Não perca a beleza extrema de “Vila”

Fabiano do Nascimento – Vila
43′, 11 faixas
(Far Out Recordings)
(5 / 5)
Eu sou carioca, vivi mais de dois terços da minha vida na Cidade Maravilhosa e nunca ouvi falar no Bairro Saavedra. Um pouco de investigação e descobri que se trata de um pequeno enclave com cara de vila, no Catete, Zona Sul do Rio, construído em 1928 e que permaneceu intacto e misterioso. E o que isso tem a ver? O Bairro Saavedra foi a inspiração para o violonista Fabiano do Nascimento ter criado seu sublime álbum “Vila”, lançado há cerca de um mês pela gravadora inglesa Far Out Records. Sim, é mais um caso de MBFB, Música Brasileira de Fora do Brasil, no caso, feita por este carioca extremamente talentoso, radicado nos Estados Unidos. O que Fabiano oferece nas onze faixas de “Vila” é um passeio por uma alameda imune à passagem do tempo, na qual as orquestrações de cordas à la Radamés Gnattali e Claus Ogerman, os dedilhados de violão de Baden Powell e similares, além de uma aura cinematográfica absolutamente adorável, ficaram retidos num momento suspenso no ar do fim do outono. A beleza dos arranjos, executados por ele e por Vittor Santos, que também rege o naipe de cordas, é inebriante e acima de tudo o que temos ouvido. É absolutamente impossível pensar em algo tão belo e singelo erguido a partir de lembranças da infância num mundo como o atual, porém, numa via que tem o tamanho da Terceira Lei de Newton, apenas a dureza de hoje poderia suscitar algo tão belo. Senão vejamos.
Fabiano do Nascimento já flertou com loops eletrônicos e parcerias de peso — como o saxofonista Sam Gendel no etéreo “The Room” (2023) —, mas nunca largou a mão de suas raízes cariocas, moldadas pelo folclore e pelas formas populares brasileiras. A partir disso, “Vila” surge como a moldura mais completa de sua obra até aqui, um registro que mostra a maturidade de quem sabe que a vanguarda não precisa ignorar o afeto. O álbum é um organismo vivo de 17 músicos em pleno florescimento, onde o trombonista e arranjador Vittor Santos — veterano que já emprestou seu talento a gigantes como Elza Soares e João Donato — utiliza sua intimidade com os alicerces do samba e da bossa para reger um conjunto onde cordas, metais e percussão giram em uma nostalgia rosada, evocando o que houve de mais belo e suave na música brasileira das décadas de 1960 e 1970.
A jornada começa com uma releitura arrebatadora de “O Tempo”, peça central do repertório de Fabiano que medita sobre a cura através do passar dos anos. Aqui, violinos e flautas ganham os céus, ancorados pelo violão ondulante e pela voz contida do músico, servindo de porta de entrada para um disco que segue instrumental e triunfante, estabelecendo um padrão de excelência que não oscila. O que se ouve em seguida é uma sucessão de dez faixas impecáveis: a leveza constante de “Spring Theme”, o virtuosismo melódico de “Tema em Harmônicos” — onde o trombone de Santos responde à altura com precisão absoluta — e a singeleza quase mística de “Uirapurú”, onde as cordas parecem cantar em uníssono com a fauna brasileira. Encerrando o que seria o “primeiro lado”, “Trenzinho Imaginário” coloca a fantasia em movimento rítmico, preparando o terreno para uma segunda metade que se recusa a perder o brilho ou a coesão estética.
Nesta sequência, o álbum serpenteia por caminhos invariavelmente belos, indo da lentidão reflexiva de “Valsa” ao deslize ágil de “Floresta dos Sonhos”. A luxuosa “Plateau” ressurge aqui mais lânguida do que sua versão anterior de 2017 (então chamada “Planalto”), ganhando novas camadas de sofisticação, enquanto o peso das frequências baixas em “Prelude 5” e a cadência de “Vittor e Fabi” entregam aquele balanço de bossa nova que define o gênero com uma precisão cirúrgica. O disco físico e as versões digitais ainda guardam um segredo: uma versão de “Tema em Harmônicos” despida da orquestra, apenas violão e percussão leve, um lembrete necessário de quão sedutora é a técnica de Nascimento quando exposta ao osso, sem artifícios, mostrando que sua capacidade de construir tramas densas nas cordas — o chamado “dedilhado impossível” — continua sendo um dos grandes prazeres da audição contemporânea.
O título “Vila” remete aos pátios esquecidos-porém-vivos do Rio de Janeiro da juventude de Fabiano, e é justamente esse sentimento de pertencimento e memória afetiva que a orquestra traduz em som. O grupo de Vittor Santos coloca a nostalgia urbana de Fabiano em diálogo direto com as atmosferas naturais que ele costuma evocar em seu toque, criando uma ponte entre o asfalto antigo e a floresta que sempre o espreita. O resultado é um trabalho de uma ternura rara, que funciona como sucessivas lufadas de ar fresco em forma de som, livre das pressões por inovação vazia ou clichês de mercado. É música que respira, que respeita o tempo da maturação e que reafirma Fabiano do Nascimento como um elemento indissociável da paisagem sonora brasileira atual, provando que, mesmo cercado pela suntuosidade de uma big band, sua essência permanece íntima, orgânica e fundamentalmente brasileira.
“Vila” é um dos discos mais belos que ouço em muito, muito tempo.
Ouça primeiro: tudo. Várias vezes.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
