DestaquinhoMúsicaResenhas

Gustavo Seabra é “Velha” em primeiro disco solo

 

 

 

Velha – Velha
45′, 8 faixas
(midsummer madness)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

“Oh, Mandy // O que sobrou de mim // Um carinho, um recado, um começo, um fim”. Esse é Gustavo Seabra, vocalista e um dos guitarristas da PELVs, veterana e venerável banda carioca de guitar rock. Com o nome de “Velha”, Gustavo estreia solo com um disco de mesmo nome, com oito faixas enguitarradas, mais ou menos próximas do som que sempre fez com a banda, mas indo delicadamente além em vários momentos. O canto em português é a grande novidade para Velha, que é do tempo em que se discutia o idioma que uma banda de rock brasileira deveria escolher. São mais de trinta anos de presença no cenário alternativo carioca e isso não é pouco. Gustavo viu cenas e bandas irem e virem e, bem ou mal, permanecer é sinal inequívoco de vitória. Este álbum solo é uma pérola de sutileza e introspecção, típico trabalho que maturou por bastante tempo (cerca de vinte anos) e consegue soar sentimental sem ser nostálgico. Também é interessante apresentar uma sonoridade tipicamente carioca e praiana que passa a milhas de distância de signos manjados e clichezentos da Cidade Maravilhosa. Essa lembrança está no texto que apresenta o disco, postado no brioso midsummer madness, o selo-zine-instituição de Rodrigo Lariú, responsável por boa parte dessa cena guitarrística formada no eixo Rio-Niterói nos anos 1990-2000. O mmrecords é quem lança “Velha”.

 

Quando a gente fala de sentimento e nostalgia é porque estamos falando como discretos participantes dessa cena. Eu, que completo trinta anos de jornalismo musical em 2026, comecei na querida revista Rock Press, uma publicação que garantiu espaço para todas as bandas e responsáveis por esta cena alternativa. Os dois primeiros álbuns da PELVs, “Peter Greenaway’s Surf” e “Members To Sunna”, além de trabalhos de outras bandas como Second Come, Stellar e Cigarretes eram figurinhas fáceis na redação da revista e toda essa sonoridade é muito familiar e querida para este que vos escreve ainda hoje. E ouvir as canções que Velha/Gustavo lança em seu álbum solo é meio que visitar aqueles tempos com a segurança da consciência de que eles passaram, sem qualquer vontade de voltar, mas com um sorriso de carinho no rosto. É uma não-nostalgia, se é que me faço entender. E Gustavo se encarregou de conservar os elementos-chave de sua sonoridade, como, por exemplo, as influências de Yo La Tengo, Lemonheads, Pavement, além da própria sonoridade da PELVS em sua fase “Península” (o terceiro disco, de 2001), mas agora se permitindo cantar em português, o que faz uma diferença considerável e só joga a favor das oito composições do álbum.

 

Com fama de meticuloso e aficionado por trabalho de estúdio (entre eles, o seu home studio), Gustavo burilou e aparou arestas de suas composições por, literalmente, décadas. Também chamou vários colaboradores para dar mais lastro ao álbum, conseguindo ampliar ainda mais suas possibilidades, sem nunca perder sua identidade. Alguns momentos de “Velha”, o álbum, são próximos do sublime. “Mandy”, cujos versos abrem esse texto, é minha preferida emocional destacada. Primeiro porque, mesmo depois de tanto tempo, ainda sou atingido em cheio por essas histórias de amor que ficam no ar, sem resposta, sem clareza, mas que jamais nos deixam. Nem sei se essa é a origem da canção e de sua letra, mas me apropriei dela por este caminho e música é isso, passa a ser de quem ouve. Na faixa, que foi coescrita por Marcelo Colares, a bateria é tocada por Ricardo Mito, baterista da PELVS. “Arpoador”, com mais de oito minutos de duração, é uma meditação em frente ao mar, numa praia cinzenta e/ou noturna, sem o sol para nos distrair do que realmente importa. Esta é outra parceria com Colares, que também assina “Every Single Time”, essa com mais de nove minutos.

 

Velha reúne Rogério Skylab, que assina uma impressionante letra em “Não tem Mais Ninguém”, com versos como “E hoje você sabe // Não tem mais ninguém // Nem pra dizer goodbye, so long”, com um arranjo que leva a canção para um final com influência de Lô Borges. Outra faixa maravilhosa é “Prédio”, dos tempos da Verve, primeira banda de Gustavo, que abre o álbum e traz os vocais de Laura Wrona, outra faixa que deságua num mar de vocais harmônicos, falando sobre futuro, passado e um monte de lembranças de vários tempos. “Lâminas”, com letra de Ricardo Sardinha, tem mais pinta de Yo La Tengo, com guitarras mais fortes e um andamento quebrado que dá uma cor especial à canção. Já em “Aguarrás”, outra com Laura Wrona nos vocais, Gustavo parte de uma melodia quase infantil para notas tristes num piano, enquanto a voz dela voa alto pela melodia. “Saudades de Ti” é canção sombria, dilacerada, de ausência tão presente que chega a doer, justo por não ter solução. E tem a já mencionada “Every Single Time”, enorme, sem pressa para acabar, soando como se a PELVs tivesse gravado um disco novo e em português. Quem sabe? Na capa, o trabalho da saudosa Beatriz Lamego e Sol Moras.

 

“Velha” é uma declaração de permanência. Contra apostas, contra prognósticos, contra as probabilidades. É disco para se guardar e ouvir com saudade de tudo. E de todos. Sem deixar de sorrir.

 

Ouça primeiro: o disco inteiro.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *