parker atinge seu ápice. Uma batida quente e groovy, um baixo que carrega para a pista de dança e um refrão pensado para ser um hit inquestionável. É o Tame Impala fazendo psico-disco – ou algo no gênero – de forma irrevogável. É legal, é fácil, é dançante, mas sem qualquer traço daquele som do início dos anos 2010, que se tornou item de colecionador para os fãs de primeira hora. Em “Loser”, Parker se debruça sobre sua “depressão constante” e a autossabotagem. Liricamente, é o momento mais sincero do disco: o sujeito autodepreciativo, preso no loop de feedback negativo. O instrumental acompanha essa espiral com batidas eletrônicas hipnóticas, mas a produção tão clean faz a frustração soar, ironicamente, boa de se ouvir.
A grande questão de “Deadbeat” não é se ele é bom — é claro que tem faixas ótimas, com ganchos que grudam no ouvido. A questão é: ele é um salto transformador ou um passo lateral confortável? O disco, com faixas como “My Old Ways”, “Oblivion” e “Obsolete”, trata da rotina, do dia a dia, da beleza dos pequenos momentos aparentemente sem importância. Parker, o cara que antes cantava sobre a vastidão cósmica e a transformação pessoal, agora está preocupado com a previsão do tempo e o trânsito. Essa mudança de foco é, de certa forma, a tameimpalização em si: o som virou uma marca de excelência sonora, com texturas e efeitos vocais bem posicionados, mas perdeu a surpresa. O que era rock psicodélico virou pop de luxo. O que era experimentação virou fórmula patenteada. E talvez seja isso mesmo que o mercado pop exige em 2025: a estética vintage com a produção hi-fi do futuro. Parker se tornou um diretor criativo que vende coolzice com a tranquilidade de quem já provou que pode fazer rock barulhento, mas escolheu o caminho do pop elegante e limpo. A ausência de ruído e a superlimpeza da mixagem dão a impressão de que o disco talvez seja robótico demais, sanitizado demais.
“Deadbeat” é um disco que vai dominar as pistas de dança, as playlists de chillout e os grandes festivais. Não é a estreia de “Innerspeaker” (2010), e nem tem a ambição rock-eletrônica de “Lonerism” (2012). É apenas Parker vendendo o que ele tem de melhor em 2025: a sonoridade Tame Impala. Isso é ótimo, mas é a prova de que nada dura para sempre. O álbum exige que se preste atenção: a melancolia da rotina nunca soou tão dançante e tão super produzida. E, por fim, é um disco bacana. Confuso, né? Talvez seja até intencional por parte de Kevin Parker, vá saber.
Ouça primeiro: “Dracula”, “Loser”, “End Of Summer”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
