Fausto Fawcett E Os Robôs Efêmeros – Um Clássico

 

Há alguns anos eu escrevi um texto para o Monkeybuzz sobre o primeiro disco de Fausto Fawcett, de 1987 (veja aqui). Era para a coluna Cadê, que procurava falar de discos nacionais raros, cuja aquisição em CD/LP só era possível por sites da Internet, a preços exorbitantes. Há, por exemplo, um anúncio no Mercado Livre que cobra 400 reais pela versão remasterizada em CD deste álbum, lançada no início dos anos 2000. E vou confessar a vocês: se eu tivesse esta grana sobrando, não hesitaria em pagar. Este álbum é um dos mais sensacionais trabalhos dos anos 1980, seja em termos musicais, seja no campo das palavras e letras de música. Fausto e seus amigos, produzidos por Liminha, atingiram um nível impressionante nessa estreia.

 

Fausto é egresso da Faculdade de Jornalismo da Puc-Rio. É um celeiro de profissionais da área, que, naquele tempo, tinham lugar garantido nos grandes veículos de comunicação do país. O cara, mesmo que parecesse maluco, excêntrico, exótico ou qualquer outro adjetivo que dispensemos a ele, era genial. Sua proposta de arte passava por enormes textos em prosa poética – ou algo assim – nos quais descrevia uma versão underground, largamente influenciada por romances como “Neuromancer” e “Cyberpunk”, de William Gibson, de … Copacabana. Fausto, morador do lugar, fascinado pelo imaginário em construção permanente do bairro da Zona Sul carioca, enxergava em suas ruas, pessoas e comércio, um universo paralelo cheio de gente estranhíssima, que ocupava as noites do bairro enquanto todos dormiam. Era como se um outro mundo existisse à parte, justamente num dos cartões postais do país, cantado em verso e prosa durante tantos anos. A princesinha do mar era, segundo Fausto, um caso de transtorno bipolar. “Princesinha do mar, com transtorno bipolar” poderia até ser um verso dele.

 

A ideia de transformar as apresentações que Fausto fazia de seus textos em disco surgiu quando o rock oitentista já era uma realidade comercial. Foi na inauguração da boate Jazzmania, em 1986, que Fausto foi convidado a gravar um disco, por ninguém menos que o próprio diretor da Warner Music, André Midani. Com a chegada de Carlos Laufer, dos irmãos Marcos e Marcelo Lobato e com Liminha na pilotagem do estúdio, o que se (ou)viu foi um clássico instantâneo. O país abraçou “Kátia Flávia”, primeiro single do disco, e a canção foi transformada num hit largamente improvável, que chegou a entrar na trilha sonora da novela global “O Outro” com Fausto tornando-se figurinha fácil no outro veículo de divulgação poderoso para a música da época: o programa do Chacrinha. Era estranho e cômico ver o cantor e sua banda, completamente fora do contexto popular do programa, fazendo playback no palco, em meio às chacretes e tudo mais.

 

Para a maioria esmagadora do público, Fausto Fawcett é sinônimo de “Kátia Flávia”. É um one-hit wonder, um cara que só fez sucesso com essa música e mais nada. Não é uma abordagem totalmente errada, até porque o sujeito voltou à mídia no início dos anos 1990, com o show/disco “Básico Instinto”, no qual exaltava ainda mais sua paixão/devoção por louras, algo que “Kátia Flávia” e outras canções do álbum de estreia já deixavam entrever. A ideia deste texto, no entanto, não é falar da carreira do sujeito, mas de revisitar este primeiro disco e mostrar porque ele é absolutamente genial.

 

Em primeiro lugar, as letras de Fawcett são caso único na música nacional em todos os tempos. Sua narrativa apocalíptica/humorística é, digamos, uma manifestação do lado negro das letras da Blitz. Ambos têm em comum a fluência teatral de grupos como Asdrúbal Trouxe O Trombone, pioneiro nesse tipo de abordagem lírica no país, ainda nos anos 1970. Fausto, portanto, era um produto desta intelectualidade carioca, esclarecida, gestada na cidade durante a ditadura militar. Teve tempo para desenvolver sua paixão pela escrita e, mais ainda, elaborar um estilo só seu, algo que ainda não foi igualado. A musicalidade do disco também é um caso a ser estudado. Liminha já havia feito seu gol de placa em termos de produção musical, “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs, no ano anterior. Ali ele colocara em prática uma abordagem de estúdio e uma forma de pensar as gravações que se misturavam ao uso extensivo de equipamentos de ponta. Essa exuberância sonora se reflete no revestimento polido e eficiente que as faixas do disco de Fausto têm. A banda, afiadíssima, com as guitarras de Laufer fazendo fraseados de funk clássico, bateria possante e pesada, teclados e baixo – muitas vezes pilotados pelo próprio Liminha – fazem do álbum um produto praticamente perfeito em termos de qualidade sonora.

 

São oito faixas para pouco mais de 41 minutos. Fausto nunca foi um cantor, algo que também seria inadequado tendo em vista suas letras quilométricas. Desta forma, qual um profeta do apocalipse que chegou, ele sai entoando suas narrativas, enquanto a banda constrói uma muralha funk/pop que sustenta tudo e ainda acrescenta dinâmicas inesperadas aos resultados. A própria introdução de “Kátia Flávia” cita “Under My Thumb”, clássico dos Rolling Stones. Em certo momento de “Chinesa Videomaker” há uma citação explícita de “Just Another Night”, sucesso solo de Mick Jagger. Talvez sem querer, Fausto tenha inscrito seu nome na história do rap nacional, pois algumas de suas gravações neste primeiro disco podem ser incluídas no estilo.

 

As canções são mundos à parte, que se comunicam justo pelo conceito implícito de que estamos recebendo notícias e informações desta Copacabana underground. Não é justo falar superficialmente de cada uma, melhor é resumir seus assuntos e despertar a curiosidade da audição, nem que seja para saber onde e como as narrativas vão acabar. São elas.

 

“Gueixa Vadia”

História de uma prostituta que vive “no lado asiático de Copa” e persegue um turista americano que visita o bairro, em meio ao caos de um acidente de carro. Ela roça uma gilete cor de rosa no rosto do turista enquanto canta trechos de canções da disco music, como “Born To Be Alive”, “Don’t Let Me Be Misunderstood”, “Bad Girls”, entre outras. Ela leva o turista para seu apê/quitinete, que, de dia, é depósito de taxímetros adulterados, mas, de noite, é depósito de taxi girls.

 

“Tania Miriam”

Tania Miriam é a grafiteira das marquises de Copacabana, usa minissaia vermelha, meia- calça preta, bustiê de lantejoula. É uma marombeira ociosa, usa um espelho em formato sereia e incendeia Thundercats em várias ruas do posto 2 de Copacabana. E sempre volta para calçada em frente ao Luxor Hotel Regente.

 

“Drops de Istambul”

História de um camelô turco que vende drops de Istambul e pastilhas de Ankara em Copacabana. Enquanto isso, um repórter local pergunta aos jovens do bairro o que eles sentem quando chupam os drops e as pastilhas. A letra vai relatando as sensações de um dos consumidores do drops, que fica, literalmente, alucinado pelas ruas do bairro, com o “ego dissolvido na matéria em movimento” e vendo “visuais medievais da Turquia imperial”.

 

“Rap D’Anne Stark”

Um estudante de jornalismo compra, numa boutique de comunicação clandestina, chamada Boutique Paulo Francis, uma fita de videocassete com gravações ininterruptas de belas apresentadoras de jornais. Ele vive num quarto alugado por cinco viúvas sinistras, que têm como passatempo, praticar tiro ao alvo em réplicas de estátuas de Aleijadinho. No quarto ele tem vários aparelhos de telex e um telão, no qual ele vê e se sente um Hamlet contemporâneo, mas que, ao invés de carregar um crânio, ele reflete sobre ser ou não ser enquanto vê a locutora anunciar as notícias da Guerra Irã-Iraque.

 

“Kátia Flávia, a Godiva do Irajá”

História da ex-Miss Febem, Kátia Flávia, a Lady Godiva do Irajá, que ficou famosa por andar num cavalo branco pelas ruas suburbanas, toda nua. Ela rouba um carro da polícia e entra no sistema de comunicação, dizendo que está usando calcinhas bélicas, com um míssil francês Exocet bordado. Por fim, ela foge para Copacabana.

 

“Chinesa Videomaker”

O corpo da chinesa videomaker é encontrado em frente ao hotel Othon. Os jornais locais dão a notícia e dizem que ela morreu às 2:45 da manhã, mas, na verdade, tudo começou pouco antes da meia-noite, num prédio abandonado entre Prado Júnior e Princesa Isabel, onde funciona a boite Gueto Hong Kong. Lá a chinesa videomaker supervisiona o estabelecimento, que é o único que tem garçonetes da Dinastia Ming de topless e chega num lugar onde há vários casais trepando enquanto um telão exibe … SLIDES DA NOVELA ESCRAVA ISAURA. Daí a chinesa deixa a boate e vai à caça de jovens rapazes para abusar sexualmente e massacrar com imagens de telejornais. Por fim a chinesa é atacada por micro-Madonnas em plena rua.

 

“Estrelas Vigiadas”

Está acontecendo uma exposição no Copacabana Palace sobre os bastidores do Projeto Guerra Nas Estrelas e uma cicerone loura americana convida para ver todo os tipos de armas e tecnologias de espionagem. Por fim a loura convida para fazer amor numa sala cheia de telescópios e telas de monitores espiões.

 

“Juliette”

História de uma ninfeta loura (outra obsessão de Fawcett) que roubara uma holografia de Julio Iglesias segurando um vidro de Leite de Aveia Davene da embaixada da Espanha. A mãe da menina era stripper e o pai era desconhecido, mas fatos apontavam para um jogador da seleção holandesa de 1974. E ele segue perguntando, citando os nomes:

– Será o Rensenbrink?
– Pode ser…
– Ou terá sido Rep?
– Pode ser…
– Será o Van Hanegem?
– Pode ser…
– Ou terá sido Neeskens?
– Pode ser…
– Será o Suurbier?
– Pode ser…
– Ou terá sido Krol?
– Pode ser…
– Ou terá sido Cruijff?
– Ou o goleiro Jongbloed?

O cenário é, claro, Copacabana, em meio a um naufrágio de um cargueiro mexicano, carregado de tequila e de um iate Sargentelli, que derramou várias mulatas na orla de Copacabana. Sendo assim, o bairro ficou envolvido por mulatas naufragadas na tequila evaporada.

Este disco é vergonhosamente ignorado nas listas de melhores trabalhos dos anos 1980, mas nós estamos aqui para relembrar e valorizar. Ouça porque é absolutamente sensacional.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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