Entrevista Borealis

 

Conheço Marco Antônio “Bart” Barbosa desde meados dos anos 1990, quando escrevemos juntos na revista Rock Press. Ele sempre foi um cara extremamente talentoso, dono de um texto afiado, bem informado e crítico. Fã de rock alternativo americano, de indie rock inglês, especialmente Smiths e New Order, Bart tem um projeto musical de “eletrônica ruidosa” desde 2014, o Borealis. Seu último lançamento é o interessantíssimo “Siemens Dream”, um álbum conceitual sobre uma Alemanha que nunca chegou a existir completamente, misturando música, história e convicções.  E aí, gente, quando junta esse tipo de influência, além de ser feito por um colega querido, a gente não pode deixar passar a oportunidade de bater um papo com o sujeito.

 

“Siemens Dream” está sendo lançado por outro amigo, o Marcelo Costa, através do Scream & Yell e já dá ver clipe no Youtube e ouvir/baixar no Bandcamp. Todos os links estão lá embaixo, depois da entrevista.

 

 

 

– “Siemens Dream” deve ser o melhor título de disco deste ano. Conta pra gente o que está  por trás disso.

Eu sou muito ligado em trocadilhos, eu adoro esse tipo de humor. O título é uma referência dupla, à Siemens, gigante da tecnologia alemã e ao disco do Smashing Pumpkins, o “Siamese Dream”. É um trocadilho meio ruim porque só funciona escrito e você tem que ter uma certa idade pra entender. Mas ficou uma brincadeira interessante pra resumir o espírito do disco, que é um passei pela Alemanha meio imagina, meio sonhada, meio real.

 

 

– O Borealis é o teu projeto de música eletrônica “ruidosa”. Os primeiros lançamentos eram bem mais experimentais, agora, com o novo trabalho, parece vir uma música um pouco mais “fácil” É isso ou é só impressão?

 

Eu não sei se “mais fácil” seria exatamente o termo. Nas duas primeiras músicas de trabalho, “Tele-Funk-Em” e “Nichtclubbing”, eu tentei fazer músicas mais dançantes, inspiradas pelo electrofunk, inspíradas pelas coisas mais dançantes do Kraftwerk, dos anos 1980, 1970. Nas demais faixas tem mais desse lado que você classifica como “experimental”. Nos primeiros discos, especialmente no primeiro, eu estava experimentando tanto artisticamente quanto tecnologicamente. Estava aprendendo a mexer nos programas, nas possibilidades. Eu usava ideias bem simples pra testar os sons e ver aonde aquilo ia me levar. No segundo disco, o “Post Sollis”, de 2016, a ideia ainda é um pouco essa, mas já tem algumas diferenças. E no terceiro, o “Omnia”, de 2019, aí sim, eu tento fazer composições mais pensadas e estruturadas, invertendo o processo: as músicas nascem primeiro e depois eu vou aplicando timbres e programações que mais se encaixam.

 

 

– Você é um admirador da cena de Manchester dos anos 1980/90. Como você vê a apropriação que essa galera fez da música eletrônica alemã? É o teu caminho também?

Sim, eu vejo uma conexão, sim. Especialmente pelo lado do New Order, que simboliza essa apropriação que o rock inglês fez dos sons eletrônicos do Kraftwerk. Mas também é uma coisa pessoal minha. Ao mesmo tempo que eu sempre curti os sons da Inglaterra, o indie, o alternativo, eu também sempre gostei de música eletrônica. Eu já ouvia Kraftwerk quando era adolescente e depois passei a conhecer algumas coisas de vanguarda, de krautrock, de eletrônica. Isso sempre esteve presente em mim, mas concordo que haja uma conexão com o New Order em especial.

 

 

– O release do álbum fala em “viagem por uma Alemanha imaginada” em termos sonoros. O que essa sonoridade imaginada teria de diferente em relação ao que tivemos com bandas como Kraftwerk, Can, Tangerine Dream…

Tem uma série de imagens que vêm na cultura popular que surgem quando você fala de Alemanha, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial. Muro de Berlim, Guerra Fria, espionagem, tecnologia, carros, autobahns, são clichês, são verdadeiros. Essas coisas se cristalizaram na minha cabeça quando eu passei um tempo na Alemanha. Estive umas semanas em Berlim em 2017 e eu consegui viver a cidade de uma maneira muito intensa. Conheci os monumentos, os museus, mas também saí bastante à noite, conheci clubes, a vida noturna da cidade. Tudo isso junto foi criando um conceito na minha cabeça, que batia com a influência do krautrock que eu sempre tive. Daí vem essa coisa de ser um “álbum conceitual”. Tem uma música dedicada à tecnologia (“Tele-Funk-Em”), tem outra dedicada às autobahns (“New!”), um krautrock mais ortodoxo…tem a citação ao Muro de Berlim, com um sample do discurso do John Kennedy em Berlim Ocidental. E tem “Traum”, que foi a última música que eu fiz pro disco, que tenta resumir essa sonoridade: tem o sintizador analógico, tem o motorik, tem o drone, tem as guitarras distorcidas…

 

 

– Não é raro ver um jornalista que escreve sobre música sentir vontade de fazer música. Conta como isso começou na tua vida.

Pra mim as coisas andaram meio paralelas. Quando eu resolvi que iria escrever sobre música, eu também comecei a aprender a tocar violão. Nunca tive aulas formais de música, mas sempre tive um violão em casa, uma guitarra. Também toco baixo, toco teclado…Tive umas bandas dos anos 1980 pra cá, mais como brincadeira, mas nunca tive a pretensão de gravar ou levar algo adiante. Quando eu comecei a descobrir as possibilidades de fazer música por computador, ainda nos anos 1990, eu vi que podia, por conta própria, testar algumas ideias em casa e ir amadurecendo. Foi um caminho que começou na segunda metade dos anos 1990 e vieram evoluindo. Com a evolução dos softwares, ficou mais possível. Essa ideia musical foi evoluindo junto com essa modernização dos programas e dos computadores, até que, em 2014, eu pensei: “agora eu vou botar essas coisas pra frente”. Daí começou o Borealis.

 

– O Borealis é paixão ou ocupação?

É uma paixão que me ocupa. Eu não tenho muita pretensão de fazer sucesso ou ganhar dinheiro com o Borealis. Eu sei que é um som que não se presta às paradas de sucesso, eu tenho plena consciência disso. Mas eu fico feliz de poder dedicar o máximo de tempo possível ao projeto e tenho me esforçado cada vez mais para que as pessoas ouçam, conheçam e se divirtam também.

 

 

– Dá pra escrever sobre música sem mencionar o caos político e social que vivemos no país e no mundo?

Eu acho que dá, sim. No meu caso, óbvio, por ser um projeto instrumental, as possibilidades são mais limitadas. Mas eu entendo que dá, sim. Eu tenho visto que há uma série de artistas brasileiros que estão pautando seus trabalhos com viés político-social muito forte. As pessoas estão dizendo coisas muito legais sobre raça, sobre pobreza, preconceito, enfim…é um caminho muito interessante e que fazia falta pra gente. No meu caso – e no de tantos outros artistas – eu não vejo uma obrigação de inserir estes temas na produção musical, é algo realmente livre. Se o cara entende que precisa colocar aquilo pra fora. No meu caso, eu me expresso escrevendo, publicando no meu blog, mas na música eu ainda não achei um caminho pra falar sobre isso. Mas não descarto.

 

 

– Você gravou um clipe como um “Robot” kraftwerkiano. Sensacional.

Eu fiz uma sessão de fotos fantasiado como as figuras do “Man-Machine”, do Kraftwerk. Eu nunca tinha feito, foi a primeira vez que eu fiz fotos pra divulgação do Borealis e pensei que deveria usar uma roupa icônica, que as pessoas reconhecessem de longe, é praticamente um avatar. Você vê a camisa vermelha e a gravata preta e você reconhece logo. Teve gente que pensou que fosse uma referência ao Devo. Eu mesmo vou usar essa sessão de fotos num clipe, mas é uma brincadeira, né? Ajudou a projetar a imagem do Borealis por aí.

 

Ouça e baixe gratuitamente aqui

 

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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