A péssima ideia de começar um blog – ou quase isso
São sete e qualquer coisa da manhã de um sábado, estou num voo pra São Paulo depois de ter dormido menos de quatro horas na noite anterior após ter saído de show que quase me deixou surdo – mandarei possíveis despesas médicas ao trator que ocupava a bateria. Começo as primeiras páginas de Frenesi Polissilábico, coletânea de textos do Nick Hornby sobre literatura-mas-não-só escritos entre 2003 e 2006 para sua coluna na revista The Believer e, de repente, me ocorre a ideia: vou começar um blog.
Me parece uma má ideia, eu sei que é uma má ideia, ninguém mais lê, só grava, e quem escreve se limita a 280 caracteres. Me parece uma má ideia, eu sei que é uma má ideia, e quando eu desembarco do avião e vejo minha cara no espelho do banheiro em Congonhas, a barba suja de pasta de dentes desde as 5h20 da manhã na Tijuca, eu tenho certeza de que é uma má ideia e que só pensei nisso porque dormi mal e não estou pensando direito.
E agora aqui estou eu começando não exatamente um blog, só que quase isso.
Mas vamos voltar um pouco e ver como chegamos nesse ponto.
Passei muito tempo sem ler com consistência. Pelo menos sem ler ficção. Nunca deixei de lado, ou totalmente de lado, textos sobre filosofia, conhecimentos superficiais sobre saúde, sociologia, história etc, mas havia tempos que não dava atenção para estórias, com E, aquelas sobre vidas de gente que não existe, pelo menos não de forma oficial, e suas desventuras em fazer coisas, em lidar com coisas, em se meter em problemas, em sair de problemas etc – e, beleza, eu sei que a palavra “estória” caiu em desuso há sei lá quanto tempo, mas releve essa pequena liberdade. Sentia falta, eventualmente, mas me permiti ficar por demais sem tempo ou sem atenção pra me dedicar a questões como “o que veio primeiro, a música ou a tristeza?”.
Com a proximidade de um período de quinze dias de férias nos quais eu não iria viajar, decidi que poderia mergulhar em páginas e palavras mais uma vez. Usei inteligência artificial pra encontrar indicações – com perguntas como “se Coupland é o britpop, quem é o rock progressivo?” (a saber, a resposta foi Thomas Pynchon, mas vou demorar a ler qualquer coisa dele, porque prefiro ouvir King Crimson a ler um provável equivalente literário) ou “qual seria a versão feminina contemporânea para o que Hornby foi entre o fim dos anos 90 e o começo de 2000?”, “e a equivalente oriental?”, “e se eu quiser ler nomes que influenciaram Hornby e Coupland, por onde começar?” etc.
Saí com uma lista gigante e dei um tiro erradíssimo de largada: comprei quatro livros do Matt Haig.
Depois de dois livros cheios de previsibilidade e um filme que começa com uma vampira adolescente vegana, algo que obviamente me fez desistir da ideia de ler o livro, voltei às compras.
Sally Rooney, Candice Carty-Williams, Andrew Sean Greer.
A essa altura eu já não estou mais tão preocupado em me atualizar, mas em manter o ritmo.
Dave Eggers, Holly Brickley.
E aí eu já perdi o controle e tenho uma pilha imensa na mesa. Incluindo a mesma edição do Alta Fidelidade que eu tinha em 2006. E mais um monte de Nick Hornby, tipo o Frenesi Polissilábico, escolhido para ler no avião depois de ter dormido menos de quatro horas na noite anterior e que acaba sendo o culpado por me dar a péssima ideia de começar um blog. Ou coisa parecida.
Então se estamos aqui agora, significa que sono e audição foram devidamente recuperados, ou pelo menos em parte, e lá vou eu assumir o compromisso de parir pelo menos um texto a cada sei lá quantos dias pra falar sobre algo que li, ou quis ler, e como me relaciono com a obra.
A ideia não é exatamente a de escrever resenhas, mas divagar em primeira pessoa sobre o título, o autor, o contexto. Daí o nome do espaço: primeira pessoa.
Como o livro que me deu a ideia, quero “escrever sobre a experiência da leitura, ao contrário de escrever sobre livros isolados”, questões cotidianas ou fragmentos de memórias que dialoguem com o que escolhi para ler, para reler, para lembrar de ter lido.
E foi assim que eu comecei esse espaço. Uma péssima ideia, talvez. Mas aqui estamos.
Nota do Editor: hoje começamos mais um espaço na Célula Pop dedicado à literatura. Só que, dessa vez, à literatura pop e ponto. Jorge Wagner é um dos grandes leitores e conhecedores do gênero quando ele – o gênero – ainda engatinhava, lá no fim dos anos 1990. Com o privilégio de quem leu e ouviu o que era dito e escrito, ele vai escrever seus próprios relatos personalíssimos por aqui. A sorte é toda nossa.

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.

Eis a reinvenção da coluna-parada-obrigatória! Que seja incrível, Jorge Wagner!