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As crônicas solitárias do cotidiano de Giancarlo Ruffato

 

 

 

 

Giancarlo Rufatto – Gospel Irônico
35′, 8 faixas
(Independente)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Para entender o novo disco de Giancarlo Rufatto, é preciso olhar para a sua caminhada na música independente brasileira. Compositor, cantor e multi-instrumentista, Rufatto construiu uma carreira baseada na observação atenta do dia a dia, transformando situações banais em crônicas musicais fortes e honestas. Sua trajetória é marcada por uma produção abundante, quase sempre no estilo “faça você mesmo”, o que garante aos seus trabalhos uma autenticidade indispensável. Ele faz parte daquela linhagem de artistas que não buscam o brilho artificial das grandes produções, preferindo focar na força da composição e na verdade da interpretação. Ao longo dos anos — passando pelos tempos de Lo-Fi Dreams, pela Hotel Avenida e chegando à carreira solo — Giancarlo se consolidou como uma voz que fala sobre a vida na cidade, as pequenas frustrações e as grandes buscas humanas, sempre equilibrando o espírito indie com uma música popular feita com o coração, sempre inspirada em gente como Bruce Springsteen, Wilco, soul do fim dos anos 1960 e sertanejos raiz.

 

Com o lançamento de “Gospel Irônico”, essa identidade atinge um novo nível de profundidade. O álbum foi inteiramente gravado em casa, fazendo uso de um computador com mais de duas décadas de existência, uma escolha que borra as fronteiras entre a falta de verba e o manifesto estético. Ao usar uma tecnologia considerada ultrapassada, Rufatto confirma no disco uma sonoridade lo-fi que é, ao mesmo tempo, fechada e acolhedora, sendo também sua marca registrada. O som tem texturas, chiados e imperfeições que servem como a moldura ideal para letras que exploram a fragilidade da fé e os mistérios da vida. Esses temas aparecem no café da manhã, na padaria da esquina, no metrô lotado a caminho de casa no fim do dia e, para entender isso, a faixa de abertura, “São Paulo, sete horas da manhã” é um ótimo exemplo. É um disco à surdina, que desafia o consumo descartável e a perfeição digital, convidando o ouvinte a valorizar o grão da voz e a pureza da ideia acima de qualquer polimento de estúdio.

 

O título do disco pode parecer provocativo, mas é uma investigação sensível sobre o que significa acreditar no impossível em tempos tão céticos. Rufatto mergulha no “temor cristão” sem pensar nas instituições religiosas, trazendo a discussão para um campo humano e individual. Ele usa símbolos do evangelho para falar da angústia de estar vivo e da esperança que surge quando menos se espera. Em faixas como “O livro das revelações”, o compositor joga as profecias bíblicas para a realidade dura do asfalto, separando o sagrado do profano através de detalhes simples do cotidiano. É uma ironia fina que desmascara as hipocrisias do dia a dia enquanto busca algum conforto espiritual ou intelectual.

 

A estrutura de “Gospel Irônico” funciona como uma leitura, onde as oito faixas parecem capítulos de um livro. Músicas como “Desde que Jesus voltou pra cidade” e “Todas essas canções no meu rádio espantam o diabo de perto de mim” mostram como Giancarlo consegue ser profundo sem usar palavras difíceis. Ele fala de janelas, rádios e sombras de um jeito que qualquer pessoa entende, mas com uma carga emocional que faz parar para pensar. E também há um traço interessante em que o autor não pouca o seu eu-lírico de críticas e apontamento de fraquezas, tendo a bela “O único poema que escrevi” como bom exemplo. Em “Eu nunca fui um Rolling Stone”, o álbum atinge um momento de reflexão romântica árida, onde Rufatto faz um inventário emocional sobre o que fez e o que deveria ter feito, em um estado de espírito que não é tristeza nem alegria, mas pura resignação. O encerramento com “É só o tempo” amarra tudo com uma melancolia agridoce, lembrando que a vida segue seu fluxo e o tempo é o único juiz das nossas certezas.

 

“Gospel Irônico” é um trabalho maduro e corajoso que reafirma Giancarlo Rufatto como um nome essencial da canção independente atual. Para uma experiência completa, vale a pena acessar o Substack do autor e ler seu diário de gravação, onde ele explica a concepção de cada faixa.

 

Ouça primeiro: “Eu nunca fui um Rolling Stone”, “O único poema que escrevi” e “São Paulo, sete horas da manhã”.

 

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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