Billie Joe Armstrong – No Fun Mondays

 

 

Gênero: Rock

Duração: 40 min
Faixas: 14
Produção: Billie Joe Armstrong
Gravadora: Reprise

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

Alguns discos nascem destinados a serem privilégio de poucos. Geralmente são aqueles que não se preocupam com o viés mercadológico, investem na sinceridade pura e simples e, acabam fazendo a delícia destes poucos e bons ouvintes. Este é o caso de “No Fun Mondays”, álbum lançado pelo vocalista e guitarrista do Green Day, Billie Joel Armstrong. Trata-se de uma compilação de covers bacaninhas que ele foi enfileirando ao longo da quarentena e postando nas redes sociais e serviços de streaming. Depois de 14 faixas gravadas em casa, sozinho, Billie juntou tudo neste álbum e o postou inteiro, mostrando que, além da belezura da maioria das versões, seu trabalho tem um sentido e um conceito bem definidos. E funciona às mil maravilhas.

 

O grande lance num disco de covers é, acima de tudo, se apropriar das canções. Billie fez isso, conferindo sua pegada pop-punk-rock às faixas, imprimindo uma pegada aerodinâmica e arejada às versões. Além disso, as gravações dão a sensação de conjunto, de pertencerem todas ao mesmo contexto, no caso, um álbum. Não são um punhado de singles enfiados num lugar, sem se comunicar. As escolhas também são muito bem acertadas, confirmando essa noção de conjunto, de contexto, que a pegada sonora de arranjos e produção já havia mostrado. Billie gravou tudo e produziu, sendo que o “No Fun…” tem bela sonoridade roqueira simples e direta.

 

É uma sucessão de ótimas canções em eficientes e simpaticíssimas versões. E há aquele equilíbrio entre faixas conhecidas e outras não tanto. No campo das mais manjadas – e não menos adoráveis – estão, de cara, “Manic Monday”, composição de Prince que ficou famosa na voz das Bangles, sendo que Suzannah Hoffs em pessoa acompanha Billie na gravação. Também temos a ótima versão de “That Thing You Do”, tema do filme “The Wonders”, composta pelo sensacional Adam Schlesinger, tristemente falecido por conta da covid-19 em abril. Na verdade, o que Billie faz aqui é apresentar essas duas faixas para uma nova geração de fãs de rock que, claro, não têm a obrigação de conhecer essas músicas. No mesmo balaio também estão as ótimas “Gimme Some Truth”, de John Lennon e “Kids In America”, de Kim Wilde, ambas transformadas em eficientes e chicletudos cavalos de batalhas greendaynianos.

 

Mas há detalhes interessantes por aqui também. “I Think We’re Alone Now”, gravada nos anos 1960 pelo grupo Tommy James And The Shondells, na verdade, tornou-se sucesso pop nas mãos da cantorinha adolescente Tiffany, em pleno anos 1980. Tem a versão da versão que o Clash fez para “Police On My Back”, originalmente dos The Equals. Também tem a solidão adolescente de Johnny Thunders em “You Can’t Wrap Your Arms Around A Memory” e a reflexão pós-adolescente de Billy Bragg em sua cortante “A New England”, que fecha o álbum com uma pegada ramonesca de primeira categoria.

 

“No Fun Mondays” é, acima de tudo, divertido e sincero. Uma bela compilação de canções como se elas viessem numa fita cassete, que damos pra quem gostamos. A diferença é que, além de escolher o repertório, Billie Joe o interpretou e deus aos fãs. Uma lindeza.

 

Ouça primeiro: “A New England”

 

+1

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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