Cidade Dormitório lança belíssimo terceiro álbum

Cidade Dormitório – Cinema Bélico?
40′, 11 faixas
(Matraca Records/YB Records)
(4,5 / 5)
Ouvi falar da Cidade Dormitório pela primeira vez em 2017, quando eles lançaram uma canção com singelo título de “Agora Meu Coração é um Lixeiro Azul Vazio Escroto”, um verdadeiro grito de angústia sentimental amorosa não-correspondida. Não sei por que motivo perdi o contato com a banda e, nesses nove anos, felizmente, o quarteto sergipano manteve-se produtivo e lançou três álbuns. Mais que isso, a Cidade integrou o line up do último Lollapalooza. O último disco deles, “Cinema Bélico?”, chegou há pouco nos streamings, o que comprova que os caras estão em ótima fase. A ideia do nome – um dos melhores do rock nacional atual – se deve ao fato deles serem de São Cristóvão, município da Grande Aracaju, lugar com o conceito que aprendemos em aulas longínquas de Geografia: cidade onde as pessoas só moram, indo trabalhar, viver, consumir, se divertir e passar a maior parte do tempo na cidade vizinha e maior. E isso tem um subtexto poderoso: nada acontece no lugar de onde as pessoas saem e para onde voltam apenas para dormir. E como o rock sempre foi sobre crítica, revolta e atitude, o nome faz todo o sentido possível. Não que a sonoridade dos caras seja “de protesto” no sentido mais simples da expressão. O som que eles fazem é moderníssimo, psicodélico, cheio de ótimas canções.
Aliás, o grande barato de “Cinema Bélico?” é a multiplicidade de informações. É nitidamente um trabalho que reflete o bombardeio implacável de referências, citações, futilidades a que somos submetidos. E como isso, no fim das contas, proporciona pouco ou nada realmente útil. A essa noção/conceito, a Cidade Dormitório vai transpondo essa desorientação para choques de guitarras, teclados, Pixies, psicodelia, MPB dos anos 1970 e mais um monte de detalhes, que vão dando forma a uma liga sonora bem pessoal. A isso, claro, junta-se o conjunto de memórias e vivências de uma parte do Brasil que ainda é vergonhosamente pouco conhecida. Por exemplo, quem aqui sabe como são as ruas de São Cristóvão ou mesmo de Aracaju? Pois é possível perceber muito delas em frações de segundos e sonoridades que vão surgindo ao longo do álbum. “Avenida Canal 5”, por exemplo, é uma bela faixa de reminiscências da adolescência, apresentando ao ouvinte a ideia nítida de que o tempo passou, passa e passará, independente de onde estejamos. “Não tenho medo, tenho saudades”. É essa interseção de impressões universais que vão dando o colorido sobre as impressões personalíssimas da banda.
Fábio Aricawa, Yves Deluc, João Mário e lllucas, a atual formação da Cidade, oferecem essa perplexidade em forma de som nessas onze faixas. Como se espera, elas são caleidoscópicas, cada uma à sua maneira e os resultados, diversos entre si, apontam para esse mesmo caos naturalizado. A produção de Fernado Rischbieter e Pedro Vinci tem a manha de não tentar ordenar esse fluxo de expressões e atuam mais como viabilizadora do todo. Essa pouca intervenção deixa o bicho solto ao longo do disco e isso funciona bem. Cada canção vai surpreendendo o ouvinte de um jeito diferente, impedindo qualquer previsibilidade. Tem o pessimismo revoltado de “O Terço e a Bengala”, que soa mais como um manifesto das contradições cotidianas expostas pela hipervelocidade da internet, sem apontar soluções, ressaltando as contradições simples do dia: “Queria que o ônibus que espero passasse mais rápido//Mas também que as paradas do percurso demorassem mais”. Tem o lirismo desencantado de “Do Compositor”, que questiona a própria função do título nesse caos. E concluindo que, sim, é importante compor e cantar.
Tem a sensacional “Trailers do Futuro”, síntese do corre-corre do tempo em meio à confusão do que veio, do que vem e do que foi. O refrão, lindo, lindo: “O sol voltou//Vamos assistir no escuro os trailers do futuro”. A participação da cantora paulistana Grisa dá mais amplitude aos vocais e à dinâmica da canção. Tem mais pessimismo em “Já Era, Mano”, que dispara mais e mais contra a “inovação, como um anjo de titânio”, uma verdadeira beleza, que retém algo que uma anarquia pequeno burguesa que não seria estranha a um Raul Seixas. E tem a bela “Morcega”, com participação de YMA, uma canção de amor inesperada, derramada, ainda que seja ambientada de um jeito, digamos, pouco convencional. O instrumental é instigante, há um parentesco intencional e assumido com “O Vampiro”, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, que funciona muito bem, já que ambos, Morcega e Vampiro, são imunes à ação do tempo. Além dos quatro cidadãos, “Cinema Bélico?”conta com a presença de YMA, Grisa, Carabobina, Bruno Fechine, Pamela Fernandes, Caio Terra, Giovani Bogas, Marcos Felippe, Flávia Shimura e Leon Perez.
“Cinema Bélico?” é mais um desses discos que capturam o caos total que é a vida no Brasil de 2026. Ainda que a gente teime em estar do lado certo da história, combata o mal e sofra os efeitos de tudo o que existe, ainda estamos firmes. E, no caso da Cidade Dormitório, fazendo esses testemunhos em forma de arte. Belezura total.
Ouça primeiro: “Morcega”, “Trailers do Futuro”, “Avenida Canal 5”, “Já Era, Mano”, “Do Compositor”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
