Morreu Afrika Bambaataa
A morte de Afrika Bambaataa nesta madrugada, aos 68 anos, confirmada pelo TMZ, encerra uma trajetória que há tempos já era marcada pelo isolamento. Vítima de um câncer, ele sai de cena distante dos holofotes que ajudou a criar no Bronx. A partida dele força o reconhecimento de um legado técnico imenso, mas que se tornou indissociável das graves questões de conduta que comprometeram sua reputação nos últimos anos.
Afrika Bambaataa foi o cara que entendeu que o hip hop precisava de uma estrutura sólida para sobreviver além das festas de quarteirão. Ao criar a Universal Zulu Nation, ele pegou a energia das ruas do Bronx e a transformou em um movimento organizado, substituindo o confronto físico pela disputa estética. Bambaataa não era apenas um DJ; ele agia como um pesquisador que via na música uma forma de organização social, unindo diferentes vertentes sob uma mesma bandeira rítmica e cultural.
O lançamento de “Planet Rock” mudou o curso da música pop ao mostrar que o futuro era eletrônico e negro. A sacada de pegar a base do Kraftwerk e injetar nela o peso do funk mudou tudo. Ali nasceu o electro-funk e, por tabela, abriu-se o caminho para o que viria a ser o techno e o house. Bambaataa provou que a tecnologia, representada pela bateria eletrônica Roland TR-808, era o novo instrumento fundamental da expressão urbana, permitindo que o gueto falasse a língua das máquinas de um jeito visceral.
O legado dele reside na capacidade de misturar o improvável sem perder a essência. Bambaataa enxergava conexões entre James Brown, o rock europeu e a música eletrônica japonesa, antecipando o conceito de curadoria global que define a música hoje. Ele estabeleceu que não existem fronteiras para o ritmo, transformando o hip hop em uma linguagem universal. Sem essa visão, a música contemporânea seria muito mais limitada e menos consciente de suas próprias raízes e possibilidades.
Dez faixas marcantes de Afrika Bambaataa
Planet Rock (1982): O marco zero do electro. A fusão da base de “Trans-Europe Express” do Kraftwerk com o balanço das ruas criou um som que ainda soa futurista.
Looking for the Perfect Beat (1983): Uma aula de produção. É mais complexa que “Planet Rock”, com camadas de sintetizadores e uma batida que define a busca incessante pela perfeição rítmica.
Renegades of Funk (1983): Um manifesto político e histórico que traça a linhagem do hip hop desde os guerreiros africanos até os b-boys modernos. Mais tarde, foi reinterpretada pelo Rage Against the Machine.
Unity (com James Brown) (1984): O encontro do “Padrinho do Soul” com o mestre do hip hop. Uma faixa fundamental que sela a paz entre gerações e reforça a importância da união.
World Destruction (Time Zone com John Lydon) (1984): Um cruzamento pioneiro entre o hip hop e o pós-punk. Lydon (dos Sex Pistols) e Bambaataa entregam um hino apocalíptico e contestador.
Funk You! (1985): Uma celebração direta do funk, mostrando que, além das inovações eletrônicas, Bambaataa nunca perdeu o contato com as raízes do groove.
Shango Message (Shango) (1984): Lançada sob o projeto Shango, essa faixa mergulha fundo no afrocentrismo e no funk pesado, com uma pegada mais percussiva e mística.
Death Mix (1983): Essencial para entender o lado DJ de Bambaataa. É uma gravação que captura a energia dos “live mixes” da época, mostrando o domínio da técnica de corte e colagem.
Agharta – The City of Shamballa (com Bill Laswell) (1988): Um mergulho no experimentalismo e no jazz fusion, demonstrando a versatilidade de Bambaataa em colaborar com músicos de vanguarda.
Afrika Shox (1999): Colaboração sensacional do duo inglês Leftfield com Bambaataa, no segundo álbum, “Rhythm And Stealth”. Uma cacetada sensacional.
E uma faixa-bônus bem querida do editor:
“Reckless” (1987): parceria inusitada do mestre com o grupo de reggae inglês UB40. Sucessinho radiofônico em seu tempo.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
