Cidadão Instigado segue sem medo do risco

Cidadão Instigado – Cidadão Instigado
50′, 13 faixas
(RISCO/Nublu)
(4,5 / 5)
Poucas armadilhas são tão sedutoras quanto a nostalgia. É muito confortável olhar para trás e repetir as fórmulas que garantiram a admiração de um público fiel ao longo dos anos, especialmente quando já se vão três décadas de carreira. No entanto, em seu quinto e homônimo álbum de estúdio, lançado em março de 2026, o Cidadão Instigado escolhe o caminho do risco. Rompendo um jejum de onze anos desde o celebrado “Fortaleza”, o grupo cearense capitaneado por Fernando Catatau entrega um trabalho que substitui o conforto das guitarras espaciais por uma crueza eletrônica, urbana e marcadamente experimental. No caso do Cidadão, “nostalgia” é algo conflitante com sua própria estética, que inclui um olhar crítico para a música brasileira dos anos 1970 e para o rock daquele tempo, sempre conseguindo soar atual. Sendo assim, o desafio ainda parece maior.
O novo repertório começou a ser rascunhado em 2020. Ao retornar para São Paulo durante o confinamento da pandemia, Catatau se viu trancado com uma ferramenta de trabalho nova em sua trajetória: um sampler Roland MV-8800. Distante dos ensaios com a banda completa, ele passou a investigar batidas secas, colagens e ruídos digitais. Lançado em parceria pelos selos RISCO e Nublu Records, o disco alterna momentos de desilusão e insônia com músicas feitas para as pistas. É aquele tipo de som que faz querer dançar mesmo que tudo ao redor pareça desabar. As guitarras, que são a marca registrada da banda, continuam firmes, mas agora ganham a companhia de batidas eletrônicas pesadas, criando um clima que mistura tensão e festa na medida certa.
Esse ar novidadeiro aparece porque a banda converteu a psicodelia clássica num som mais cru e cinzento, que faz as músicas parecerem caminhadas noturnas por cidades desertas. O disco parece assombrado por fantasmas do passado da música brasileira, mas tudo é transformado por batidas tortas e gravado com equipamentos antigos. O Cidadão Instigado funciona aqui como um ponto de encontro, unificando a vanguarda de São Paulo e a nova cena pop do Nordeste, dialogando facilmente com artistas como Ava Rocha e YMA. Mesmo o álbum tendo nascido dos testes que Catatau fez em casa — com a ajuda próxima de Dustan Gallas na direção musical —, a identidade da banda original continua viva. A base rítmica de sempre, com Regis Damasceno, Rian Batista e Clayton Martin, reaparece estalando em “Tudo vai ser diferente”, garantindo que as invenções eletrônicas fiquem presas à pegada humana que o grupo tem desde sempre.
Alguns encontros chamam a atenção pela força. É o que acontece em “Sangue no Chão” e “O Grande Vazio”, onde a voz forte de Juçara Marçal se adapta perfeitamente ao clima sombrio do grupo. A mistura de seu canto com as distorções eletrônicas cria um ambiente hostil, que parece retratar a solidão das grandes cidades. O clima fica ainda mais tenso em “Medo do Invisível”, uma das parcerias mais pesadas do disco, na qual a guitarra de Kiko Dinucci se choca com o ritmo programado nas caixas de som, criando um ruído urgente e industrial. Para dar um alívio no meio de tanta densidade, “Nuvem Movimento” e “Pressão”, gravadas com Jadsa, trazem um balanço meio estranho e cativante ao projeto. Esse jogo de preparação e surpresa também aparece em “Tremendo”, com Ava Rocha. O que parece ser uma canção simples, confessional, logo assume uma forma que se destaca do óbvio. A letra e as batidas vão criando a estranheza, que a guitarra confirma. Quando menos se espera, um trecho canto-falado traz a modernidade para o front. “Frita”, por sua vez, é eletrônica na origem, mas parece simples na execução. A bateria cortada, no entanto, vai do rap ao funk pegando um caminho nada óbvio, com um resultado surpreendente. Tudo isso caminha para o final, com “Sobrevivendo”, com mais de sete minutos. Com a participação de Mateus Fazeno Rock, a faixa traz a própria vanguarda criativa da capital cearense. A música é um desabafo forte sobre a rotina cansativa, a vida nas periferias e as formas de resistir nas cidades.
O novo álbum do Cidadão Instigado mostra que mudar de estilo depois de tanto tempo é um mérito de quem continua inconformado. Catatau, seus parceiros e convidados fizeram um dos trabalhos mais corajosos da nossa música recente.
Ouça primeiro: “Frita”, “Tremendo”, “Nuvem Movimento”, “Medo do Invisível”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
