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O Baterista Branco e os Tambores do Continente Negro

 

 

Falar de Stewart Copeland é falar de um dos arquitetos da bateria moderna. Filho de um agente da CIA e criado no Oriente Médio, Copeland trouxe para o rock uma sofisticação rítmica que pouca gente tinha na virada dos anos 1970 para os 1980. À frente do The Police, ele não era apenas o motor da banda; ele era o responsável por injetar o balanço do reggae e do ska em um contexto punk e pós-punk, criando uma assinatura inconfundível baseada no uso cirúrgico dos pratos de ataque e numa precisão quase militar no bumbo. No auge do sucesso, Copeland era o baterista que todo mundo queria copiar, mas o que poucos sabiam era que seu interesse pela percussão ia muito além do kit tradicional de bateria. Ele sempre foi um pesquisador do ritmo como linguagem universal, e foi essa curiosidade que o levou a um dos projetos mais ousados de sua carreira solo quando o Police começou a dar sinais de esgotamento.

 

Lançado originalmente em 1985, “The Rhythmatist” é o resultado de uma expedição de Copeland pela África, capturando ritmos, vozes e ambientes que iam muito além do que se entendia por “world music” na época. Copeland não foi para lá como um turista em busca de um tempero exótico; ele foi como um percussionista obcecado que precisava entender a fonte da polirritmia para se libertar do peso que o The Police havia se tornado. O disco funciona como uma trilha sonora de um documentário que ele mesmo protagonizou, misturando sintetizadores Fairlight com gravações de campo feitas na Tanzânia e no Quênia. O resultado é uma sonoridade que era profundamente tecnológica, mas com o pé na terra e no transe, criando um diálogo entre o mundo digital e a ancestralidade que ainda soa vanguardista.

 

O contexto desse lançamento é fundamental. Em 1985, o The Police estava em um hiato que cheirava a fim definitivo, e a tensão entre Copeland e Sting havia chegado ao limite. Enquanto o baixista e vocalista buscava o refinamento do jazz em sua estreia solo bem sucedida, “The Dream Of The Blue Turtles”, Copeland decidiu fazer o caminho inverso, buscando o “primitivo”. Em “The Rhythmatist”, ele se revelou um arquiteto sonoro capaz de costurar cantos tribais com linhas de baixo sintéticas e guitarras minimalistas. O disco não tinha a obrigação de gerar hits, o que deu a ele a liberdade de criar peças longas e hipnóticas, onde a bateria muitas vezes dividia o protagonismo com o silêncio e com os sons da natureza africana.

 

A influência desse álbum no Brasil foi imensa, encontrando um solo fértil em uma geração que buscava uma saída para o rock “de plástico” da época. O exemplo mais emblemático é o dos Paralamas do Sucesso. Quando Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone ouviram o que Copeland estava fazendo, encontraram parte do mapa para o que viria a ser o álbum “Selvagem?” (1986). A influência é nítida na forma como Barone passou a abordar a bateria, trocando as viradas convencionais por deslocamentos rítmicos e um uso mais percussivo dos tambores. O “molho” africano de Copeland serviu de ponte para que os Paralamas redescobrissem a música negra brasileira e caribenha. Sem esse experimento, dificilmente teríamos a estrutura rítmica de “Alagados” ou da faixa-título de Selvagem? da maneira que conhecemos. E também serviu para mostrar que o trio carioca estava certo em sua própria imersão de artistas africanos e britânicos que miravam na música negra como o futuro do pop.

 

Quarenta anos depois, o disco continua soando fresco porque não se rendeu aos maneirismos de produção dos anos 1980. Ele tem uma crueza que sobreviveu ao tempo, mantendo-se como um documento de um artista que preferiu se enfiar no interior da África com um gravador de rolo a repetir fórmulas comerciais. É um registro de libertação e de entrega total à pulsação que move o mundo, sendo o elo perdido que conecta o rock britânico ao coração do ritmo africano e à reinvenção do rock brasileiro.

 

 

Para celebrar esse marco, “The Rhythmatist” está ganhando uma edição especial de quarenta anos. O relançamento não traz apenas o áudio remasterizado, mas também faixas inéditas das sessões originais e materiais que aprofundam a experiência visual daquela jornada. É a oportunidade perfeita para uma nova geração entender que, antes de o mundo falar em globalização sonora, Stewart Copeland já estava lá, com os pés na poeira e as baquetas na mão, decifrando os códigos do ritmo.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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