Smashing Pumpkins – Cyr

 

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 72 min.
Faixas: 20
Produção: Billy Corgan
Gravadora: Sumerian Music

3 out of 5 stars (3 / 5)

 

Aqui está o décimo-primeiro álbum dos Smashing Pumpkins, “Cyr”. Ao todo são 72 minutos, 20 músicas e o primeiro disco duplo que Billy Corgan produz, compõe, toca e lança desde o querido “Mellon Collie And Infinite Sadness”, que completou 25 anos dia desses. Ao contrário deste álbum, “Cyr” é mais conciso e enxuto, ainda que padeça do mal que acomete a maioria dos discos duplos: poderia ser simples e, caso o fosse, seria bem melhor. A ladainha sonora que Corgan e seus amigos – James Iha e Jimmy Chamberlin, ambos fundadores da banda, ao lado do próprio Billy, e James Schroeder – colocam em prática é a versão pumpkiniana do pós-punk meio eletrônio, meio guitarrístico lá dos anos 1980, numa abordagem estética que comporta tanto Sisters Of Mercy quanto New Order e Siouxsie And The Banshees. Esta sempre foi uma das obsessões de Billy Corgan desde sempre e ele vem perseguindo esta fórmula sonora desde, pelo menos, os últimos dez anos. Porém é bom lembrar que os Pumpkins, mesmo em seu apogeu noventista, sempre tiveram este pé firme nesta sonoridade oitentista, basta lembrar o ótimo “Adore”, quatro disco da banda, lançado em 1998, que mergulhava fundo nessas águas turvas.

 

Para quem não sabe, Billy Corgan é um sujeito obcecado pela mitologia do rock. Faz álbuns complexos, usa e abusa dos conceitos, conta histórias com canções e com os próprios discos, enfileirando-os em trilogias e quadrilogias interligadas, dando mais e maiores significados para as obras. Este “Cyr”, por exemplo, é, de acordo com a mitologia corganiana, o segundo episódio de uma trilogia iniciada com o trabalho anterior, “Shiny And Oh So Bright, vol.1”, lançado em 2018. Se há algo em comum entre ele, além da semelhança visual das capas, é este mergulho mais desavergonhado na estética pós-punk/tecnopop oitentista, com objetivos de criar uma musicalidade própria em termos de Billy Corgan, o que significa dizer que as canções passam a ser imediatamente reconhecíveis, não só pela voz característica do sujeito, mas pelos timbres de teclados e guitarras, marcas principais desta sonoridade.

 

Aliás, isso não é totalmente preciso. Apesar de contar com três guitarristas, a encarnação atual dos Pumpkins não parece interessada em colocar o instrumento em alguma posição de protagonismo, pelo contrário. Os teclados tomam a frente e fazem o papel principal nos arranjos. Além dos fraseados meio góticos que surgem aqui e ali, as texturas de climas e timbres dão a tônica, ficando baixo, bateria e guitarras meio embaralhados na mixagem. Aliás, a produção – a cargo do próprio Billy – é um ponto fraco de “Cyr”, responsável por este tom lo-fi não-intencional, bem longe do estilo e do charme do improviso. O som é mal mixado, as faixas poderiam render muito mais em mãos mais habilitadas, deixando a impressão de que “Cyr” teria a cara de um compêndio de versões demo, mas está bem longe disso.

 

A julgar pelo número de versões em LP, CD e pelo abraço das mídias sociais da banda ao disco, “Cyr” é tratado como grande obra. Receio que ele não seja muito além de uma obra grande. Das 20 músicas, dá pra livrar a cara da metade, lembrando que elas poderiam, sempre, ser melhores. Destas dez que avançam para as oitavas-de-final, dá pra destacar a belezura de “The Colour Of Love”, um dos primeiros singles, que encarna muito bem essa proposta de gótico-oitentista abobresco que Corgan quer nos apresentar. Além dela, “Anno Satana” e “Birch Grove” têm atrativos acústicos, enquanto “Starrcraft”, “Haunted”, “The Hidden Sun” e “Minerva” são interessantes no contraponto eletrônico da coisa. Como curiosidade, “Cyr” contem a pior faixa já registrada por Corgan em quase 30 anos de Smashing Pumpkins: “Tyger, Tyger”, que soa como se a banda tentasse fazer um r&b eletrônico noventista e, para isso, pedisse ajuda ao Muse. É uma coisa inacreditavelmente ruim.

 

“Cyr” vai agradar aos fãs die-hard da banda e de Corgan. Gente que vai se debruçar sobre os significados, encontrar conexções, easter eggs, sentidos e tudo mais, digerindo com gosto as informações o Smashing Pumpkins traz aqui. Cá entre nós, por mais que seja chato e meio pedante, ter essa mitologia conceitual é um dos charmes que Billy dá ao seu trabalho. Ele acredita, os fãs mais dedicados também. E só eles.

Ouça primeiro: “The Colour Of Love”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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