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Compilação tripla mapeia incursões recentes de Paul Weller na BBC

 

 

 

Paul Weller – Weller At BBC vol.2
56′ + 64’+ 58′, 48 faixas
(Interscope)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

A trajetória de Paul Weller é um exemplo raro de vitalidade na música britânica, onde o passar dos anos não significou repetição, mas uma busca constante por novas linguagens. Não por acaso chamado de “Modfather”, ele atravessou décadas traduzindo as tensões e os humores do Reino Unido, desde a energia direta do The Jam até a sofisticação experimental de sua carreira solo. Para compreender a importância de “Weller at the BBC, Vol. 2”, é fundamental notar a ligação profunda que os músicos britânicos mantêm com as sessões de rádio da rede estatal. Ao contrário dos álbuns de estúdio, que permitem correções e refinamentos às vezes exaustivos, as gravações na BBC exigem um senso de urgência e entrega imediata, onde a canção precisa se impor apenas pela qualidade da composição e pela verdade do momento. Este segundo volume organiza de forma primorosa um dos períodos mais criativos de Weller, revelando um artista que, mesmo com um legado consolidado, mantém o entusiasmo de quem ainda tem mensagens essenciais para transmitir.

 

Neste conjunto de gravações, Weller ignora classificações rígidas para transitar entre o soul psicodélico, o folk de tom pastoral e um vigor rítmico inesperado. O disco reúne momentos inspirados de sessões realizadas entre 2005 e 2012, fase em que ele se permitiu ousadias em álbuns como “22 Dreams” e “Sonik Kicks”. A fluidez dessas apresentações permite que faixas consagradas de outros períodos, como “Wild Wood” e “Out of the Sinking”, convivam de forma natural com a eletricidade direta de “From the Floorboards Up”. É notável como ele aproveita o espaço radiofônico para testar arranjos: em “7 & 3 Is the Striker’s Name”, o que surge é um ataque de guitarras e batidas que sugerem o ritmo acelerado das cidades, enquanto em “Sea Spray” ele prefere uma atmosfera onírica, evidenciando a diversidade de suas referências.

 

Um aspecto fundamental deste registro é a capacidade de Weller de conferir calor humano a elementos tecnológicos. Mesmo nas canções de “Sonik Kicks”, marcadas por sintetizadores mais frios e baterias eletrônicas, a performance ao vivo na BBC traz uma vibração que retira qualquer impressão de frieza, transformando o som em algo orgânico. Músicas como “Starlite” e “The Changingman” ganham uma intensidade nova, reforçando que Weller evita se tornar um intérprete acomodado do próprio passado. Ele maneja seu repertório com uma liberdade que permite ao baixo e às harmonias vocais — detalhes muitas vezes secundários em audições rápidas — ocuparem o centro da cena, guiando o público por um mosaico de influências que passam pela soul music da Motown e pela experimentação do krautrock.

 

A habilidade de Weller em interpretar obras de outros autores e revisitar sua própria trajetória é um dos pontos altos do álbum. Ao abordar um clássico como “Time of the Season”, dos Zombies, ele realiza uma releitura elegante que respeita a essência da canção, mas com a urgência de quem a canta hoje. Weller transpõe a psicodelia de 1968 para o estúdio da BBC com uma voz que ganhou peso e maturidade emocional com o tempo. O cuidado com os arranjos vocais e as harmonias permite que a música transite suavemente entre o soul e o folk, criando um momento de extrema qualidade técnica, ainda que a base seja essencialmente acústica. E o homem ainda prova que está de olhos e ouvidos atentos à modernidade. O que dizer de sua versão surpreendente para “What Was I Made For?”, de ninguém menos que Billie Eilish? A canção que fez parte da trilha sonora de “Barbie”, uma balada dilacerada e delicada, ressurge num arranjo equivalente, mas com uma interpretação totalmente diferente e forte. Essa mesma renovação/curiosidade acontece quando ele resgata temas do The Jam e do The Style Council, período de sua carreira focado na elegância rítmica.

 

Ao trazer essas faixas para este contexto, ele as transforma de tal maneira que parecem saídas diretamente dos grandes estúdios de soul americanos. Canções como “Start!”, “Shout To The Top”, “Headstart For Happiness” e a excelente “My Ever Changing Moods”, originalmente marcadas pelo brilho dos sintetizadores oitentistas, agora surgem com uma força renovada. O baixo e os ritmos eletrônicos ganham vida pela interpretação visceral típica das sessões da rádio britânica. Essa transição entre diferentes épocas revela um músico que se recusa a ser meramente nostálgico, preferindo reconstruir seus sucessos de juventude com seriedade e espírito de experimentação. Para quem ouve com atenção, estas versões são exemplos de como um artista pode usar o palco para conectar o rigor técnico a uma entrega absoluta.

 

“Weller at the BBC, Vol. 2” mantém o alto nível do volume anterior e demonstra que Paul Weller não apenas preservou seu lugar no cenário musical, como expandiu sua relevância e talento. É uma sequência admirável de grandes canções.

 

Ouça primeiro: “What Was I Made For?”, “Start!”, “Shout To The Top”, “My Ever Changing Moods”, “Wild Wood”, “Time Of The Season”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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