Episódio de “The Pitt” mostra a truculência do ICE
“The Pitt” é, provavelmente, a série mais legal em curso no saturado mercado de streaming atual. Vários fatores concorrem para isso: está terminando sua segunda temporada, tem roteiro, elenco e conceito ainda frescos e relevantes e uma premissa que expõe uma visão progressista de Estados Unidos, que parece sufocada – e está mesmo – em meio à presença de donald trump na presidência do país. Para quem não conhece, aqui vai um pouco de contexto. A história se passa num pronto-socorro de uma das cidades mais violentas dos Estados Unidos, Pittsburgh, situada no estado da Pensilvânia. O personagem central é o doutor Michael “Robby” Robinavitch, interpretado por Noah Wyle, veterano ator de séries, que ficou famoso ao interpretar um outro médico em série de hospital, o Dr. John Carter, em “ER” (1994-2009). Depois de tanto tempo no show, Noah e os amigos da criação daquela série, especialmente o roteirista F. Scott Gemmill e o produtor John Wells, pensaram numa nova série ambientada em hospital, dessa vez procurando dar mais ênfase à atuação dos médicos e enfermeiros em um pronto-socorro do que aos personagens em si. “The Pitt” surgiu dessa premissa, procurando mostrar um ambiente em que o trabalho das múltiplas pessoas envolvidas é mais importante do que elas mesmas. Funciona. E muito bem.
Depois de uma temporada de estreia brilhante, que foi ao ar no ano passado, “The Pitt” levou vários prêmios, como, por exemplo, os Emmys de Melhor Série de Drama, Melhor Ator (Noah Wyle) e Melhor Atriz Coadjuvante (Katherine LaNasa) e o Globo de Ouro, também nas categorias de Melhor Série Dramática e Melhor Ator (para Wyle). Esta primeira temporada foi explosiva e mostrou um elenco que se coloca inteligentemente dentro desta lógica de que o trabalho e as consequências dele são mais importantes do que as próprias pessoas. Por conta dos ótimos personagens criados por Gemmill, acontece um equilíbrio natural entre as ações e as pessoas. A dinâmica dos episódios também ajuda, visto que cada temporada corresponde a um dia inteiro de plantão, com cada episódio representando, em tempo real, uma hora deste dia. Com tantas questões bacanas surgidas nesta primeira leva de episódios, a segunda temporada de “The Pitt”, que estreou em janeiro de 2026, chegou com uma enorme responsabilidade, a de igualar o nível de tensão e brilhantismo. Parecia fadada a se tornar uma leve decepção, até que veio o décimo-primeiro episódio, exibido no dia 20 de março, pela HBO Max.
Este episódio é o ponto de mutação que tira “The Pitt” da prateleira das séries de hospital e a coloca no centro de um debate sociológico urgente. A trama escala quando agentes do ICE chegam à emergência trazendo uma mulher ferida, supostamente vítima de um acidente em um restaurante. Mas a farsa cai rápido: ela não é apenas uma paciente, é uma detida em pleno processo de apreensão. A cena é seca e angustiante; a mulher algemada, com dores e a imagem dos agentes – um deles mascarado – cortam o ambiente asséptico, adicionando ainda mais caos, e a violência institucional se materializa na forma como os agentes ignoram protocolos médicos básicos em nome da pressa migratória. É o Estado policial batendo o cartão dentro do pronto-socorro.
O impacto dessa presença é devastador e espelha o pânico que a gestão Trump imprimiu no cotidiano americano. O roteiro acerta em cheio ao mostrar a reação em cadeia: a visão dos agentes federais espalha um medo paralisante que gera uma debandada geral. Pacientes que aguardavam atendimento preferem o risco da doença à incerteza da deportação, e até integrantes do pessoal administrativo e de enfermagem começam a abandonar seus postos. O caos atinge o ápice quando um dos enfermeiros — em uma atuação visceral de um elenco de apoio que nunca fica à sombra de Noah Wyle — tenta intervir contra o tratamento brutal dispensado à mulher e acaba preso pelos agentes ali mesmo. É a imagem definitiva do braço da saúde pública sendo imobilizado pela força bruta.
O que “The Pitt” mostra aqui é uma aula de como a hegemonia se impõe pelo medo, transformando um espaço de cura em zona de conflito. Além de Wyle, que mantém aquela indignação contida de quem sabe que o sistema ruiu, o elenco brilha ao transmitir o colapso moral de uma equipe impotente. A série não precisa de trilhas sonoras manipuladoras para dizer que os Estados Unidos de 2026 estão em frangalhos; basta a imagem daquela emergência perplexa, não pela crueldade das batalhas constantes pela sobrevivência dos pacientes, mas pela presença de um elemento estranho, que vai contra as tentativas de salvar vidas contra as maiores adversidades. Contra este inimigo externo, nem toda a habilidade e a vontade dos médicos e enfermeiros daquela instituição parecem suficientes. É crítica cultural de primeira linha, que entende que, no cenário atual, manter um hospital funcionando para todos, sem distinção, tornou-se um dos atos mais subversivos da resistência orgânica.
Se a segunda temporada de “The Pitt” precisava de um empurrãozinho, este episódio deu tração extra e já projetou a expectativa em níveis altíssimos para a próxima semana. A série está em exibição na HBO Max e tem um novo episódio todas as quintas-feiras, às 23 horas. Perto de “The Pitt”, dramas médicos como “Grey’s Anatomy” e o próprio “ER” são meras novelinhas de entretenimento.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
