Entrevistão Boogarins

 

 

Quando a gente faz entrevista aqui na Célula Pop, a ideia é trazer um extenso bate-papo com o artista. De vez em quando, a gente até acha que o resultado fica enorme, mas o nosso propósito é, justamente, pegar tudo o que é dito e deixar aqui, para fãs que e sintam acolhidos, para que neófitos venham conhecer, para ler de uma tacada ou para ler aos pouquinhos, aproveitando cada palavra. Confesso que ficamos irritados quando vemos algum entrevistado sendo econômico nas respostas.

 

Por isso gostamos tanto dessa conversa com Dinho e Rafael, dos Boogarins, uma banda que está neste enorme grupo de artistas brasileiros que encontraram caminhos próprios e chegaram a um lugar que lhes permite lançar uma coletânea de sobras de estúdio e raridades. Assim é “Manchaca vol.1”, que a gente já resenhou e, depois de gostar tanto, resolveu saber mais e mais a respeito dela e do processo criativo. E aqui está o resultado. Leiam, aproveitem, passem adiante.

 

 

 

– O novo disco de vocês, Manchaca vol.1, é o relato de uma odisseia nos Estados Unidos para tocar lá e em outros lugares. Conta um pouco disso pra gente.

Essa coisa do Manchaca, na verdade começou com a gente reunindo tudo que não tinha entrado nem no “Lá vem a Morte” nem no “Sombrou Dúvida” e a gente escolhendo algumas músicas para lançar no final do ano passado, como presente no final do ano para os fãs. Conforme a gente foi fazendo isso, ainda no ano passado, a gente pensou “Pô esse negócio dá um disco legal, vamos guardar para 2020” antes de sair para uma tour que tava começando a formar na época, para Portugal e Espanha em maio. E a gente foi, deu uma aparada nas pontas e conforme foi passando. E ai deu março e aí veio a pandemia e a gente “brecou” tudo, cancelou essa tour que a gente tava planejando pra lançar esse disco de compilação, pra dar um gás nela e a gente falou então “vamos preparar mais esse disco como um material da pandemia.

E nessa de preparar o disco como material da pandemia, a gente descobriu que não era um disco só, eram dois. E aí a gente foi, viu que tinha muita música e nessas discussões sobre as músicas a gente foi amarrando as ideias. Que esse disco servia exatamente, como a pergunta fala “pra contar melhor essa aventura nossa, que desde 2014 a gente faz tour no exterior, em 2016 a gente começou esse processo de gravar em Austin sendo no primeiro momento em uma casa, que a gente deu o nome de Manchaca, era manchaca sempre que a gente falava da casa “lembra do tempo da Manchaca e tal”? Então é por isso que é esse nome, é a rua e a casa onde ficava o estúdio. E depois teve esse segundo momento, da gente indo pro estúdio e gravando mais profissional; e todas essas gravações que a gente tá soltando fazem parte desse, vamos dizer “Universo criativo” que deu luz a esses dois últimos discos, o “Lá vem a morte” e o Sombrou dúvida” .

Então, pra gente, esse disco, essa compilação, essa coletânea, por mais que sejam músicas novas, que ninguém ouviu, acho que quem não conhece a banda fica curioso para ouvir os outros discos, né, o “Lá vem a morte” e o “Sombrou dúvida”, até os primeiros. Essa atmosfera dele, dessas gravações bem Lo-fi, que remetem muitas coisas da “plantas que curam” e a pessoa que já conhece fica ouvindo essas músicas novas vendo semelhanças com os discos que já saíram. Acho que é esse o nosso propósito com o Manchaca, que é contar melhor essa história, porque en tour a gente não tem, a gente não teve a calma que a gente tá tendo pra contar isso, que a pandemia traz, que a gente não tá na estrada, a gente tá em casa, montando o site bonitinho, com história, com foto e tudo. Então eu acho que a droga da pandemia: a nostalgia e a esperança. Vamos lá.

 

 

– Qual foi o critério para escolha das faixas do álbum?

 

Como eu disse, era muita coisa que acabou não entrando, demos que a gente mostrou e acabou não conseguindo gravar como as outras músicas, tem muito material dentro desse espectro maluco que o próprio nome diz “demo, outtakes” é muita coisa assim que a gente botou. Então o critério foi a gente pegar as coisas mais prontas, que soavam, e que a gente sabia que o fã ia gostar, por exemplo “Inocência” e “Tanta coragem” que o Rafa gravou sozinho e mostrou pra gente e fica muito difícil reproduzir e regravar elas.

O tempo passou e elas envelheceram no nosso ouvido e a gente pensou “Pô elas tem que sair assim mesmo” depois a gente se vira e faz uma versão de banda ao vivo” e ^po foi elas duas. Ao mesmo tempo que tem faixa como a versão de “make sure your heads is above” que é só eu tocando guitarra e é a primeira vez que eu toquei a música inteira assim gravando para mostrar pros meninos depois da gente fazer uma oficina maluca de fazer música em ingles que o Gordon propos. E ai eu fiz essa, esse áudio, e os meninos “Po vamos botar aquele áudio e eu mas é muito tosquinho”, e eles “não a gente acha bonito, vai tocar os fãs e tal”. Então o critério foi esse, de pegas as faixas que a gente tava apaixonado, que a gente vinha ouvindo na van, que a gente sempre ouviu, que a gente sabia que existia e sempre teve vontade de mostrar pro nosso publico. E ai nisso deu um trabalho, tanto que a gente teve que fazer mais um volume pra colocar tudo que a gente gosta e que a gente quer mostrar pro pessoal.

 

 

– “Manchaca vol.1” é uma coletânea e isso é legal porque o formato meio que sumiu a partir da chegada dos streamings. Vocês mostram que dá pra ser original e manter o formato. Vocês curtem coletâneas?

Eu gosto muito, eu acho que, por exemplo, o formato de coletânea sumiu com os streamings, mas a coisa da playlist é muito legal, tem gente que brinca que é a geração que não escuta álbum inteiro, é a geração que escuta playlist. Eu acho que o Manchaca tem um pouquinho disso, como se fosse uma playlist do Boogarins.

É uma playlist dessas músicas que só a gente ouvia e que agora tá botando po pessoal ouvir.. Eu acho coletânea super legal, eu tenho uma coletânea que se chama “Nuggets” que junta várias músicas sei lá, psicodélicas dos anos 60, das garagens dos anos 60, são quatro volumes. A partir dessas coletâneas eu fui atrás de muito som. Eu sou muito fã de coletânea porque você escuta ela e depois vai atrás de coisas assim. É uma droga que depois abre a porta pra outras drogas. Mas é isso, eu não sei se streamings diminuíram as coletâneas, porque a playlist chega quase como uma substituta com outro nome, assim.

Claro que de características diferentes, a essência da coisa é diferente, mas eu acho que o pessoal que tá muito acostumado, que já chegou nessa geração de streaming assim entende a coletânea assim como entende a playlist assim como entende de álbum inteiro, eu acho que o negócio é você conseguir furar a barreira, a casca da sensibilidade, da empatia das pessoas com a sua música. Seja lá como você vai fazer isso, tem muitas formas e fazer isso. E eu acho que a gente faz isso legal com essa estranheza, essa originalidade, com as texturas das músicas. Com o show forte que faz a pessoa ouvir depois. E eu torço para que essa coletânea/playlist Manchaca, fique na cabeça da moçada. Que faça ouvirem mais Boogarins, mais música e consumir mais música maluca assim.

 

 

– A gente adorou muito uma música chamada “Inocência”. Conta um pouco a história dela?

 

“Inocência” é uma música singela e simples que eu também acho muito bonita. Eu gravei ela depois de ter ganhado uma calimba do Benke, de presente, um presente que ele me trouxe de uma viagem que ele fez pra Europa, sem a banda e ai ele tinha me encomendado uma música. E nessa época, o que eu fiz foi que eu gravei dois acordes de violão que ficou tocando em looping e eu tocava calimba por cima pra fazer as partes da música assim, de modo que eu meio que dividi ela em tres na minha cabeça. E depois eu comecei a improvisar de voz em cima. A melodia e a letra veio tudo junto assim, acho que veio de uma conversa que tava meio reverberando assim na minha cabeça naquela semana que é um desses papos que a gente não consegue se fazer entender, quando duas pessoas conversam e fica assim um trem que não vai, um impossível de exprimir mesmo.

E era meio que esse impasse que tava na minha cabeça enquanto eu cantava assim. De um papo bem profundo que não chegava a lugar nenhum. E ai depois eu mostrei pros meninos, coo é que tava a música, porque eu achei que a gente ia colocar mais coisa por cima, mas todo mundo gostou dela assim, vazia desse jeito. Que só tem três elementos mesmo alem da voz, e foi assim que ela ficou. Eu optei também por nem gravar baixo e deixar ela assim bem cruazona, porque realmente ela tava parecendo pronta, então foi um outro presente pra mim também. Essa música ter chegado desse jeito.

 

 

– “Sombrou Dúvida”, de 2019, é um disco que já aponta para alguns novos caminhos na sonoridade de vocês. Como foi o processo de gravação dele?

 

O processo de gravação do “Sombrou dúvida” e do “Lá vem a morte” e o que a gente tá chamando de Manchaca agora, e lançando é a mesma história, é essa coisa de a gente ir, em 2016, pra Austin, pra uma casa, alugar equipamento, gravar por conta própria, montar ali onde eu e o Benke dormíamos, ali era a técnica. O quarto onde o Ynaiã e o Rafa dormiam era onde ficava a bateria e meio que uma sala onde a gente fez voz e outras coisas. E depois, em 2017, a gente fez uma outra viagem e daí já gravou em estúdio outras coisas. Em 2018 fomos pro estúdio de novo e fomos amarrando essas histórias.

Acho que dessa sessão de 2016, da casa, saiu tudo que é o “Lá vem a morte”. E no “Sombrou dúvida” dessa fase da casa que é o “Te quero longe” e “Invenção” e a segunda parte de “Invenção” a gente já fez em estúdio, mas é uma música que começou nessa parte de 2016. E o resto das faixas ficam divididas entre essas sessões de 2017 e 2018 no Space Studio em Austin, que era o estúdio grande que ficava do lado da casa.

Então eu acho que pra mim o processo de produção do “Sombrou dúvida” que é esse processo desde 2016, a gente pegando essa coisa de banda, banda que toca muito ao vivo, banda que toca muito de improviso. Que a gente foi fazer a tour divulgando o “Manual” que é o nosso disco de 2015, quando o Ynaiã entrou na banda e tava expandindo muito as músicas. De 3 ou 4 minutos, elas viravam 11. E eu acho que no “Lá vem a morte” e no “Sombrou dúvida” a gente conseguiu condensar as músicas.

Eu digo isso muito que antes a gente fazia uma música pequena ficar gigante, colocando fritação, improviso e instrumental gigante e a gente foi aprendendo a como condensar isso dentro das próprias músicas, e daí quando compara um show de 2015 com o de agora, onde a gente vai tocar muito mais canções que é aqueles momento de dinâmica maluca, de improviso, da estrela de cada um brilhar ali na performance, ele já ta incorporado nas músicas. Eu acho que esse foi um processo mesmo, da gente conseguir transitar melhor entre essa coisa de improviso e canção formato livre, formato fechado assim. E eu acho que o processo de gravação do “Sombrou Dúvida e do “Lá Vem a morte” tem esse amadurecimento da banda, não digo nem amadurecimento, eu falo melhor que é como se a gente tivesse se lapidando mesmo, cada vez mais buscando ficar melhor dentro dos nossos processos criativos e não deixar ele desgastar, fazer ele abrir novos galhos mais rápido assim, sabe? E fortalecer eles como um todo e não ficar muito tempo fazendo uma coisa até cansar. A gente já vai correndo e pulando de galho em galho.

 

 

– Olhando pra discografia de vocês, dá pra notar uma evolução em termos de como a banda filtra as influências e se apropria delas, a ponto de ouvir e saber que é Boogarins logo de cara. Como vocês analisam o trabalho da banda ao longo desse tempo de carreira?

 

Eu acho que a gente começou com dois meninos que eram amigos de ensino médio,  que já tocavam, tinham banda, tava ali naquela cena efervescente de Goiânia, de ver muito show, de estar com aquela coisa de “a banda precisava gravar, tem dificuldade de gravar, pra fazer show”. Ter banda em Goiânia era sobre fazer show. E quando eu e o Benke nos juntamos para gravar, a gente ainda tava aprendendo.

A gente evoluiu muito isso, né. Na minha cabeça continua uma banda que grava a serviço da canção, é a mesma coisa que a gente faz. A gente pega um improviso maluco e faz ele virar canção. Faz o arranjo ficar a serviço da canção. Dá voz, do jeito de cantar, meu, do jeito de cantar do Benke, do jeito de cantar do Rafael, do jeito do Ynaiã tocar bateria, vai servindo a música com o que cada um tem de melhor.

E a gente faz isso desde as primeiras gravações, onde a gente não tocava tão bem, não tinha essa coisa, essa coisa técnica tão aprimorada e nem sabia como gravar as coisas. A gente tava ali e como tudo tava a serviço da canção, eu acho que funcionou e soava bem para quem ouvia, o pessoal sempre gostou. Depois desse processo de ser amigo de ensino médio, se gravando em casa e fazer mais de cento e cinquenta shows, como a gente fez em 2014, a gente virou essa banda do ao vivo, que toca muito, e fomos misturando e trazendo isso pras canções, trazendo isso para o estúdio. Eu acho que a gente é uma banda que se aproveita muito da situação. E pra ver hoje o tipo de música que eu escrevo, minha cabeça para fazer música, a cabeça do Benke para montar arranjo, das nossas tocadas ao vivo, a cabeça dele como produtor, o disco que ele produziu do Giovani Cidreira e várias outras coisas que ele vem fazendo é muito incrível, sabe?

O Rafael mesmo, essas duas canções dele que estão no Manchaca são muito bonitas, e ele está fazendo outras muito mais belas. Ele já tinha muita canção bonita na época do Luziluzia, mas eu acho que, eu vejo meus amigos crescendo muito, a gente cresce muito junto, sabe? Eu tenho certeza quando eu chego com uma música agora nova pros meninos, eles sabem. Na verdade toda vez que eu cheguei com música pra eles, eles vêem eles nas coisas, eles sentem que tão crescendo juntos. Então eu acho que, eu analiso esse trabalho, esse crescimento, essa evlução que você mencionou na pergunta, como essa coisa de aproveitar as coisas que aparecem da melhor maneira.

E como eu disse na outra pergunta, pulando de galho em galho, evoluindo, indo atrás do melhor jeito de fazer música. Levando tudo como um exercício que faz a gente crescer. E você sente o crescimento. A gente escuta um trem que a gente faz novo e “esse bagulho é foda”. E isso acontece até com essas coisas antigas, tipo ouvindo essas do Manchaca, que a gente gravou há tento tempo e a gente tá lançando agora, a gente já ouve e conhecia e “poxa vida, além daqueles dois discos isso tava no nosso bolso”. Isso é muito fantástico, eu fico muito feliz e o Manchaca, apesar dele estar ai, como fechando esse ciclo, na verdade deixa a banda toda num gás, de fazer coisa nova, de ver o tanto que a gente conseguiu realizar nessa carreira nossa de sete anos de banda.

 

 

– Vocês são de Goiânia, uma cidade que tem muitas bandas legais. Como está a cena da cidade? Qual banda/artista conterrânea vocês recomendam?

Goiânia é muito maluco, é uma cidade que tem várias fases, de ondas de diversos estilos. Vai ter uma coisa muito garage maluca, anos 90, nos anos 2000. E dos anos 2000 essa coisa de garage se afirma. E sempre essa galera do punk rolando, sempre junto com tudo isso que tá acontecendo, que eu vou falar. Como eu tava dizendo antes, dessa coisa do Stoner, essa coisa mais pesada e ao mesmo tempo uma galera fazendo uma coisa mais em português. Música brasileira, se estruturando, crescendo, ficando mais forte. tem várias bandas desse jeito, então pra citar alguns exemplos desses, além do Carne Doce, de BRUNKS, de Bruna Mendes, eu imagino que vocês já conhecem, são nomes mais conhecidos. Nessa coisa regional, de música brasileira, tem o Erotori, posso mandar depois uma listinha de links, super bacana, música brasileirona mesmo assim mil grau, com percussão, com muito elemento mais “raiz” vamos dizer assim.

O Ave Eva, um grupo da minha irmã que também tem essa coisa mais regional. Tem os meninos que agora não consigo lembrar, eu sempre me confundo, mas mando na listinha, é um duo lo-fi psicodélico, que faz um som parecido com a gente, super legal. Eles lançaram um disco pelo Honeybomb, um selo de Caxias. Isso é super legal, ver uma banda de Goiânia atingindo, lançando músicas cm outros selos legais, de fora, que são os lugares onde a gente vai tocar.

E tem o Pink Opala que é um projeto novo do João, do Carne Doce, com a Natali , a namorada dele, qe tão lançando o som agora mesmo, super recente, super bacana. Acho que já são uns quatro nomes legais. E vou falar dos antigos também, que tem o Galo Power que tá com 13 anos de estrada, a gente tocava muito juntos no começo. E eles são essa linha variante, essa linha que fica no meio entre o stoner, pesado e essas coisas mais psicodélicas, eles já estavam mais nessa coisa de rock 70, Brasil. Eles tinham muita música em inglês, eles lançaram, eles estão nesse processo de lançar em português, mas é pesadão, rock bem tocado, pra quem gosta de rock é fantástico.

 

 

– A sonoridade de vocês é tanto psicodélica quanto lo-fi. Quem vocês citam como influências?

 

A gente cresceu muito, acho que a nossa influência mudou muito nesses anos todos de muita tour maluca assim. Quando a gente começou, eu e o Benke, era muito essa coisa do que tava rolando na época, de gravação esquisita e estranha legal, americana, americana não, alternativa, assim.

Nessa coisa de lo-fi, era fã irredutível do Júpiter Maçã, de Mutantes, essas coisas assim, essas coisas anos 60. A gente também tava ouvindo muito o que era novo, do que o pessoal estava tentando fazer. O Benke era muito apaixonado por umas gravações de Unknown Mortal Orchestra, do timbre assim, do Tame Impala, essas coisas. Então a gente ouvia tudo isso e, conforme o tempo foi passando, a gente foi ficando mais maluco, fritando nuns jazz maluco, aprendendo mais sobre essa coisa de som experimental e indo atrás. Então essas perguntas de influências a gente sempre fica muito maluco, porque é claro que os meninos piram muito em Clube da Esquina, mas é óbvio que tem umas coisas estranhas que a galera pira também, mas pelos timbres, pelo som. Então eu acho que eu gosto mais de conversar, quando fala de influência, falar sobre o som, sobre as coisas, do que realmente falar nomes, porque eu fico meio perdido e fico jogando de um lado pra outro aqui. Mas eu acho que eu consegui falar um pouquinho aqui.

 

 

– Como vocês estão vendo esse período de quarentena? Dá pra ser produtivo ou a tensão é maior?

 

Cara, a tensão é grande, é muito cabuloso, a incerteza. Mas a gente não pode deixar isso engolir. Tinha muito tempo que a gente não ficava parado em casa, como eu disse, a gente tá nesse fluxo de fazer tour ha muito tempo, é muito maluco. Fazia tempo que a gente não parava. Então de uma certa forma a gente tá meio que aproveitando isso e fazendo muita coisa, gravando, terminando música.

O Benke produzindo outras coisas, o Ynaiã se concentrando para ter o espacinho dele, fazendo outras coisas, para conseguir entrar nesse processo de produção. Eu acho que a gente tá se arrumando. Aproveitando esse break das tours, essas férias forçadas para se organizar essa coisa da vida privada assim mesmo. Porque antes a gente só via um ao outro, só pensava na tour, só pensava na banda, essa vida de estrada, não parava muito. Então a tensão é grande, nessa coisa de pensar no futuro, mas quando a gente olha o agora a gente quer arrumar coisa que a gente tava há muito tempo parado. Então é um misto assim. Mas a gente sempre tenta tirar o melhor com todas essas situações nessa vida, como disse nas outras perguntas.

 

 

– E como vocês vêem a postura das pessoas diante da covid-19? Ficam em casa, saem de casa, como fica isso?

 

A gente tenta se cuidar, né? É muito difícil você tentar dizer para outra pessoa o que é melhor pra ela, sendo que você vai olhar um ônibus e ele tá cheio de gente que precisa trabalhar, se pondo em risco para conseguir viver, para conseguir ir atrás do que precisa. Eu não vou conseguir julgar alguém que tá no corre, que tá no dia-a-dia. Acho que quem pode ficar em casa, fica em casa, quem não pode, que tome o maior cuidado possível. Acho que é, se cada um cuidar do seu, prestar atenção em si mesmo, já é um grande passo. Conseguir fazer tudo com o máximo de precaução, isso aí já é o foco.

Acho que se você quiser cuidar da vida de alguém, compra um gato e dá ração pra ele, olha, cuida a caixinha de areia dele. Mas cuidar da vida dos outros é complicado. Acho que a gente, quando cuida de si mesmo, nesse caso da COVID, quando presta atenção, não vacila, você já tá, já é um ato de responsabilidade muito grande que já é o bastante, agora, condenar quem sai, condenar quem não tá fazendo, sei lá, não sei o que tá na cabeça de cada um pra lidar com essa situação, como disse, pode ser muito tensa pra alguém, imagina.

Tem gente que a casa é um inferno, tem gente que a casa é um começo de três metros por três metros, e como fica em casa? É muito maluco mesmo, acho que cada um tem que fazer o que está dentro do seu alcance e torcer. Ter fé para a gente sair dessa logo. E é claro que torcer também para essas coisas… Claro, a gente vive em um país maluco, tem uns governantes que tão sem saber o que fazer, o presidente que fala merda toda hora.

Então é complicado, às vezes a gente toma pra si essa postura de querer educar as pessoas porque tem uma grande onda de desinformação acontecendo no país, é complicado dizer o que os outros vão fazer. A gente torce pra isso, pra coisa organizar, para vir uma luz de não sei de onde, de botar um bom senso na cabeça de quem tá à frente, nesses cargos de governo para melhorar as coisas pra nós, porque é ruim ficar esperando dos outros e não vir nada.

Por isso que eu sempre fico nessa de “pô, eu tenho que começar por cada um, porque se cada um cuidar, fazer tudo que ta dentro do alcance, já vai ser um passo gigante. E a gente tem tentado, a gente fez um grande encontro agora nosso, pra gravar uma live, pra gravar duas lives e a gente tá sendo super cuidadoso, ficando em casa separados, apesar da saudade, nos cuidamos, ficamos de máscara ali e é isso. A saudade é maior, a gente é amigo próximo, ve o outro e já quer abraçar, mas tem que ter consciência nessas horas. Eu acho que paciência é tudo se cuidar, tentar ter essa cabeça de que se cuidando você ta cuidando do próximo, é a melhor coisa agora.

 

 

– Mesmo com essa pausa nos shows, o lançamento de “Manchaca vol.1” mostra que vocês estão ativos. Quais os próximos planos para este resto de ano? Vai ter o “volume 2”?

 

Sim, vai ter o Volume 2, a gente tá aparando as pontas dele e mais coisas. A gente tem muita gravação, muita ideia, a gente ficou de ajeitar o site, de conseguir reunir entrevista, texto, fotos, a história da coisa mesmo dentro de um site que seja nosso. Uma coisa mais nossa do que essa coisa frenética que são as redes sociais.

Claro que a gente não vai sair das redes sociais, hoje em dia não tem como. Mas a gente tá fazendo essa coisa de correr com as duas frentes. E foi o que eu falei, estamos esse ano usando para nos organizar e fazendo todo tipo de lançamento que a gente dá conta, sabe. O Rafael vai lançar um projeto novo com a Alejandra, que é a parceira dele que também faz som pra gente, chamado “Carabobina” esse ano ainda. O Benke tá nessas de produzir várias outras bandas, acho que ele já mixou o disco de uma banda inteiro, acho que rolou também o “Mano Mago”, do Giovani Cidreira e do Mahal, que ele mixou as músicas, ele tá participando nesse lado de produção e mixes ai.

Eu fiz participação em uma porrada de lançamentos que tão rolando com outros artistas; Betina, fiz um vídeo e lancei uma música no disco novo da Winter, da Samira. Uma música com uma banda instrumental super bacana do Recife chamada Kalouv, botei um verso, acabei com a onda deles de ser só instrumental. O Rafael gravou uma música com Vitor Brauer do Lupe de Lupe, de um disco solo dele.
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Então a gente vai se enfiando, vai fazendo parcerias, vai produzindo. E também vai ter o volume 2 então tem mais ideia pra soltar com o Boogarins. Acho que apesar de não ter show, a gente mete o louco, a gente é muito bom nessa coisa de produzir e de gravar coisa e de aproveitar coisa que a gente já tinha gravado pra fazer coisa nova. Então acho que não importa o cenário, a gente vai tá fazendo música. E espero que o nosso público esteja sempre aberto para receber o’que a gente tá fazendo. E tem se mostrado aberto, muito sedento de coisa nova.

Porque o tempo é sinistro, mas a música surge muito como uma coisa que traz luz pras ideias, como panaceia. Como eu falei no começo, que a nostalgia é a droga da quarentena, mas essa coisa , o novo, também é a esperança, também é. Por isso acho que dá pra ir lançando material e fazendo coisa enquanto tiver ideia na cabeça e tem e muita. Não tem jeito, de todos nós da banda.

E eu vejo: a maioria dos artistas do Brasil tá assim, com fogo nas ideias, porque a gente precisa disso.

 

 

– Pra terminar: como fazer pra driblar o atual momento do Brasil?

 

Precisa de coragem. Muita coragem e criatividade que é o forte da nossa nação. Tem que mostrar que isso é maior do que essa onda de insensibilidade, de ignorância que toma conta da coisa. Eu acho que muita gente, que tá nessas ondas erradas, tendo contato com as ideias certas, vai virar o jogo, sabe?

Eu acho que o nosso trabalho através da música, além de expressar as nossas ideias, é conseguir trazer essa luz, essa luz que alcança, não importa a barreira que estiver na frente, se é parede, se é vidro, se é´ideia errada, se são anos e anos de ideia errada.

Eu acho que a música, como várias outras manifestações artísticas e culturais, ela está aí para furar, pra mexer com a sensibilidade das pessoas. E a gente tá aí para isso, pra dar força, pra trazer essa força, pra gente conseguir passar, por que é. A gente fala com alegria, que estamos trazendo o lançamento, fazendo música nova para ter esse espaço de ficar respondendo entrevista, falando sobre nossas músicas, é muito bom.

É muito animador, mas o momento é meio, meio não, totalmente obscuro, é incerto. Mas a gente, como eu disse, é coragem, criatividade e esperança. Quando falo em nostalgia é essa coisa de entender o que aconteceu e ver o que tá acontecendo para conseguir ver um futuro melhor, né? E com certeza essa coisa da música, da arte, da cultura, ela é o que traz paz, é ela que dá o sustento para o caminhar melhor, para um futuro melhor. E eu acho que a gente precisa disso.

E fechando, obrigado pelo espaço, pelas perguntas. Muito legal vocês tuitarem que “Inocência” é uma das melhores músicas desse 2020 estranho, porque realmente…. É bom saber que essas músicas novas estão chegando assim para as pessoas. Deixa a gente com mais… ver que as pessoas tão com sede de música, isso alimenta a nossa sede de produzir cada vez mais. E é super legal ver que as coisas estão chegando, mexendo com o outros, que isso ajuda, incentiva a gente a se mexer mais.

 

 

 

*colaborou Ariana de Oliveira

** crédito da foto: Valéria Pacheco

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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