DIIV usa conceito cabeçudo para dar um abraço no pop

DIIV – ZIRP! (2026)
41′, 11 faixas
(Fantasy)
(4,5 / 5)
“ZIRP!”, o novo álbum dos americanos do DIIV, tem um conceito. A banda quis abraçar sonoridades pop e misturá-las ao seu som habitual, calcado numa variante bem pessoal de pós-grunge psicodélico. Para isso chamou um produtor tarimbado, A.G Cook, que, só para constar, foi um dos responsáveis pelo “álbum rock” de Charli XCX, “Music, Fashion, Film”. Se lá, Cook foi incumbido de enguitarrar o pop de Charli, com o DIIV ele veio para fazer o inverso – “popificar” a sonoridade pesada dos sujeitos, mas com uma camada a mais de significado: a ideia do DIIV é usar forças do sistemão do pop hiperconectado para gerar mutações em suas canções, falando sobre o momento atual de ganância, velocidades extremas, superficialidade e demais mazelas. O resultado é bom, mas poderia passar sem toda essa parafernália verbal. Poderia ser apenas algo como “ok, a gente quer fazer umas canções diferentes, mais simples e tal”. O que se ouve nas onze faixas de “ZIRP!” é um híbrido rock psico-pop eficiente. Às vezes soa como se o Smashing Pumpkins de “Machina/The Machines Of God” (2000) e voltasse de alguma dobra temporal alternativa e ressignificasse boa parte daquela sonoridade fluida e guitarreira. A diferença está no uso mais ostensivo de timbres eletrônicos, cortesia de Cook, que os coloca em dose suficiente para não adulterar completamente as origens do grupo.
O uso da eletrônica, dos timbres e dos temas foi muito bem engendrado pela banda e por Cook, justamente para que fosse possível sassaricar no conceito sem perder a identidade. Tudo parece em seu lugar, a mixagem é límpida e perfeita, tudo soa como deveria soar. O que era claustrofóbico e sombrio, por exemplo, no álbum anterior do DIIV, “Frog In Boiling Water” (2024), agora resplandece em tons acrílicos e limpos. As batidas e texturas vão surgindo naturalmente ao longo das faixas e não saturam a pegada do grupo, deixando espaço para os climas, guitarras e momentos de anda-e-para continuem dando a tônica. Há um detalhe interessante: o que a banda entende por “pop”, não significou, pelo menos aqui, qualquer diluição ou autocaricatura, pelo contrário. Soa como uma realm modificação sonora sem medo de abraçar detalhes e novidades. Além disso, “ZIRP!” é um álbum de ótimas composições, mostrando que o DIIV evoluiu bastante ao longo do tempo. Se em “Frog…”, o disco anterior, já era possível notar esse talento, agora tudo parece mais exposto e bem colocado.
É divertido notar como as sonoridades propostas aqui lembram os anos 1990, mas não de uma maneira óbvia, pelo contrário. A sensação que a maioria das faixas proporciona é de “e se o Alice In Chains tivesse feito assim?” ou “e se o Screaming Trees fosse por outro caminho” e “ora, mas isso aqui não é Smashing Pumpkins?”. E isso, longe de significar que o DIIV chupinhou ou abusou de referências, quer dizer que a banda entrou num raro espaço de modificação e novas ideias que carregam um dejá vu bastante confortável. “Dare Me”, por exemplo, um dos singles, parece uma cruza de versões alternativas do Screaming Trees e do Smashing Pumpkins, que flutuam num espaço estranho, turbinadas por uma levada aerodinâmica de bateria e baixo, que deixa espaço para muitas guitarras saturadas construírem uma parede sônica. Os vocais de Zachary Cole Smith, bem como sua guitarra – junto à de Andrew Bailey – fornecem a argamassa para unir tudo. A produção de Cook ainda dá um toque “dançante” em câmera lenta ao todo, num exercício de esquisitice da qual não se consegue sair. Em “The Crash”, a tal vertente Smashing Pumpkins entra com tudo, seja nos vocais à la Billy Corgan, seja nos timbres guitarrísticos, fundidos com o sintetizador, num efeito bacana, que aprofunda ainda mais a tensão.
Falando em “dança”, “Trillions” é uma das poucas faixas que têm um arranjo mais solar, mais aberto, que emula uma cruza de timbres de hyperpop com uma levada de rock alternativo noventista, algo como se as coreanas NewJeans fizessem o arranjo de uma canção do Gin Blossoms, ou algo assim. “Us Against You” é tudo o que o Muse jamais vai conseguir em sua sanha de misturar rock de espaço aberto com eletrônicos e distopia. O tom é tenso, a levada de bateria é infalível e a guitarra constrói um clima que parece prestes a explodir de tensão, o que acontece lá pela marca de 1:10m. “Evangelizer” é uma andança numa planície devastada, entre uma cidade ou outra, em busca de algo que não se sabe o que é, mas que é vital. A voz de Zachary novamente entra no modo sussurrado/Billy Corgan, conferindo um tom sinistro. E “My Star”, que surge lá pelo fim do álbum, é puro Smashing Pumpkins em alta velocidade, mas não uma das muitas facetas do grupo de Corgan – essa aqui é alternativa, nunca existiu, mas combina a fluidez de “The Everlasting Gaze” com a pegada estranha de “Bullet With Butterfly Wings”, além de ter pitacos de J. Mascis nas guitarras. Sim, é estranho, mas é sensacional.
“ZIRP!” é um disco que tem conceito, som e ideias ótimas. Confunde o ouvinte, desnorteia o crítico musical, mas dá uma sensação de sonho estranho do qual não queremos acordar. É viciante. Ouça e ame, não dá pra ser diferente.
Ouça primeiro: “My Star”, “Us Against You”, “Trillions”, “The Crash”, “Dare Me”, “Kid”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
