Son Volt – Union

Gênero: Alt country, Rock alternativo
Duração: 39 min
Faixas: 13
Produção: Jay Farrar
Gravadora: Transmit Sound

3.5 out of 5 stars (3,5 / 5)

 

Este é o nono álbum que Jay Farrar lança à frente de sua banda, Son Volt. A rigor, este é o irmão gêmeo e menos conhecido do Wilco, ambas bandas surgidas a partir de uma origem comum: o Uncle Tupelo. Isso foi há muito tempo, lá pelos meados dos anos 1990. Enquanto Jeff Tweedy levou seu grupo para experimentos e aproximações com outras sonoridades, Farrar ficou firme na seara do country rock alternativo, que fez a delícia de muita gente na virada do milênio e acabou voltando para os subterrâneos ianques das médias e pequenas cidades. Guitarras, harmonias, vocais, tudo permanece do mesmo jeito como se estivéssemos em, sei lá, 1997. E é para essa gente que Son Volt grava novos discos.

Nada errado nisso, claro. Mas há mudanças interessantes por aqui. Farrar é um compositor atento e letrista inspirado, sempre – como a maioria do pessoal dessa geração alt.country – escrevendo com o ponto de vista do americano menos favorecido na cadeia alimentar. É a voz dos bêbados, dos crentes, dos desempregados, dos que não têm grana pra estudar na universidade e permanecem onde nasceram, trabalhando duro, ganhando pouco e sustentando o império. Agora, plena era Trump, esta visão está, como dizem por aí, potencializada na poesia de Farrar. Ele consegue impor suas opiniões e visões sem soar panfletário ou político, do ponto de vista partidário, fornecendo elegância e sentimento à maioria absoluta de suas canções.

A sonoridade que sai das caixinhas de som é uma cruza de momentos seminais de Tom Petty e algumas pegadas de Bruce Springsteen, especialmente em momentos mais introspectivos, como “Nebraska”, “The Ghost Of Tom Joad” e “Devils and Dust”. Farrar, entretanto, não deixa arranjos econômicos pelo caminho, sempre se valendo da tradicional formação baixo- guitarra-bateria e, quase sempre, órgão. É um som polido, elegante e eficaz.

Ao longo das 13 faixas há momentos realmente belos. A melodia sofrida e pungente de “Reality Winner” evoca passagens clássicas do Son Volt de “Trace” e “Straightways”, seus dois primeiros discos. A letra fala de um ex-militar, que é acusado de errar em serviço e que vai preso pelo que não fez. Um verso em particular diz: “Proud to serve, just not this president”, mostrando na sutileza a visão política implícita. Na faixa-título, a constatação do país dividido: “Upstate versus downstate, City versus county, Rural versus urban, Red versus the blue”. E por aí vai. Funciona melhor, obviamente, com quem é americano, mas podemos fazer ajustes e entender que a polarização é mundial e típica do nosso tempo.

Jay Farrar não vai mudar o mundo com este disco, nem quer. É apenas mais uma declaração de alguém que está há quase 25 anos fazendo belas crônicas sonoras da vida do país mais poderoso do mundo, sob um ponto de vista que não aparece nas coberturas da mídia. Vale ouvir e conhecer.

Ouça primeiro: “Devil May Care”.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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