“Histórias de morte matada contadas como se fossem morte morrida”: Matar uma mulher nunca é o suficiente

 

 

 

 

Qual é o primeiro feminicídio de que você se lembra?  Na época em que ele aconteceu provavelmente tenha te parecido mais um caso de assassinato em um país violento, o quinto em que mais se mata mulheres no mundo.

 

Talvez depois do dia 5 de março de 2015, quando a Lei do Feminicídio, de número 3104/15, foi promulgada você tenha mudado sua percepção da dor causada por aquele crime e passou a perceber que mesmo com uma mudança necessária no sistema judiciário, a luta por uma sociedade mais segura para as mulheres está longe de chegar ao fim.

 

Viventes dos nossos dias mergulhados em misoginia, as escritoras e jornalistas Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues criaram no Facebook em 2015 a comunidade “Não foi ciúme”, para divulgar a forma muitas vezes deturpada com que casos de violência contra a mulher são divulgados por veículos de comunicação.

 

Essa tarefa desgastante acabou sendo a origem do livro “Histórias de morte matada contadas feito morte morrida: A narrativa de feminicídios na imprensa brasileira”, editado pela Dropz e concorrente ao prêmio Jabuti desse ano, na categoria Ciências Sociais. As autoras abrem o livro contando suas primeiras experiências com a realidade de que para uma parte da sociedade, o assassinato do corpo de uma mulher nunca é suficiente. Niara relata a morte de Luciety Mascarenha Saraiva, ocorrido em Pelotas em 1990 e Vanessa relembra como sua adolescência foi afetada pelo feminicídio de Mônica Granuzzo, no Rio de Janeiro, em 1985.

 

Em comum entre os casos a misoginia que culpabiliza a vítima, seus familiares, como aconteceu com os pais de Mônica, e a forma que a violência contra a mulher é retratada pela imprensa, com poucas mudanças e muita, muita insistência nos mesmos erros. Entretanto, não há demonização do jornalismo. Niara e Vanessa sabem, é obrigatório “que a imprensa se humanize na cobertura dos crimes de feminicídio, para assim humanizar o corpo aniquilado daquela mulher.

 

 

É preciso enxergar as vítimas como gente”, e com seu conhecimento de jornalistas e vivência de mulheres que não aguentam mais ver tantas mães, irmãs, políticas, filhas, namoradas, esposas, amigas mortas repetidas e repetidas vezes, mostram que um novo caminho não é fácil, mas é possível.

 

 

Comecemos deixando de normalizar a passionalidade da violência. Ninguém mata por amor, por não aceitar o fim de um relacionamento, por ciúme. Mata-se por descontrole, mata-se por ódio. É como um crime de ódio às mulheres que o feminicídio tem que ser entendido.

 

As manchetes em voz passiva, que muitas vezes nem mencionam o nome do criminoso, o excesso do uso da palavra suposto, a divulgação de imagens da vítima em poses sensuais são alguns dos pontos de atenção vitais que as autoras abordam, dentro de notícias sobre casos dos quais nos lembramos e outros que não chegaram até nós, seja pela geografia de um país imenso ou porque não despertaram a atenção de uma imprensa que replica o preconceito que mesmo dentro de violências insuportáveis ainda há vida mais valiosas que outras.

 

Tentei procurar alguma notícia sobre o primeiro feminicídio próximo a mim do qual me lembro, o de uma garota linda, dois anos mais velha que eu, moradora da minha cidade, acontecido por volta de 1995. Não encontrei nada, mas não continuo como antes, apenas lembrando das mil recomendações para “ não faça o mesmo que ela. não saia com quem não conhece” e invisibilizando uma existência aniquilada. Isildinha, era o seu nome. Tinha a vida pela frente, uma família que a amava, sonhos para realizar.

 

Como tantas de nós, mulheres cis, trans, negras, indígenas, ativistas políticas, que o ódio mata todos os dias, merecem muito mais de uma sociedade que insiste em nos negar o direito de viver.

 

“Histórias de morte matada contadas como se fossem morte morrida…” é um livro difícil de ler, contudo é um trabalho primoroso, que nos desespera, atinge e mostra que enquanto não chamarmos as coisas pelo nome elas nunca mudarão.

 

Debora Consíglio

Beatlemaniaca, viciada em canetas Stabillo e post-it é professora pra viver e escreve pra não enlouquecer. Desde pequena movida a livros,filmes e música,devota fiel da palavras. Se antes tinha vergonha das próprias ideias hoje não se limita,se espalha, se expressa.

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