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Luísa Sonza surpreende em disco de standards da Bossa Nova

 

 

 

 

Luísa Sonza, Roberto Menescal e Toquinho – Bossa Sempre Nova
41′, 14 faixas
(Sony)

3.5 out of 5 stars (3,5 / 5)

 

 

 

 

 

Saiu ontem à noite “Bossa Sempre Nova”, álbum de Luísa Sonza com canções clássicas da Bossa Nova. Ao seu lado na empreitada, dois nomes de peso do movimento: Toquinho e Roberto Menescal, que co-produzem, arranjam e tocam ao longo das 14 faixas. Confesso que o resultado é surpreendente, muito mais por conta da escolha e da coragem de Luísa ao definir esse projeto como algo realizável. Alguém poderia pensar que este trabalho seria “subversivo” no sentido de modificar esses clássicos atemporais e conferir a eles “roupagem moderna” ou “surpreendente”, mas não. A surpresa está, justamente, na reverência ao timbre clássico das canções e ao clima que as envolve. Claro, dá pra gente questionar o que significa “bossa nova” hoje em dia. Canções que falam de um tempo passado ou apenas um nome em meio a playlists de “foco” ou “chill” nos Spotifys da vida. Justo por isso, a escolha de Menescal e Toquinho, duas testemunhas oculares da Bossa, além de dois criadores dentro daquele contexto, ancora a empreitada de Sonza em um mar de tranquilidade estética, no qual ela pode mostrar a que veio. E o resultado é, novamente, surpreendente.

 

Até agora, as escolhas musicais de Luísa não deixavam espaço para sua voz ou performance como cantora. Muito mais afeita a movimentos no palco, produção sexy em clipes, aparições equivocadas na TV e uma postura mais voltada para a polêmica vazia dos meios digitais de hoje, ela não parecia capaz de encarar esse tipo de situação interpretativa. Sua voz está longe de ser adequada para cantar Bossa Nova e aí está seu mérito. Ela estudou bastante ou estava escondendo o jogo. Sua voz soa bem em meio aos arranjos de Menescal e Toquinho, bem inserida em instrumentais que, se não são revolucionários, espelham o que há de mais conhecido nesta seara – o andamento tranquilo, pontuações de piano, violão e guitarras, além de um instrumento de sopro aqui ou ali. Tudo é fidedigno e convincente, como um disco desses deveria ser. Tanto que a gente não deve errar ao dizer que o investimento feito deveria resultar exatamente em algo assim. Não. Luísa tem mérito ao jogar o jogo nestas regras e buscar um acesso a este grupo tão seleto de intérpretes que, ao longo do tempo, mostraram que a Bossa Nova pode, sim, ser flexível, desde que se entenda o que está cantando. E ela, assessorada ou não, entendeu.

 

No álbum anterior, “Escândalo Íntimo”, ela já dera dois acenos de que poderia pensar em mais alguns elementos em sua música. “Luísa Manequim”, era uma faixa ancorada num sample de “Luiza Manequim”, de Abílio Manoel, uma canção composta dentro do que se entende como “sambalanço”. E a polêmica “Chico”, na qual alguns elementos acústicos podiam ser percebidos num arranjo bossanovístico estilizado. Esses dois momentos se perdiam, no entanto, num oceano de canções péssimas e escolhas ainda piores. Mas em “Bossa Sempre Nova” o jogo mudou. A voz de Sonza está muito melhor e sua percepção do material interpretado mostra noção e ciência. As escolhas sugerem alguém que ouviu desde os momentos mais clássicos (“O Barquinho”, “Só Tinha de Ser Com Você” e “Samba de Verão”) aos menos conhecidos (“Um Pouco de Mim”, “Nós e o Mar” e a linda “Ah, Se Eu Pudesse”), passando até por canções que foram inseridas no contexto da Bossa sem serem “puro sangue”, como “Águas de Março”, “Tarde em Itapoã” ou mesmo “Carta Ao Tom 74”, esta última, uma das canções mais melancólicas e tristes de todos os tempos.

 

O resultado é um disco que surpreende tanto pela reverência quanto pela capacidade. Se Luísa se mostra inserida no contexto é porque, além de ter capacidade vocal para tal, exibe talento para adaptar sua voz para interpretar canções que, é bom lembrar, já foram cantadas por intérpretes que vão de Elis Regina e Nara Leão a Frank Sinatra e João Gilberto. É claro que o frenesi das redes sociais vai gerar reações enlouquecidas, que podem variar do estranhamento total por parte do público fiel da cantora, passando por afirmações de que Luísa possa cantar mais ou melhor que esses tais intérpretes que vieram antes dela. O fato é que “Bossa Sempre Nova” tem seu charme próprio e o resultado coloca Sonza neste hall de vozes do passado. O mérito é dela, de Menescal (que havia dito que a cantora tinha todas as características de intérprete de Bossa Nova) e de Toquinho. Todos mostram determinação em manter os valores essenciais da estética bossanovista intactos e brilhando.

 

O que não podemos é esperar que este álbum vá fazer mais pela Bossa Nova do que o movimento fará pela carreira de Luísa. Daqui pra frente, se ela fizer algum disco equivocado, poderemos dizer que ela pode mais do que isso. De qualquer forma, se este novo trabalho apresentar a uma geração completamente refratária o que foi a Bossa Nova, já terá valido. De qualquer maneira, parabéns pelo risco e pelo resultado. Vale conferir.

 

Ouça primeiro: “Cartar Ao Tom 74”, “Águas de Março”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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