Os quarenta anos de “Tango”, de Charly Garcia e Pedro Aznar

A história do rock latino-americano possui capítulos que, por força de barreiras linguísticas ou meras contingências de mercado, acabam permanecendo como segredos bem guardados para o público brasileiro. Um dos mais brilhantes é, sem dúvida, o projeto “Tango”, lançado em 1986, por Charly Garcia e Pedro Aznar. Esta parceria não surgiu do vácuo; ela é o amadurecimento de uma conexão profunda iniciada na Serú Girán, a banda que, entre o final dos anos 1970 e início dos 1980, foi apelidada de “The Beatles da Argentina” pela sua capacidade de unir sofisticação progressiva e apelo popular sob a sombra da ditadura. Após o hiato do grupo, Aznar e García mantiveram o diálogo criativo, colaborando em momentos pontuais da trilogia solo de Charly, como em “Clics Modernos” (1983), onde Pedro já emprestava seu baixo preciso e sua percepção de arranjo a clássicos como “Nos siguen pegando abajo”. No auge de sua efervescência criativa, Charly García, reuniu-se com Pedro Aznar, que havia acabado de retornar de uma temporada de prestígio internacional com o Pat Metheny Group. O resultado não foi apenas um disco de colaboração, mas uma intervenção estética gravada no coração de Nova York, no lendário Unique Recording Studios, que buscava redefinir o que significava ser um artista sul-americano diante da tecnologia global. E tudo começou com Charly telefonando para Pedro e falando: “A gente bem podia fazer algo juntos, né?”.
O disco surgiu em um momento em que a Argentina ainda processava as dores do passado e a euforia da redemocratização. Charly vinha de uma sequência solo impecável, marcada pelo minimalismo eletrônico de “Clics Modernos”, e encontrou em Aznar o parceiro ideal para elevar o nível técnico das composições. Juntos, eles criaram um som que é o oposto do clichê: seco, preciso e imerso na modernidade da época, mas com uma sofisticação melódica que remete às melhores tradições da canção portenha. O uso de baterias eletrônicas Roland e Linndrum não soa como um artifício datado, mas como uma escolha deliberada para criar texturas urbanas onde o baixo de Aznar — executado com a fluidez de quem havia absorvido o jazz de vanguarda — pudesse cantar livremente.
O disco é quase um EP. A faixa de abertura, “Hablando a tu Corazón” é o seu motor propulsor. Um dos maiores hits da história do rock portenho, a música é uma aula de como construir um hino radiofônico sem abrir mão de camadas intelectuais. A canção abre com uma batida eletrônica firme e sintetizadores cortantes, mas é o baixo fretless de Pedro Aznar que dá o contorno humano à canção, movendo-se com uma agilidade que desafia a simplicidade do pop comum. A letra, direta e urgente, captura o desejo de comunicação em um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia, um tema recorrente na obra de Charly. O refrão é um daqueles momentos raros na música popular onde a euforia e a melancolia se encontram, criando um gancho que grudou no imaginário de toda uma geração de argentinos e que continua soando fresco quatro décadas depois.
Ainda que “Hablando…” seja o hit do álbum, no centro de sua alma está a soberba “Pasajera en Transe”. Lembro de ouvi-la em algum momento do início dos anos 1990, com muito atraso, em alguma emissora de rádio, enquanto realizava uma tarefa mecânica no trabalho. A melodia me capturou imediatamente, me fazendo errar o que estava fazendo. Precisei parar e prestar muita atenção naquilo. Felizmente, o locutor desanunciou a canção e eu compreendi que era de Charly Garcia, mas o título veio como “Pasadena en Transe” ou algo assim. Mas foi suficiente para encontrá-la com certa facilidade naquele tempo de real arqueologia musical. A canção opera em uma frequência hipnótica, sustentada por uma progressão harmônica de teclados, que evoca a sensação de movimento contínuo, como se o ouvinte estivesse, de fato, em trânsito por uma metrópole estrangeira. Aqui, a letra de García abandona o engajamento político direto para focar em uma observação quase cinematográfica de uma figura fugaz. Fala de amor, fala de estar sempre em movimento, mas fala de uma passageira que “engana” o mito da própria viagem. “En trance”, em espanhol argentino é uma gíria para “no truque”, algo assim. Ou seja, é algo como uma pessoa que se move mas … não sai do lugar.
Para o brasileiro que desconhece essa obra, ouvir “Tango” é descobrir uma ponte que nunca foi totalmente cruzada. Músicas como “Ángeles y Predicadores” mostram como o pop pode ser inteligente, mantendo o apelo radiofônico sem sacrificar a complexidade estrutural. Ao completar quarenta anos, o disco permanece como um documento de um tempo em que García e Aznar provaram que a música não precisava de rótulos geográficos para ser universal. Eles não estavam apenas gravando um álbum em Nova York; estavam provando que o rock em espanhol poderia dialogar de igual para igual com o centro do mundo, oferecendo uma lição de produção e sensibilidade que ainda hoje soa como uma aula de escuta atenta.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
