Explodindo o rock! Jon Spencer Blues Explosion em 1996

A julgar pela embalagem, o conteúdo poderia ser gótico. E poderia ser uma banda de um homem só. Mais uma vez, as aparências enganam. Rock’n’roll é o que invade nossos ouvidos. E Russell Simins e Judah Bauer são tão essenciais quanto o vocalista Jon Spencer, cujo rosto aparece sozinho na capa. O Blues Explosion era um power trio sem baixista. Spencer e Bauer empunhavam guitarras e o baterista Simins ficava sozinho na cozinha. A banda pertence a uma linha que, nos antecedentes, encontra a The Cramps e que, no futuro, geraria coisas como The White Stripes e The Black Keys.
Podemos ainda associar a Blues Explosion ao stoner rock. Som baseado em riffs, abrasivo esporrento, sujo. Rock que presta o devido tributo ao blues. Mas transitando para o hip-hop, a eletrônica e grooves sacolejantes. As influências juntam bluesmen como Hound Dog Taylor (cuja banda, The HouseRockers, também dispensava o baixo) a James Brown e Public Enemy. Crueza sem pureza.
Now I Got Worry é o único álbum da banda incluído no livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer. Deixo para críticos e fãs a discussão sobre se é o melhor. Sexto LP no currículo do trio (essa contagem pode mudar dependendo do critério), é o terceiro no contrato com a Matador Records. Imediatamente anteriores, Extra Width e Orange mostram os resultados de uma evolução em relação aos três primeiros relançados em The Year One. Now I Got Worry é sucedido por Acme, que pode ser considerado o mais pop nos lançamentos dos anos 1990. No meio do caminho, o álbum de 1996 é uma boa síntese entre as origens mais cruas e os desenvolvimentos posteriores.
De todo modo, a Blues Explosion não tem uma história de linhas retas. Sua longevidade não deriva de relações monogâmicas. Seu trajeto está atravessado por muitas colaborações e por trabalhos paralelos. Desde o início.
O sujeito que dá nome ao trio desponta na cena musical com a Pussy Galore, um coletivo de garage rock formado por estudantes da Brown University em 1984. Estabelecida em Nova York, a banda teve várias formações, com Spencer como o único integrante fixo. Lançaram alguns álbuns e EPs e encerraram os trabalhos em 1990. Nela já estava presente a reelaboração do blues e do rockabilly sob a influência do punk e do noise, essencial para a Blues Explosion.
Spencer colaborou com os Gibson Bros. em seus últimos álbuns e tocou outros projetos desde o final da década de 1980. Um deles foi a Boss Hog, centrado na sua parceria com a companheira Cristina Martinez. Outro foi a Honeymoon Killers, em que o baterista era Simins. Simins chamou o amigo Bauer para jams com Spencer e assim surgiu a Blues Explosion em 1991.
No mesmo período em que integrava a Blues Explosion, Simins teve outras bandas, como a Butter 08, na companhia das meninas da Cibo Matto. Já Bauer juntou-se ao seu irmão Donovan na 20 Miles para lançar um álbum de 1997. Mais adiante ele se tornaria músico de apoio de Cat Power.
Por outro lado, ao longo dos anos 1990, músicas da Blues Explosion ganharam versões remixadas e/ou produzidas por figuras como Steve Albini, UNKLE, Moby, Mike D. (dos Beastie Boys) e Beck. Albini está presente nas duas pontas da década, colaborando em canções lançadas pela Caroline Records em 1992 e em faixas de Acme.
Preocupações
Now I Got Worry, lançado em outubro de 1996, foi gravado em poucos dias no mês de fevereiro daquele ano. O principal estúdio foi o Waterworks West, situado em Tucson, Arizona, pertencente a Jim Waters. Waters produziu o álbum em parceria com Spencer. Conhecido por trabalhos com a Sonic Youth, ele já havia colaborado como engenheiro em Extra Width e como produtor em Orange.
Várias das 16 faixas do álbum de 1996 mostram a Blues Explosion fazendo muito barulho. Riffs nervosos e insistentes. Batidas potentes e rápidas. “Skunk” é a primeira delas. A coisa acelera na praticamente hardcore “Identify”, seguida por “Wail”, que ganhou destaque como single e um vídeo bacana sob os cuidados de Al Yankovic.
“2 Kindsa Love” e “Love All of Me” retomam essa série de músicas que são a marca registrada do trio. A primeira delas também mereceu um single da britânica Mute Records e um vídeo, que joga com o contraste entre a estridência da música e as cenas coloridas com casais românticos. “Get Over Here” tem toques industriais, uma herança da sonoridade da Pussy Galore.
“Hot Shot” é um blues acelerado e claustrofóbico, no contraponto a “Rocketship”, ideal para cabarés no meio de uma estrada empoeirada. “Dynamite Lover” e “Firefly Child” pagam pau para Rolling Stones, a primeira mais agitada, a segunda quase uma balada, mas ambas em um registro mais furioso na comparação com os britânicos. Vale notar que a Pussy Galore encheu um cassete só com versões de Exile on Main Street.
Resta ainda apresentar as faixas que enveredam por outros caminhos sonoros ou se entregam a experimentações. “R.L. Got Soul” tem marcas do funk de New Orleans, temperadas por riffs ostensivos. “Eyeballin” tem uma levada recursiva até se render a uma batida disco.
“Fuck Shit Up” também recorre a loops, mas não desiste do ritmo quebrado. Com Bauer nos vocais, é uma versão de uma música da Dub Narcotic, projeto de Calvin Johnson, com quem a Blues Spencer dividiria um álbum de 1999. Cheia de efeitos, “Sticky” vai se arrastando, um lamento dub, que fecha Now I Got Worry.
Ambas as músicas apontam para as influências hip hop, que ganham o primeiro plano em “Can’t Stop”. Não há nenhum rap aí. É mais como se os Beastie Boys resolvessem fazer um blues. A citação não é aleatória, pois encontramos na faixa da Blues Explosion ecos de “Sure Shot” (de Ill Communication, 1994). O trio acompanhou os Beastie Boys em sua tour do primeiro semestre de 1995, quando foram compostas várias músicas.
Mais: um dos compositores de “Can’t Stop” é Money Mark, parceiro dos rappers nova-iorquinos entre 1992 e 2011, na principal de suas contribuições para Now I Got Worry. A brodagem incluiu o uso de seu estúdio, o G-Son, em Los Angeles. A maioria das faixas com participação de Money Mark acompanha os singles de “Wail” e “2 Kindsa Love”.
No álbum, Mark ainda toca clavinete em “Chicken Dog”, gravada no Easley Studio, em Memphis, cidade que é uma das mecas do blues sulista nos EUA. O blueseiro Rufus Thomas, conhecido sobretudo por ter composto “Walkin’ The Dog”, recebeu 300 dólares para colocar sua voz e seus latidos na faixa.
O resultado é bem próximo do que foi obtido com a colaboração entre a Blues Explosion e R.L. Burnside, outro velho blueseiro. O álbum A Ass Pocket of Whiskey foi também gravado e lançado em 1996. Burnside é homenageado em Now I Got Worry com a faixa “R.L. Got Soul” e também com a menção ao seu “filho branco”, Kenny Brown, em “Dynamite Lover”. Os mais puristas, contudo, reclamaram dos preços que o blues teria pago nessas aproximações com o trio nova-iorquino.
A resposta veio em “Talk About the Blues”, faixa de Acme: “I don’t play no blues / I play rock and roll”. De fato, longe de querer emular ou reverenciar o blues em seus formatos consagrados, a Blues Explosion fazia menos e mais do que isso: tomava o gênero como referência e inspiração.
Gritaria
A frase de “Talk About the Blues” também pode ser escutada em shows daquela época. Para muitos, os palcos eram onde a banda atingia seu clímax. Simins tirando o máximo de um mínimo de tambores e pratos. Bauer batendo ponto na guitarra, mas dando canjas na gaita de boca. E Spencer comandando as performances, sua voz soando como um Elvis punk.
As letras no álbum de 1996 não deixam de dialogar com o universo do blues. Expressões com mais de um sentido correm soltas. O amor é algo que se implora. Já o sexo é assunto de predadores. Ter a vida enrolada não impede a síndrome de auto referência. E as palavras muitas vezes cedem lugar a gritos e sussurros: assim começa e termina o álbum, indo da euforia à angústia.
A gritaria era amplificada nos palcos. A postura de Spencer oscilava entre um menestrel provocador e um galanteador insinuante. Além da guitarra, ele interagia com um theremin, instrumento que está presente em faixas de Extra-Width e Orange, mas não em Now I Got Worry.
Em maio de 1997, em meio à tour do álbum, que em algumas datas teve a participação de R.L. Burnside, ocorre a divulgação de Controversial Negro (trazendo uma foto de Mick Jagger na capa). Trata-se do registro de um show ocorrido em novembro do ano anterior em Tucson, Arizona. Na verdade, o lançamento comercial ocorreu apenas no Japão. Mas está atualmente disponível nas plataformas digitais e dá uma ideia das performances da banda. Boa parte de Now I Got Worry está no setlist.
Recomendo, contudo, que você visite o registro visual de uma dessas apresentações. Há algumas opções disponíveis no YouTube. Comento duas. Na ocasião em que esteve nos estúdios da MTV Europe, em Londres, a performance foi até contida para os padrões da banda. Já a aparição em um programa da ABC australiana é um verdadeiro pandemônio, mesmo diante (e no meio) de um público reduzido.
A segunda apresentação ocorreu já em 1997, pouco antes da banda voltar aos estúdios para as gravações das faixas de Acme, que começaram em outubro. A colaboração com vários produtores tomou mais tempo. O trio voltaria a lançar um álbum apenas em 2002, Plastic Fang, e outro em 2004, Damage. Entraria em seguida em um hiato, voltando a aparecer com dois álbuns em 2012 e 2015, extinguindo-se pouco depois.
A Blues Explosion esteve pela primeira vez no Brasil em 2001 para participar do Abril pro Rock. E voltou em 2011. Sem a companhia de Bauer e Simins, Jon Spencer aterrissou outras vezes, a última delas em 2025.
Now I Got Worry permanece como um ponto incontornável na trajetória da Blues Explosion, que merece ser melhor conhecida por aqui. Junto com figuras e bandas como Beck, The Black Crowes, Morphine e PJ Harvey, a Blues Explosion mostra a importância do blues para o rock alternativo dos anos 1990. De diferentes formas, a música negra toca fundo nesses artistas brancos. Ou, como Jon Spencer não se cansa de repetir: “Ladies and gentlemen, the blues is number one!”.
Nota: a versão disponível nas plataformas digitais corresponde ao relançamento de 2010. Além das 16 faixas originais, inclui as cinco músicas que acompanham os singles da Mute, duas canções divulgadas em vinil e outras cinco canções inéditas, juntamente com anúncios radiofônicos que promoveram Now I Got Worry.

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).
