Agoniza mas não morre

 

 

Se antes da pandemia já era difícil para blocos e para toda a cadeia produtiva do carnaval de rua conseguir levar a festa para os foliões, com a Covid-19 o cenário se tornou impreciso e desanimador. Fora os problemas clássicos como a enorme burocracia e a falta de diálogo com entes públicos, agora a própria festa está em suspenso. Para as escolas de samba o cenário não é muito diferente.

 

Mas nem tudo está suspenso. A Comissão Especial do Carnaval – que reúne ligas, blocos, escolas de samba, foliões e pesquisadores para diagnosticar os principais desafios do carnaval carioca – acaba de divulgar um relatório final com 38 recomendações para ações que viabilizem a promoção e garantia da festa popular. O documento já foi encaminhando à Prefeitura do Rio.

 

Folia só com vacina

Quanto ao Carnaval 2021, uma das maiores dúvidas, o médico pneumologista e diretor da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), Hermando Castro, que acompanhou as reuniões da Comissão, é enfático: carnaval só com vacina. “O carnaval é um evento necessariamente com aglomerações e, por seu porte e importância cultural, toda segurança deve ser garantida para que não se coloque em risco a saúde da população. O carnaval só poderá ocorrer quando houver uma boa cobertura vacinal, lembrando que, por sua dimensão internacional, é possível que só tenhamos condições seguras de realização com o controle da pandemia a nível mundial”, disse, em entrevista publicada no relatório.

 

Plano de emergência

Mesmo com a imprecisão que a Covid-19 gera, a primeira das recomendações do relatório é implementar um plano de emergência para enfrentar os desafios gerados pela pandemia. Para isso, segundo o documento, é necessário definir critérios científicos para orientar um possível adiamento do carnaval 2021, considerando prazos de imunização necessários para garantir segurança sanitária na cidade; elaborar propostas para o poder público garantir a demarcação simbólica da festa na sua data tradicional; e desenvolver uma proposta de política de auxílio emergencial para os trabalhadores do carnaval a ser colocada em prática no primeiro semestre do ano que vem.

 

“Espremido entre o moralismo conservador, a satanização de certo pentecostalismo e o interesse de empresários do entretenimento, o carnaval viveu anos difíceis, mas sobreviveu. Não por causa da gestão de Marcelo Crivella, mas apesar dela”, aponta o historiador e pesquisador da cultura carioca Luiz Antonio Simas, em artigo introdutório do estudo.

 

De fato, segundo a Riotur, o carnaval de 2020 atraiu em média 2,1 milhão de turistas e gerou uma receita de R$ 4 bilhões. A taxa de ocupação hoteleira foi de 93%, aproximadamente 2,3% a mais do que no ano anterior. De acordo com o Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio (SindRio), o crescimento do faturamento no período do carnaval foi 5% maior do que em 2019. Nos estabelecimentos da orla, o incremento chegou a 15%, impulsionado pelo turismo.

 

Dança das cadeiras

Além de recomendar a implementação do plano emergencial, o relatório da Comissão indica a necessidade de transferir a organização do carnaval para a Secretaria Municipal de Cultura (hoje subordinado à Riotur) e de criação da Subsecretaria Municipal do Carnaval, entre outras medidas.

 

As principais funções da nova pasta seriam organizar o desfile das escolas de samba e do carnaval de rua, promover a ocupação democrática do espaço público e garantir a correta gestão dos recursos públicos destinados às agremiações e aos blocos de rua.

 

Folia sem área VIP

Outra das recomendações do relatório é sobre garantir a liberdade da folia, proibindo qualquer área VIP ou outra modalidade de restrição que cerceie o acesso dos foliões nos blocos, só cabendo cordões de isolamento quando forem para proteger crianças, idosos, portadores de necessidades especiais e grávidas, além das pessoas integrantes ou diretamente ligadas à organização do bloco em questão. O relatório também recomenda preservar a tradição dos blocos, respeitando sua história e a sua relação com seus bairros de origem.

 

Facultar ao bloco autorizado a publicação ou não de informações sobre seu desfile nos materiais de divulgação oficial do Carnaval de Rua do Rio, realizado pela Prefeitura, Produtora e Financiadores/Patrocinadores, é outra sugestão do documento.

 

Mais flexibilização e espaços

Para Cris Couri, pesquisadora sobre economia criativa do carnaval e diretora-executiva do Coreto (Coletivo de Blocos Organizados do Rio de Janeiro), existem algumas oportunidades de desenvolvimento de políticas públicas para o carnaval dos blocos de rua, identificadas em pesquisa realizada junto aos blocos da associação.

“A primeira, sem dúvidas, é a flexibilização das normas para autorização dos desfiles de acordo com a realidade dos blocos. Uma maior transparência nos processos já reduziria alguns problemas. Uma segunda política poderia contemplar a disponibilização de espaços para apresentações e ensaios dos blocos, reduzindo este custo; ou a organização de uma agenda anual de apresentações com os blocos. Ainda são possíveis como políticas de desenvolvimento: credenciamento prévio de uma lista de fornecedores em dia com a documentação necessária (reduzindo o estresse burocrático impostos aos blocos); rodadas de encontros entre fornecedores, patrocinadores e blocos; melhor integração entre os sistemas dos órgãos públicos responsáveis pelo carnaval para um maior acompanhamento; e um modelo de flexibilização de autorizações para eventos dos blocos ao longo do ano”, elenca.

 

 

Escolas de samba

Já para as escolas de samba, para Aydano André Motta, jornalista e escritor, o desafio é sobreviver. “O poder público precisa fomentar a vida das escolas entre um carnaval e outro, além de cobrar profissionalismo e segurança para os trabalhadores de quadras e barracões. O potencial é imenso, mas hoje está inexplorado. A Cidade do Samba e o Sambódromo — equipamentos públicos — precisam ressurgir em sua vocação, com samba e festa o ano inteiro”, afirma, em artigo do relatório.

 

Entre as recomendações para as escolas de samba estão: garantir a realização de ensaios técnicos gratuitos; determinar que a venda de ingressos seja feita pela internet e em bilheteria fixa localizada no Sambódromo; e impedir que ingressos sejam distribuídos a parlamentares, como hoje é feito; exigir da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) e da Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Lierj) relatório detalhado da venda de ingressos para o Sambódromo, que deve ser disponibilizado no portal de transparência da prefeitura, entre outras.

 

Outra medida que chama a atenção – de forma positiva –  é garantir a promoção de uma imagem do carnaval que evite a perpetuação de estereótipos que disseminem preconceitos de classe, gênero, raça, etnia, idade, sexualidade, manifestação de fé, corpo, cultura ou origem.

 

Trabalho em conjunto

O plano a que o relatório se refere foi elaborado a partir de discussões num grupo de trabalho formado em setembro com representantes de ligas de blocos carnavalescos e de escolas de samba e de especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  O documento foi aprovado em audiência pública da comissão no dia 6 de novembro.

 

A Comissão Especial do Carnaval, presidida pelo vereador Tarcísio Motta (PSOL), realizou audiências públicas e reuniões de trabalho ao longo do ano, tendo como prioridade ouvir os trabalhadores do carnaval e os especialistas em saúde para pensar um plano de emergência capaz de garantir a subsistência dos trabalhadores e a própria existência da festa no futuro. Acesse o relatório na íntegra aqui.

 

 

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Celso Chagas

Celso Chagas é jornalista, compositor, fundador e vocalista do bloco carioca Desliga da Justiça, onde encarna, ha dez anos, o Coringa. Cria de Madureira, subúrbio carioca, influenciado pelo rock e pela black music, foi desaguar na folia de rua. Fã de poesia concreta e literatura marginal, é autor do EP Coração Vermelho, disponível nas plataformas digitais.

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