Estou Cansado de Morrissey

 

Sabem, estou mesmo. Eu ouço a voz lamuriosa de Stephen Patrick Morrissey desde o dia em que ouvi “This Charming Man” no rádio pela primeira vez. Sua banda, The Smiths, significava uma alternativa, dentro do próprio rock alternativo dos anos 1980. Com Morrissey e sua turma, toda uma estética visual de um tempo suspenso no ar chegou até nós, jovens do século 20, pela primeira vez. Capas de revistas, fotos em branco e preto, imagens de rapazes e moças dos anos 1950, que nós nunca tínhamos visto, passaram a estampar discos, compactos, coletâneas. E a voz…O que era aquele canto chorado, lamurioso? E as letras? Críticas mordazes à monarquia britânica, ao governo de Margaret Thatcher, que havia acabado de mandar um monte de jovens para a Guerras das Malvinas…Morrissey parecia, descontada a esquisitice, um de nós. Um desajustado, um gato borralheiro, um poeta.

 

Sua carreira solo também teve seus êxitos. O espaço de tempo entre 1992 e 1994 é seu melhor momento como cantor e compositor. Melhor que The Smiths até. Ali, entre “Your Arsenal” e “Vauxhall And I”, ele se expressou como nunca, cantou como nunca, mostrou uma capacidade de viver e sobreviver numa Inglaterra britpop/Tony Blair, em meio a um novo mundo recém-instaurado. Ele lapidou sua música, abraçou o glam rock e as tinturas do rock mais clássico e, quando parecia esgotado criativamente, lá pro fim dos anos 1990, saiu gentilmente de cena. De 2004 pra cá, quando interrompeu um hiato discográfico de sete anos com “Irish Blood, English Heart”, Morrissey não só voltou, como revoltou. Sua obsessão pelo veganismo, militância louvável e constante, deu lugar ao que, até então parecia um traço de seu humor sardônico – termo amplificado quando se leva em conta sua origem britânica – e que tornou-se tema dominante em aparições e raras entrevistas: o flerte com ideias conservadoras.

 

Isso ficou mais evidente no último disco que ele lançou em 2017, o fraco “Low In High School”, no qual havia canções como “I Bury The Living”, com mais de sete minutos de duração e o temerário verso “Gimme an order, I’ll blow up a border, Gimme an order, I’ll blow up your daughter”, que, sim, pode falar sobre a questão de termos o mundo nas mãos de quem porta e glorifica armas, mas que soa totalmente descuidado dentro contexto mundial atual. Há inúmeras pisadas na bola, quase sempre no campo opinativo político internacional, no qual Morrissey não vai muito além de um inglês típico e conservador de 50 e tantos anos de idade. Há uma faixa chamada “Israel”, no qual surge uma apaixonada saudação ao estado judeu, materializada no verso “They who rain abuse upon you, They are jealous of you as well, Love yourself as you should, Israel”, abertamente contra os boicotes culturais que muitos outros artistas defendem em relação ao país. Outra canção, “When You Open Your Legs”, a despeito do título que poderia ser de um funk proibidão, fala novamente sobre política no Oriente Médio, sempre sob um ponto de vista questionável e que sugere certa desinformação. Em seguida, num movimento contraditório, ele engata “Who Will Protect Us From The Police?”, atacando as forças policiais de uma maneira geral, dizendo de que “We must pay for what we believe, we must be killed for what we believe”, com direito a uma menção á Venezuela e a questão eleitoral no país sul-americano, a qual talvez Moz não conheça completamente.

 

Depois do disco, Morrissey foi fotografado numa apresentação em Nova York usando um bottom do Ukip, um partido de extrema-direita inglês. Há dois dias, uma das fundadoras do Ukip e o líder do partido agradeceram o apoio dado publicamente pelo cantor. Anne Marie Waters, militante anti-Islã, disse que os bottons se esgotaram em horas após a aparição de Morrissey.

 

Daí você pode perguntar e dizer: E daí? A obra do cara está acima disso.

 

E eu vou te responder: Sim, está.

 

Mas há uma diferença.

 

Morrissey é um artista cuja imagem e obra estão conectados com pensamentos e posturas que vão  contra o que defende a extrema-direita mundial. Militarismo, belicismo, preconceito, supremacia racial, defesa da indústria global de alimentos, opressão de todos os tipos, preponderância religiosa… a obra de Morrissey foi forjada sob a égide de um jovem desajustado, que cresceu numa Manchester devastada pelo desemprego e pela miséria pós-guerra. Que sofreu preconceitos, desenvolveu uma personalidade artística como meio de enfrentar o mundo e, a partir dela, gerou identificação em muitas pessoas. Obra e artista podem não se sobrepor, porém, quando uma espelha experiências e vivências culturais do outro, elas quase não podem ser separadas e compreendidas à parte. Por essas e outras, Morrissey – que lança amanhã um disco de covers de canções americanas dos anos 1960/70 – alterou seu status de velho ranzinza para um reaça, preconceituoso. Nada contra a liberdade de expressão, mas que ele não cante mais coisas como “Barbarism Begins At Home”, “The Headmaster Ritual” ou “The Queen Is Dead” novamente.

+7

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

3 thoughts on “Estou Cansado de Morrissey

  • 12 de novembro de 2020 em 15:37
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    Laerte, já te disseram que você é racista e fascista? Se não, fica dito.

    0
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  • 1 de outubro de 2020 em 13:24
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    Quem é esse!!???
    Sua opinião vale menos que uma pedra.

    +1
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    • 12 de novembro de 2020 em 12:04
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      Ele está certíssimo!! Bem faz o Reino Unido em deixar a UE antes que se transforme num curral islamico como muitis outros países ja o são!!

      +1
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