Marina Lima volta ao disco com “Ópera Grunkie”

Marina Lima – Ópera Grunkie
31′, 12 faixas
(Dist. Tratore)
(3 / 5)
Marina Lima é uma das grandes artistas da música brasileira em atividade. Sua carreira, pelo menos até 1995, produziu excelentes álbuns, singles imaculados, gravações verdadeiramente antológicas e influentes, situadas numa seletiva interseção entre rock, pop e uma forma arejada e bem informada de MPB, a partir da virada dos anos 1970/80. Marina teve problemas de saúde física e mental e sua voz foi transformada por essas questões, se tornando bem diferente do que era. Seus álbuns após 1995 incluiram esse dado estético e a artista seguiu em frente, com uma fiel legião de ouvintes e admiradores sempre presente. Além disso, inquieta que sempre foi, Marina se permitiu explorar timbres e sonoridades sempre sintonizadas com alguma expressão da modernidade, especialmente o pop eletrônico dos anos 1990, que serviu como uma ferramenta importante no estúdio e como meio de viabilizar suas criações. Uma constante, porém, esteve presente neste tempo transcorrido: a parceria com o irmão, o poeta e filósofo Antonio Cícero, que faleceu no ano passado, por conta de suicídio assistido, na Suíça. A decisão dele, secreta até os últimos momentos, impactou decisivamente na vida de Marina, que, segundo consta, só soube da decisão nas vésperas do procedimento. Neste clima de rearranjo e adentrando a sétima década de vida, “Ópera Grunkie” chega em meio a polêmicas.
O álbum recebeu uma crítica virulenta do jornal Folha de São Paulo, numa resenha que se referiu a ele como “o pior disco já lançado pela artista”. A alegação do resenhista foi uma suposta indefinição estética do trabalho, que “não fica nem no pop, nem no eletrônico”. A própria Marina foi às redes sociais para reclamar do tom do texto publicado, o que fez lembrar de décadas passadas, quando celeumas entre jornalistas e artistas eram comuns. Deixando de lado essa questão, o álbum tem alguns problemas, mas, a meu ver, não padece de falta de coesão ou algo assim. A obra de Marina é extensa o bastante para permitir que a artista visite por vários caminhos e estéticas, sem falar que, depois que sua voz se modificou, a busca por meios de viabilizar novas alternativas se tornou uma constante ainda maior. Por isso, não há qualquer problema em oscilar entre pop, eletrônico e outros estilos que, sinceramente, perderam a força e a pureza já há tempos. “Ópera Grunkie” é, sim, um disco bem eletrônico, sintético, caótico e esfacelado, características que me parecem totalmente intencionais por parte de Marina. Dadas as circunstâncias do país e de sua vida, em meio ao luto pelo irmão e grande parceiro, seria impossível pensar em algo distinto.
O que puxa “Ópera” para trás é uma safra não tão inspirada de canções. E um número pequeno de gravações que ultrapassem os três minutos (seis de doze), sendo que o álbum ainda traz duas quase-vinhetas, “Abertura” e “Grief-stricken”, que pouco acrescentam isoladas, mas compõem esse contexto que Marina busca no álbum. Aliás, uma das faixas mais interessantes é “Perda”, que tem sample do próprio Antonio Cícero, falando uma espécie de minibio, sobre um fundo musical de teclados e percussões, com um efeito bem interessante. Numa via paralela, mas próxima, está “Meu Poeta”, que exalta o irmão e a própria parceria dos dois. A voz frágil da cantora dá um tom sofrido que cai bem ao tom da canção, enquanto uma base sintética de sintetizadores faz o instrumental. O efeito é uma “não-música de fundo”, o que soa interessante. E há “Partiu”, uma canção própria, que Marina regrava num arranjo diferente do original (de 2013), que não soa tão necessária assim, mas não incomoda.
“Ópera Grunkie” tem dois bons momentos: “Um Dia Na Vida” e “Só Que Não”. A primeira tem participação de Ana Frango Elétrico, cuja voz aguda se harmoniza belamente com o registro rouco de Marina, mostrando um bom jogo de luzes entre gerações de artistas inspiradas e criativas. O arranjo é econômico e a impressão é de que a composição é totalmente inserida no cânone de Marina, funcionando bem. Em “Só Que Não”, é Adriana Calcanhotto que participa da gravação e divide da autoria da canção. O arranjo é mais sombrio e a voz de Marina aparece mais, conferindo um tom sempre urgente e sofrido como resultado principal. Calcanhotto é compositora importante e ótima cantora, acrescenta bastante ao resultado final, até mesmo promovendo uma maior exposição de Marina ao longo da faixa. O disco tem também alguns momentos bem fracos. “Samba Pra Diversidade” tem boa intenção, mas fracassa no arranjo mal resolvido e na interpretação de Marina, que não consegue alcançar um bom resultado dentro da proposta. E “Olívia”, a canção que antecipou o disco, consiste numa batida que emula o reggaeton sonorizando sons de pessoas conversando e interagindo numa festa. É realmente bem ruim. E o fecho do álbum tem “Finale (Brahma-Chopin)”, que vem envolta numa programação que lembra o funk melody noventista, mas que fica aquém do potencial.
“Ópera Grunkie” é um álbum que soa honesto por se dispor a mostrar uma artista em sua sinceridade e vulnerabilidade, convertendo essa atitude em força motriz. Se tivesse algumas canções mais inspiradas, certamente seria bem melhor. Mas não é ruim. Longe disso.
Ouça primeiro: “Só Que Não” e “Um Dia Na Vida”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
