Alabama Shakes ainda dá um belo caldo

Alabama Shakes – I Must Be Dreaming
48′, 11 faixas
(UMG)
(4,5 / 5)
Após onze anos sem lançar álbuns, o Alabama Shakes retorna com seu terceiro trabalho, “I Must Be Dreaming”. Se houvesse alguma justiça neste mundo, a guitarrista e vocalista Brittany Howard receberia uma comenda vitalícia da ONU ou alguma instituição semelhante, por ser, possivelmente, a maior cantora em atividade no planeta. Sem exageros. Brittany consegue misturar duas correntes clássicas de interpretação/sentimento em forma de canto, a saber, a soul music e o blues. Ela é capaz de falsetes impressionantes e tons gravíssimos, além de possuir uma extensão vocal impressionante. Ela chamou logo a atenção quando a banda surgiu em 2012, lançando o ótimo álbum “Boys & Girls”, que logo rendeu um Grammy de Revelação, mas o Alabama Shakes não é só Brittany. Heath Frogg (guitarras) e Zac Crockrell (baixo) completam a versão mais recente do time, ainda contando com os bateristas Lewis Wright e Noah Bond ao longo do álbum e nas turnês, lembrando que Steve Johnson, outrora titular das baquetas, foi saído da banda após acusações de abuso sexual de menores, feitas em 2021. Mesmo que elas tenham sido retiradas, o sujeito permaneceu escanteado. O trio chega em ponto de bala neste novo álbum.
Durante o hiato do grupo, Brittany também lançou dois discos solo, “Jaime” (2019) e “What Now” (2024), nos quais exercitou sonoridades mais psicodélicas e eletrônicas, distanciando-se do rock’n’soul’n’blues espacial – ou algo assim – que o Alabama Shakes segue praticando. É uma sonoridade belíssima, robusta, gorducha e cheia de detalhes lindos. O que a imprensa gringa chamou de “mais sossegado” neste terceiro álbum, até como um elemento levemente depreciativo, eu chamo de opção estética. Os timbres e as próprias composições estão mais plácidos, mas isso não quer dizer que estejam mais “frouxos” ou algo assim. Os arranjos, feitos pelo trio com a colaboração do produtor Shawn Everett, tangenciam essa expansividade atual, mas retribuem a piscadela de elementos interessantes do pop dourado americano da virada dos anos 1960/70. Muitos acenos harmônicos a canções suspensas no ar, vindas desse período, dão às faixas de “I Must Be Dreaming” um verniz a mais. E o título, outro alvo de crítica lá fora, pode soar meio dúbio, visto que, além de tratar de assuntos sentimentais em âmbito pessoal, as faixas falam da miséria existencial e do perigo constante vivido sob o segundo governo trump. Seria então: “estou sonhando porque não acredito no que está acontecendo todos os dias” ou “estou sonhando porque prefiro sonhar do que estar imerso nessa lama”?
Mesmo que essa dúvida paire sobre as canções do álbum, fica evidente a maestria dos sujeitos em criar e avançar sobre este modelo de belezura eletroacústica. Tem espaço para silêncios, pesos, respiração, tudo é muito humano nas gravações do AS, o que favorece demais a audição. Em alguns momentos, “I Must Be Dreaming” se equipara ao melhor que a banda já gravou, mas, talvez o que falamos acima, sobre este disco ser “mais sossegado”, pode ser confundido com a qualidade de algumas composições. Mesmo que Brittany seja brilhante em todos os momentos do álbum, não dá pra deixar de lado que algumas faixas poderiam ser melhores. Porém, o nivel ainda é altíssimo e há muitos destaques presentes, até numa faixa, digamos, “menor”, como “Waist Deep”, por exemplo, cuja levada sinuosa e pouco comum de bateria conduz a melodia de um jeito inesperado. Como dissemos, no entanto, os destaques superam em muito os eventuais pontos “fracos” do percurso sonoro, como já mostraram os singles lançados antecipadamente, especialmente, puxados pelo groove trovejante de “Another Life”, cuja projeção de bateria, novamente, é espantosa, seja pelo timbre obtido, seja pela própria levada em si, que dá um tom dançante e funky para reflexões existenciais e um instrumental inesperado.
A reverência à soul music mais clássica está por todos os cantos. Em “Garden” ela chega ao sublime, mostrando o talento vocal de Brittany em meio a um arranjo que tem espaço para um naipe de cordas que soa muito bem no escopo da faixa. Em “I Feel The Hope Coming”, outro dos singles prévios, o Alabama mostra esse amor ao pop dourado americano dos anos 1960/70, com uma ambiência sonora que mistura gravações de Glen Campbell e outros luminares daquele tempo, em citações muito sutis e climas que fazem a diferença. Em “Time”, outra beleza espantosa, chega a parecer em alguns momentos com uma canção resgatada do repertório do Jackson 5, só para ser engolfada por uma tempestade de distorções e trovões percussivos, coisa finíssima. E “Friends” lembra algo que poderia ser de alguma banda psicodélica do início dos anos 1970, até mesmo de um Velvet Underground da vida, tamanha a ambiência e o arranjo, que esconde sob uma simplicidade enganosa, uma engenharia de distorções, andamentos cruzados, filtros vocais bem utilizados, ou seja, um pequeno e incrível quebra-cabeças sonoro. E tem o serpentear de “American Dream”, com mais e mais efeitos vocais e guitarras que caem do céu como chuva pesada.
“I Must Be Dreaming” é lindo, tem suas imperfeições, como as boas coisas da vida. É um disco humano, falível, anguloso e com momentos que valem sua atenção. Ouça logo.
Ouça primeiro: “American Dream”, “Time”, “I Feel The Hope Coming”, “Garden”, “Another Life”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
