Marina Lima: Onze gravações sensacionais

 

 

Marina Lima é uma das arquitetas do moderno pop nacional. Gente como Letrux e Mahmundi, só pra ficar na carreira de duas cantoras e compositoras cariocas, como ela, usam e abusam de seus ensinamentos na composição e execução de canções perfeitas. Com a parceria constante do irmão Antônio Cícero, Marina surgiu em 1980 e teve presença marcante nas paradas de sucesso até meados dos anos 1990, quando sua voz deixou de alcancar os mesmos timbres. Talvez seu último álbum dentro desse espectro tenha sido “Abrigo”, de 1995. A partir do seguinte, “Pierrot”, de 1998, a cantora não foi mais capaz de repetir seu sucesso de antes e viu a carreira se reduzir a esporádicos lançamentos, com desempenho inferior.

 

Os arranjos das canções de Marina sempre mostraram que ela tinha na estrutura da canção uma prioridade. Modernos timbres de teclados, usos inteligentes de instrumentos elétricos e acústicos além de, a partir do fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, uma predileção por nuances eletrônicas, que a tornaram pioneira neste tipo de arranjo. Faixas dos discos “Marina Lima” (1991) e “O Chamado” (1993) já apontavam para esta tendência, o que se confirmou em “Abrigo”, de 1995. Não que ela já não se valesse disso nos discos oitentistas, mostrando que sua abordagem musical estava muito sintonizada com o que havia de mais moderno no pop da época, exceção no Brasil do rock da primeira metade da década e, especialmente, no Brasil da lambada e do sertanejo que veio depois.

 

Aqui está um time de futebol profissional com os melhores momentos de Marina no estúdio e uma exceção que valida a regra, a versão ao vivo de “Pra Começar”, que foi tema da novela global Roda de Fogo, mas com sua versão de estúdio, impossível de achar em qualquer rede social que eu tenha visto. Após uma pesquina no bom e velho Soulseek, consegui achar a trilha nacional da novela e fiz o download, mas a versão também era a gravada ao vivo. Enfim, vamos lá, da mais recente para a mais antiga, eis a escalação:

 

 

– Pierrot  (1998) – Canção que abre o álbum “Pierrot do Brasil”, mostrando um pequeno trecho incidental com “Delicado” (de Waldir Azevedo) e se entregando a uma batida eletrônica em looping. A produção do lendário Suba dá ênfase aos timbres eletrônicos fundidos a passagens de bandolins, guitarras e teclados, num registro moderníssimo para sua época. A última grande – enorme – gravação de Marina.

 

 

– Nem Luxo Nem Lixo (1995) – Faixa de “Abrigo”, cover de Rita Lee, cujo original já era sensacional. A produção de Liminha também foi capaz de conferir a modernidade necessária para a gravação, mostrando uma Marina em excelente forma vocal. A canção foi escolhida para um comercial das sandálias Rider na época. Um dos grandes momentos de Marina nos anos 1990.

 

 

– O Chamado (1993) – Faixa-título de seu décimo-primeiro disco, mostrando uma abordagem mais convencional, ainda que haja uso de timbres eletrônicos na bateria e alguns efeitos. Com produção de João Araújo, William Magalhães e Fernando Vidal, a canção tem um belo solo de guitarra – de Vidal – e arranjo de cordas.

 

 

– Criança (1991) – A grande faixa de seu melhor disco, “Marina Lima”. O uso das programações eletrônicas é perfeito, a voz está em momento de absoluta iluminação e o uso de teclados não deixa muito a dever ao que estava sendo feito no pop mundial da época. Se “SLA Radical Dance Disco Club”, álbum de Fernanda Abreu do ano anterior tivesse um sucessor, este seria “Marina Lima”. Um marco na produção de estúdio do Brasil, atingido por Fábio Fonseca e Liminha, os responsáveis.

 

 

– Não Sei Dançar (1991) – Uma das minhas gravações preferidas da carreira de Marina, também presente em “Marina Lima”. Composta por Alvin L, cujo original tem arranjo convencional, esta versão é um primor de tensão e minimalismo de teclados, com a voz de Marina transmitindo um misto de angústia, desejo e amor, tudo muito sério e próximo da perfeição.

 

 

– À Francesa (1989) – Groove matador de bateria, baixo estalando, guitarras funkeadas, é impossível ficar parado ao som de “Á Francesa”, maior sucesso do álbum “Próxima Parada”. Composta por Claudio Zoli, que participou da gravação, a canção foi uma brava representante do pop brasileiro em meio à tendência sertaneja na preferência do público. A produção é de Carlos Mardau e a faixa ainda é um colosso dançante nas festas e playlists por aí.

 

– Pra Começar (1986) – A versão de estúdio da canção – impossível de ser achada – era sensacional e serviu como tema da novela “Roda de Fogo”, na qual Tarcísio Meira enfrentava uma doença cerebral fatal. A canção tinha uma levada de bateria bastante característica e um arranjo guitarreiro interessante – riff é marcante. A única versão disponível é do álbum “Todas Ao Vivo”, que é inferior ao original, mas que transmite o espírito da canção.

 

 

– Fullgás (1984) – Outra produção colossal, dessa vez a cargo de João Araújo, em outro verdadeiro marco da modernidade pop nacional. Com estrutura de bateria que remete a “Billie Jean”, clássico de Michael Jackson, progressão de teclados inconfundível e arranjos de Nico Rezende, “Fullgás” é um standard da música brasileira oitentista. A letra de Cícero é emblemática e o verso “Você me abre seus braços e a gente faz um país” remete ao clima das Diretas Já.

 

 

– Mesmo Que Seja Eu (1984) – Outra faixa de “Fullgás”, o disco, dessa vez uma versão para composição de Erasmo Carlos. Se o original já tinha uma aura oitentista new wave/rock/pop, a releitura de Marina aprofunda essas influências e leva o arranjo ainda mais longe em termos de possibilidades de fluência. Uma lindeza tecladeira quase tecnopop.

 

 

– Acho Que Dá (1982) – Faixa do belo – e semi-desconhecido – álbum “Desta Vida, Desta Arte”, que marca a transição da Marina “cult” para a Marina “popstar” que viria a partir de 1984. A melodia é bela e o saxofone de Leo Gandelmann pontua a canção, que tem o refrão otimista “só quero achar que vai dar”, lembrando bastante o Rio de Janeiro do início dos anos 1980.

 

 

– Charme do Mundo (1981) – O primeiro grande sucesso de Marina, surgida no álbum “Certos Acordes”, marcando seu surgimento na programação das rádios FM. Ainda era um momento de transição da cantora, ainda sem uma identidade formada, pegando influências setentistas e atuais, como Caetano Veloso. Mesmo assim, já é possível ver o uso do teclado como um destaque absoluto da faixa, mostrando que Marina já estava de olhos e ouvidos ligados no que vinha da moderna música pop internacional.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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